Petrobrás corta investimento em 83% e reservas desabam 45,5%, por Lauro Veiga Filho

No curso da política de desmonte da petroleira, as reservas provadas de óleo e gás caíram de 16,2 bilhões para 8,8 bilhões de barris. Baixo investimento impede que a empresa faça novas descobertas para bancar o avanço da produção

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Petrobrás corta investimento em 83% e reservas desabam 45,5%

por Lauro Veiga Filho

As reservas provadas de petróleo e gás da Petrobrás desabaram quase pela metade em apenas seis anos, resultado direto do desmonte da estatal, dos cortes nos investimentos e da venda de ativos estratégicos. Em valores oficiais, as reservas somavam 16,183 bilhões de barris de óleo equivalente em dezembro de 2014 e fecharam o ano passado em 8,816 bilhões, saindo de 9,590 bilhões em 2019. Em apenas um ano, portanto, registrou-se baixa de 8,1%. Em todo o período, quer dizer, desde 2014, as reservas encolheram 45,5%. O baixo investimento impede que a petroleira faça novas descobertas e reponha os volumes de petróleo extraídos a cada ano. Na média de 2020, a produção de óleo e gás aproximou-se de 2,84 milhões de barris equivalentes por dia, novo recorde da petroleira, graças, sobretudo, ao petróleo do pré-sal.

Os investimentos realizados pela estatal, que vêm murchando por decisão do acionista majoritário e de suas últimas administrações, haviam alcançado perto de R$ 104,4 bilhões em 2013, correspondendo a US$ 48,3 bilhões a se considerar o valor médio para o dólar naquele ano segundo o balanço da empresa. Em 2020, o investimento ficou limitado a US$ 8,057 bilhões – ou seja, registrou-se um tombo de 83,3% no período. De acordo com Rafael Rodrigues da Costa, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), o valor investido no ano passado foi o mais baixo em quase duas décadas.

Largamente festejado por analistas globais e pelo mercado, os resultados da companhia no ano passado – e destacadamente no último trimestre – foram determinados em boa medida por operações meramente contábeis e não recorrentes (o que significa dizer que não deverão se repetir daqui para frente). No trimestre final de 2020, mostram os dados do balanço divulgados na semana passada, a Petrobrás realizou um lucro de R$ 59,890 bilhões, mais do que compensando todas as perdas observadas nos trimestres anteriores, o que permitiu à companhia fechar o exercício com lucro líquido de R$ 7,108 bilhões – enquanto quase todas as maiores petroleiras do mundo tiveram perdas.

Ganhos contábeis

Na apresentação dos resultados da estatal, a direção da Petrobrás detalha os números do quarto trimestre, conforme aponta também o pesquisador do Ineep. No período, a mudança nas condições de mercado no setor petrolífero, com a alta nos preços do barril, por exemplo, permitiu que a Petrobras reavaliasse para cima o valor de seus ativos (operação chamada de “impairment” pelo mercado), o que trouxe um impacto de R$ 30,970 bilhões sobre o resultado líquido (quer dizer, quase metade do lucro não foi resultado de nenhum ganho operacional). Além disso, as mudanças na cotação do dólar representaram um ganho cambial de aproximadamente R$ 20,0 bilhões e outros R$ 13,1 bilhões vieram ainda engrossar o fluxo de caixa, refletindo “a reversão de despesas com o plano de saúde dos funcionários” da empresa, descreve Costa. “Essas mudanças impactaram positivamente no resultado da companhia em R$ 64,1 bilhões. Não fossem esses pontos destacados, a empresa apresentaria um pequeno lucro no último trimestre e um grande prejuízo no ano de 2020”, afirma o pesquisador.

As despesas operacionais saltaram 73,5% entre 2019 e 2020, saindo de R$ 40,951 bilhões para R$ 71,069 bilhões (alta de R$ 30,118 bilhões), ao mesmo tempo em que as receitas de venda da companhia encolheram perto de 10,0% na mesma comparação, caindo de R$ 302,245 bilhões para R$ 272,069 bilhões (R$ 30,176 bilhões a menos). Uma parcela importante desse aumento decorreu do impacto de baixas meramente contábeis de ativos, influenciadas especialmente pelo “impairment” de R$ 65,299 bilhões realizado no primeiro trimestre, quando o mercado internacional de petróleo virou literalmente de ponta cabeça. No decorrer do exercício, parte daquelas baixas contábeis contra os ativos foi revisada, deixando um impacto final sobre o balanço de R$ 34,259 bilhões.

Embora as operações de “impairment” tenham desempenhado um papel relevante para explicar a elevação dos gastos operacionais, o aumento de R$ 6,75 bilhões nas despesas com materiais, serviços, fretes, aluguéis e outros, apenas em 2020 (alta de 46,4% sobre 2019, avançando de R$ 14,549 bilhões para R$ 21,297 bilhões) também reforçou as pressões naquela área. Em grande parte, como resultado de decisões estrategicamente equivocadas tomadas pela direção da companhia a partir de 2017.

De acordo com Costa, parcela não desprezível da alta nas despesas com serviços, fretes e aluguéis deveu-se “aos custos de transporte do gás natural, que passaram a ser cobrados após a venda da sua subsidiária logística, a TAG”, vendida por R$ 33,5 bilhões. Isso significa dizer que o custo do aluguel pode ter correspondido a praticamente um quarto do valor total recebido pela Petrobrás ao abrir mão de sua subsidiária.

Papel estratégico

Com ganhos sustentados principalmente pela exportação de petróleo em bruto e seus derivados, aproveitando-se de oportunidades surgidas no mercado internacional, providas principalmente pela China, a petroleira brasileira conseguiu compensar em parte das perdas geradas pela crise sanitária no mercado doméstico. Adicionalmente, acrescenta Costa em sua análise, os resultados na divisão de refino da estatal reforçam seu “papel estratégico (…) para mitigar as perdas nos demais segmentos, uma vez que, em um cenário de crise, (a Petrobrás) aproveitou para ampliar a sua produção de derivados em 2,8% e deslocou suas vendas para o mercado externo, sobretudo para os mercados da Ásia e Europa”. O lucro operacional da divisão de refino atingiu R$ 4,3 bilhões, em queda de 32,5% frente a 2019. No setor de exploração e produção, o lucro foi maior, chegando a R$ 50,9 bilhões, mas caiu quase pela metade (baixa de 49,6%).

“Vale lembrar que parte expressiva dessa produção foi refinada pela Refinaria Landulpho Alves-Mataripe (RLAM), refinaria que acaba de entrar em processo de privatização pela Petrobrás”, reforça ainda o pesquisador. Na visão de Costa, os resultados da petroleira no ano passado, ainda que festejados pelo mercado, podem “levantar questionamentos sobre a gestão contábil da estatal”, além de omitirem “riscos futuros, dados pela queda de reservas e desorganização do abastecimento nacional. Essa é uma prova indelével que a Petrobras é importante uma empresa estatal integrada de energia”.

Impairment

Num momento especialmente delicado para a Petrobrás, sua alta direção decidiu adotar duas medidas pelo menos controversas em 2014. Espremida de um lado pelo congelamento virtual dos preços dos combustíveis e de outro pela baixa nos preços internacionais do petróleo e em meio ao tiroteio de denúncias de corrupção e desvios no curso da Operação Lava Jato, a Petrobrás decidiu recalcular o valor de seus ativos e, no mesmo movimento, aplicar um “desconto” de 3% sobre contratos com 27 empresas, direta ou indiretamente envolvidas nas investigações, firmados entre 2004 e 2012, com impacto de R$ 6,194 bilhões sobre os resultados da empresa naquele ano.

A correção no valor dos ativos, chamada de “impairment” pelos especialistas, significou um impacto de R$ 44,6 bilhões, a valores da época, representando algo em torno de 5,5% do valor dos ativos totais da estatal então (próximos de R$ 815,74 bilhões). Aquela revisão levou em conta o atraso em projetos estratégicos no setor de refino e em outras áreas, por exemplo, mas também os preços mais baixos do barril de petróleo. As duas medidas provocaram uma “virada” de quase R$ 45,2 bilhões no resultado líquido da companhia, que saiu de lucro de R$ 23,6 bilhões em 2013 para prejuízo de R$ 21,6 bilhões no ano seguinte. Com impacto muitas vezes maior, a desvalorização dos ativos acabou sendo entendida, equivocadamente, como uma medida do “tamanho” da corrupção na petroleira.

Essa versão, que chegou a ser repercutida mesmo pelo jornalismo dito especializado, jamais se sustentou. Tanto que, em 2015, diante de um tombo de 47,0% nas cotações internacionais do barril, que saiu de um valor médio próximo a US$ 99 em 2014 para US$ 52,46, a contabilidade da estatal realizou outra operação de “impairment” para ajustar o valor dos ativos, com impacto de R$ 47,676 bilhões (5,3% do ativo total). A medida ajudou a elevar o prejuízo para R$ 34,8 bilhões, ou seja, quase 76,0% mais do que em 2014. Muito bem. No primeiro trimestre do ano passado, com o mercado de petróleo literalmente de ponta cabeça, a Petrobrás realizou novo “impairment”, desta vez, muito mais relevante, somando R$ 65,3 bilhões correspondendo a 6,7% do ativo total. Resultado da “roubalheira” na companhia? Nem antes, nem agora. Na verdade, trata-se de uma operação destinada a recalibrar o valor dos ativos segundo as condições presentes no mercado no momento, que determinam igualmente mudanças nas projeções futuras para receitas, fluxo de caixa e resultados, mas com efeitos meramente contábeis. Quer dizer, aquelas operações não afetaram a capacidade operacional da petroleira, que tem sido sim demolida pela política de liquidação dos setores de distribuição, refino e mesmo de campos de petróleo que a direção da empresa considera pouco lucrativos. O objetivo? Reforçar os lucros no curtíssimo prazo (e os bônus respectivos pagos aos executivos da companhia) às custas do futuro da maior empresa do País

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