Oscilação cambial atual não decorre de crise de financiamento externo

Por Guilherme Mello

Da Fundação Perseu Abramo

Os movimentos acentuados de valorização e desvalorização cambial observados nos últimos dias não decorrem de uma fragilidade brasileira na sua capacidade de financiamento externo. Diferentemente de outras crises externas, a solvência brasileira em moeda estrangeira não está em questão, tanto devido ao elevado volume de reservas cambiais, quanto devido à contínua capacidade do país de atrair investimentos estrangeiros diretos e em carteira, que não se reduziu de maneira significativa mesmo com a turbulência dos últimos meses.

Não se observa uma fuga de capitais da economia brasileira como ocorreu nas crises dos anos 1990 e 2000, quando o Brasil apresentava grande fragilidade externa, com sua dívida pública dolarizada e poucos ativos em moeda estrangeira. Ao contrário, o fluxo cambial permaneceu comportado, com a entrada de US$ 900 milhões no país na semana encerrada em 18 de setembro. Além disso, a desvalorização cambial (que já completa mais de um ano) já começa a apresentar seus efeitos positivos nas contas externas brasileiras, reduzindo rapidamente os déficits em transações correntes, que segundo estimativas do BC devem fechar o ano em 3,7% e reduzir ainda mais em 2016.

O movimento de desvalorização cambial observado no início desta semana aparentemente decorreu de fatores externos, com contribuição de algumas incertezas domésticas. No mesmo dia, a lira turca, o peso mexicano e o rand sul-africano bateram o recorde histórico de desvalorização em relação ao dólar, em movimentos muito similares. Isso implica a existência de uma ação coordenada dos investidores internacionais em relação às moedas dos países emergentes, reforçando o dólar como ativo chave do sistema monetário internacional. Do ponto de vista interno, as incertezas políticas evidentemente criam um cenário de instabilidade para os investidores, mas não parecem ter sido capazes de causar uma fuga de capitais, até por que a desvalorização cambial reduz os ganhos em dólar dos investidores estrangeiros no Brasil. Sendo assim, a ausência de fuga de capitais nos leva a concluir que a oscilação do câmbio está possivelmente relacionada com movimentações no mercado futuro, onde especuladores internacionais constroem tendências de preços (para cima e para baixo) com o objetivo de ganhar dinheiro com as operações de derivativos cambiais, que na realidade são “apostas” sobre a direção do câmbio. Como eles possuem grande poderio financeiro e são capazes de criar tendências (mesmo que descoladas dos reais “fundamentos” da economia), a neutralização destes ataques especulativos exigiria uma maior regulação do mercado de derivativos cambial, particularmente difícil neste momento de ofensiva ideológica neoliberal.

Do ponto de vista do impacto da desvalorização na economia nacional, ele deverá ser pequeno nos índices de preços, em particular com a recessão em curso, que limita a capacidade dos produtores de repassarem o aumento para o preço final dos produtos. De acordo com o Banco Central, o efeito da desvalorização cambial na inflação deverá ser inferior a 0,5%, já considerado o impacto deflacionário da queda da atividade. Em relação ao setor externo, as exportações parecem começar a demonstrar alguma reação ao cambio mais competitivo, aumentando nosso saldo comercial e reduzindo nossos déficits em transações correntes. O mais importante, no entanto, é o ganho de competitividade dos produtos brasileiros frente aos importados, que pode servir como um impulsionador da produção doméstica caso o país encontre alguma fonte de demanda autônoma (interna ou externa) para seus produtos manufaturados.

Guilherme Mello é economista e analista da Fundação Perseu Abramo

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