Os dez anos de rejeição da Alca


 

Por Jota A. Botelho

Na IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata, realizada nos dias 4 e 5 de novembro de 2005, pela primeira vez um grupo de presidentes latino-americanos rejeitaram coletivamente o projeto dos Estados Unidos para formar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

O documentário feito pelo jornalista Martín Granovsky mostra material inédito com a intimidade das discussões entre os 34 líderes, até finalmente chegar ao resultado que Nestor Kirchner, Lula, Hugo Chávez, Nicanor Duarte e Tabaré Vázquez buscavam.

O filme reúne material do Arquivo Histórico da TV Pública Argentina nesse encontro em Mar del Plata, com depoimentos de presidentes, ex-presidentes e ex-funcionários, e também de vários protagonistas do Trem Branco que vieram para Mar del Plata para realizar uma marcha sobre chuva, que ocupou 40 quarteirões, e seguiu para o estádio mundialista José María Minella, onde Chávez cunhou o já lendário “Alca, Alca, al carajo!”.

“Cada um trouxemos uma pá, uma pá de coveiro, porque aqui em Mar del Plata é o túmulo da Alca”, disse Chávez, num discurso inflamado que fez até parar de chover: “Alca, Alca, al carajo!”.

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De acordo com seus realizadores, a filmagem foi fundamental para a reconstrução da tensão e suspense que rodeou as negociações que terminaram com o projeto de Washington de estabelecer um bloco americano liderado pelos Estados Unidos.

Programas como este documentário mostra a importância da recuperação do Arquivo Histórico da Televisão Pública Argentina, que revaloriza a memória dando um lugar significativo na construção do futuro, enquanto o acesso do público ao conteúdo é um passo para consagrar o direito à informação.

O programa contou com depoimentos de Lula, Evo Morales, Alí Rodríguez, Nicanor Duarte, Jorge Taiana, Rafael Bielsa, Alfredo Chiaradía, Hebe de Bonafini, Teresa Parodi, Marco Aurélio Garcia, Samuel Pinheiro Guimarães, Horacio Ghilini e Julio Pereyra.

O Renascimento da Pátria Grande foi integrado pelo diretor Luciano Leyrado, o produtor Iván Granovsky e o diretor de fotografia Gabriel Pomeraniec, com cerca de 85 minutos de duração.

O documentário ‘O Renascimento da Pátria Grande – 10 anos do Não a Alca’ (4 Partes)

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Dez anos depois: e agora?

Nestor Kirchner e Hugo Chávez se foram, no Paraguai governa um golpista, Lula se encontra num mato sem cachorro, exceto o Uruguai que voltou a governá-lo Tabaré Vázquez, mas com inclinações neoliberais. Na Argentina, a direita pode ganhar a eleição e na Venezuela, Maduro enfrenta uma grave crise sóciopolítica e econômica. No Brasil, Dilma balança mas não cai. Os golpes de estados mudaram. A ordem do dia é de que não haja mais intervenção militar, isso é coisa do passado, e que toda manifestação nesse sentido deva ser punida rigorosamente. O novo modelo é do golpe jurídico-parlamentar (já testado e vitorioso na América Latina, inclusive nos EUA, na primeira eleição de Bush filho), onde terão todo apoio logístico, quer seja através dos agentes internos e dos infiltrados, quer seja através de um grande apoio financeiro, se necessário. As mídias tradicionais locais deverão contribuir com a desinformação generalizada e na alienação e despolitização do maior número possível de contingentes populacionais, que depois serão capturados pelas redes sociais, para engrossar uma espécie de apoio popular quase inexistente, mas que podem ser multiplicados ainda mais por esses novos meios de comunicação mais avançados e modernos, cujo controle já estão estabelecidos. Alguns setores da mídia tradicional poderão ser incorporados (outros desaparecerão), mas num papel secundário, pois afinal a publicidade passará a ser canalizada para os novos meios de comunicação que hoje já detém cerca de 50% dos usuários. E agora? Continuidade ou Rendição?… 

Leia também a matéria publicada na Carta Maior:

O Renascimento da Pátria Grande

O trabalho de Granovsky revive o clima da Cúpula das Américas de Mar del Plata, realizada há dez anos, quando os presidentes da região rechaçaram a ALCA

Cristian Vitale

Ele já havia concluído a investigação, e estava escrevendo o livro, quando o tempo desabou sobre si. O livro era (é) sobre aquele “Não à ALCA”, ocorrido há exatos dez anos, na IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata. “Os jornalistas mais experientes têm um problema: se o trabalho não gera um produto industrial, não terminamos”, diz Martín Granovsky. “Por sorte, me ocorreu a ideia de terminar com um resultado que foi além do meu próprio trabalho”, comenta, entre sorrisos. “Decidi fazer um documentário”, conta o jornalista, que terá duas estreias esta semana. Uma delas será da versão coproduzida junto com a Televisão Pública da Argentina, que será exibida às 23h15. A outra será do documentário original, apresentada às 18h, no Festival de Cinema de Mar del Plata. “Há três meses, eu comecei a planificar este trabalho que devia ter, por um lado, testemunhos atuais de vários dos protagonistas e por outro material inédito de arquivo, porque eu sabia que a sessão reservada dos presidentes tinha sido filmada e as cópias dessas imagens estavam pelo menos em dois países da América Latina”, conta Granovsky. Em três meses, o livro não terminado se transformou num documentário concluído e contundente, sob o título de “O Renascimento da Pátria Grande”, com 83 minutos que revivem o clima da cúpula que decidiu rejeitar a formação de uma área de livre comércio das Américas, apoiada pelos Estados Unidos. “Conseguimos os objetivos, porque encontramos o material inédito e os testemunhos dados especialmente para este trabalho, por protagonistas como Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales, o então chanceler de Hugo Chávez, Alí Rodríguez, o presidente do Paraguai da época, Nicanor Duarte, o coordenador da Cúpula, Jorge Taiana, o chanceler argentino Rafael Bielsa, o negociador comercial Alfredo Chiaradía, os que marcharam e protagonizaram o ato no estádio mundialista Hebe de Bonafini, Teresa Parodi, Horacio Ghilini e Luis D’Elía, além do assessor internacional de Lula, Marco Aurélio García, e o vice-chanceler brasileiro, Samuel Pinheiro Guimarães”.
 
“Em meu registro, já não como jornalista, mas sim como graduado em História, o Não à ALCA é o primeiro ato rebelião coletiva contra Washington impulsionada por chefes de Estados em toda a história das Américas”, analisa Granovsky. “Os povos muitas vezes se rebelaram, ou um Estado sozinho pode tê-lo feito, mas nunca houve uma rebelião coletiva desse alcance até então, e que além disso teve sucesso, porque a ALCA só podia ser aprovada por consenso, e esse consenso não foi possível, devido à decisão e atuação dos presidentes da Argentina, Brasil, Venezuela, Uruguai e Paraguai”.
 
“O normal era que os presidentes assinassem algo que já vinha cozinhado, mas naquele caso isso não aconteceu, e Bush não conseguiu reverter as desvantagens da ALCA que ficaram evidenciadas durante as negociações entre os chanceleres”. Granovsky, jornalista do diário argentino Página/12 desde 1987, conta que no documentário é possível ver claramente como o grupo integrado por Estados Unidos, Canadá, México, Panamá, Nicarágua e Jamaica trabalha contra um outro grupo, formado por Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Venezuela, no qual “em alguns momentos, parece uma assembleia universitária ou sindical, onde os olhares importam, os gestos, as simpatias, os rancores e as disputas”. Uma assembleia de 34 chefes de Estado, “algo que normalmente não acontece porque as decisões estão previamente cozinhadas”. Outro fator novo importante é que as reuniões a portas fechadas não se filmam, mas em Mar del Plata elas foram filmadas. “Eu sabia disso, e uma coisa é que isso seja contado em um livro, outra bem diferente é que seja visto, por exemplo, o gesto furioso de insatisfação de Kirchner quando o primeiro-ministro de Canadá insiste pela quinta vez em não passar a outro tema, como o presidente argentino havia proposto, e propõe seguir debatendo algo que já havia sido discutido 25 vezes.”
 
– O gesto que potencializa um suporte como o documentário.
 
– Exatamente. Esta é a cozinha das decisões, que é duplamente inédita. Primeiro porque nunca passa ao nível multilateral, e além do mais está filmada. Ver esse material é uma experiência didática importante. Toda a história das Américas, toda a relação entre os Estados Unidos e o resto do continente estão concentradas em dois dias, em convergência com a participação popular. O trem de Buenos Aires a Mar del Plata, a marcha de 40 quadras debaixo de chuva, o ato onde Chávez repete “ALCA, ALCA, al carajo”… Nosso trabalho tem momentos muito belos. Teresa Parodi canta a capella. Evo, que em 2005 era candidato e só ganharia as eleições em dezembro, conta, em um salão do Palácio Quemado de La Paz, que quando soube o resultado da cúpula, disse a si mesmo: “se ganho (as eleições), vou estar protegido”. Logo em seguida, percebemos que a cúpula tinha um significado especial para a vida de todos os que participaram. Notamos nas entrevistas que deram e em seus semblantes durante os testemunhos. Eles se transformam. Nossa equipe foi integrada pelo diretor Luciano Leyrado, pelo produtor Iván Granovsky e pelo diretor de fotografia Gabriel Pomeraniec. Três profissionais maravilhosos, que puderam captar, com toda a objetividade, como os protagonistas choram, como se emocionam, como sorriem felicidade.
 
– O fator emotivo…
 
– Lula diz, ao falar sobre sua relação pessoal e política com Kirchner e Chávez que essa “era a alegria da integração”. E aqui eu quero fazer um pouco de história: para conseguir um NÃO ao projeto da ALCA, era preciso um consenso, porque nas cúpulas não se vota. Ou são todos ou é nenhum. O que contam os presidentes no documentário é que a química foi gerada por eles mesmos. Lula fala de Kirchner e se emociona, a comoção típica de quem lembra de um amigo muito querido. Descreve Chávez como uma pessoa amável e hiperativa. Alí Rodríguez fala que Chávez tinha obsessão pelos projetos de integração. Duarte disse que se sentia constrangido, porque os chefes eram Lula, Chávez e Kirchner, enquanto ele e o uruguaio Tabaré Vázquez, como chefes de Estado de países pequenos, eram a tropa.
 
O contraponto dos testemunhos e o arquivo inédito terá uma versão que será transmitida no próximo sábado, dia 7 de novembro, pelo canal TeleSur. A transmissão foi possível, como conta Granovsky, “graças à visão da presidenta do INCAA (Instituto Nacional de Cine e Artes Audiovisuais da Argentina), Lucrecia Cardoso, pelo entusiasmo imediato de Patricia Villegas, da Telesur, de Pablo Gentili, da Clacso (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), pela alegria eficaz de Tristán Bauer para a coprodução e por aqueles que entenderam que para não fazer uma obra comercial, para que os documentários possam ser difundidos gratuitamente nas universidades, nos sindicatos ou nos partidos políticos de toda a América latina, em vez de pensar nas vendas, era melhor participar da sua realização, e assim o fizeram o Instituto Lula, a Federação Latino-Americana dos Trabalhadores da Educação, a Universidade Metropolitana pela Educação e o Trabalho, a Federação Latino-Americana de Municípios e a Federação Argentina de Municípios, entre outros”.
 
“Não se trata de deixar o jornalismo escrito e muito menos minha colaboração com o diário Página/12, que depois de 28 anos é uma casa muito querida, mas em me dedicar a fazer documentários a partir do ano que vem”, conta Granovsky. “Não sabia como, e agora aprendi algo trabalhando com Lucho, Iván e Gabi, portanto tenho um ofício a mais na vida.”
 
Tradução: Victor Farinelli

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