Os coiotes do Brasil


Da ISTOÉ: Os coiotes no Brasil

Atraídos pelo desenvolvimento do País, imigrantes contratam atravessadores e pagam até US$ 10 mil para conseguir entrar ilegalmente no Brasil

Claudio Dantas Sequeira e Bruna Cavalcanti

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PENEIRA
PF tenta coibir quadrilhas de traficantes de pessoas, que usam os
16 mil km de fronteiras secas do País para trazer imigrantes ilegais

Todos os dias, em algum ponto dos 16,8 mil quilômetros da fronteira seca que separa o Brasil de seus vizinhos, um grupo de imigrantes entra ilegalmente no País. Incentivados pela imagem de potência emergente, esses clandestinos caem nas mãos de atravessadores estrangeiros e brasileiros, os chamados coiotes, que encontram por aqui um mercado cada vez mais promissor. Nos EUA, os coiotes são famosos por agir na fronteira com o México transportando pessoas de todas as partes do mundo. Por aqui, o fenômeno ainda é embrionário, mas tende a crescer. Áreas extensas e mal vigiadas, autoridades corruptas e uma lei frouxa tornam o trabalho de repressão praticamente inócuo. O caso do cidadão bengali Mohammad Belal Hossain, detido numa ação da PF no Acre, é exemplar. Escondido num hotel com outros oito ilegais que ele trouxe de Bangladesh, Belal preparava-se para levá-los a São Paulo. Preso em flagrante, pagou fiança de R$ 1,2 mil e desapareceu. A lei prevê pena de um a três anos de prisão para coiotes brasileiros e apenas a expulsão para agenciadores estrangeiros. Assim como o bengali, outros dois bolivianos e dois haitianos também foram detidos – e soltos horas depois – desde o ano passado no Estado.

O Acre, aliás, é a nova base de operação dos coiotes, como fica estampado no grupo de 214 haitianos que desembarcaram em Brasileia (AC) nos últimos meses. Fugindo da miséria e do cólera que assolam o Haiti, os clandestinos podem se transformar num imbróglio diplomático. Sob anonimato, um dos haitianos disse à ISTOÉ que pagou R$ 6 mil para sair de Porto Príncipe e chegar à Amazônia. O coiote, segundo ele, teria nacionalidade haitiana e contatos com policiais brasileiros. Fontes da PF confirmaram que a principal rota utilizada sai de Porto Príncipe e passa por Santo Domingo (República Dominicana), Quito (Equador), Lima e Cusco, no Peru. Ainda em território peruano, os coiotes levam os ilegais até Porto Maldonado e Iñapari. Daí, vão para Epitaciolândia ou Brasileia, por táxi, ônibus ou a pé. Alguns tentam atravessar pelo rio, em local de difícil fiscalização, e pela mata.

“Em esquemas mais organizados, os coiotes direcionam esses estrangeiros até o trabalho que irão realizar, geralmente subempregos na cidade de São Paulo, exigindo que trabalhem para pagar sua viagem”, diz o chefe da Coordenação-Geral de Polícia de Imigração da PF, Antonio Carlos Floriano Lessa. Segundo o delegado, a PF está tentando fechar o cerco aos coiotes através dos adidos policiais e da Interpol. O Itamaraty também tem realizado gestões junto ao governo do Peru e especialmente ao do Equador, que não exige visto de entrada da maioria dos países, facilitando a atuação desses atravessadores. “A maioria dos coiotes que atuam no Brasil faz parte de uma rede internacional, atuando principalmente no Exterior, o que dificulta as investigações”, afirma Lessa.

O esforço da PF, no entanto, parece desconsiderar a participação de brasileiros e agências de viagens que funcionam sob fachada no Brasil. A boliviana Constancia Gonzalves, 65 anos, cruzou ilegalmente a fronteira em agosto do ano passado com a ajuda da agência de turismo “Esmeralda”, que funciona num endereço descaracterizado na rua Coimbra, centro de São Paulo. No local, diariamente às 3h da madrugada, chegam ônibus lotados de bolivianos. “Paguei R$ 620 para trazerem ela”, afirma o filho Juan, que já vive no Brasil legalmente há duas décadas. Ele diz que o negócio foi acertado com o brasileiro de nome Willians, suposto proprietário da agência. À ISTOÉ, Willians disse que só transporta imigrantes com documentos.

Constancia, no entanto, conta que fez a viagem na companhia de duas filhas, uma neta e mais de uma centena de ilegais. O trajeto de Santa Cruz até São Paulo, com escala no Paraguai, levou uma semana, tempo que passou sem poder tomar banho ou se alimentar direito. No meio do caminho, foram obrigados a dormir em hotéis sem banheiro e até garagens de ônibus. Numa dessas paradas, havia mais de 200 pessoas na mesma situação. Constancia diz que teve de pagar fiscais da Polícia Federal para poder seguir viagem. “Uma vez à noite, nos fizeram descer do ônibus e caminhar até uma casa com dois quartos pequenos onde havia policiais. Todo mundo formava uma fila e tínhamos que pagar por um carnê que eles nos davam”, diz. Juan conta ainda que a mãe só foi “liberada” depois que a agência confirmou o pagamento da viagem. “Não sabia que minha mamita viria nessas condições. É muita humilhação.” Se nada for feito, a situação só tende a piorar.

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