Pobreza é Decisão Política, por Nadejda Marques

Não há dúvidas que o brasileiro é solidário. Frente a omissão e negligência do Estado, os brasileiros se organizam para fornecer alimentos e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade e comunidades carentes.

Pobreza é Decisão Política

por Nadejda Marques

Cerca de 6% dos US$1.9 trilhões de dólares do plano de estímulo econômico, aprovado pelo Congresso Americano e o Presidente Biden no início deste mês de março, será designado diretamente a famílias com crianças e em situação de pobreza no país.

Durante um ano, essas famílias devem receber entre US$300 dólares (R$1.695 reais) ao mês por cada criança de até 6 anos de idade e US$250 dólares (R$1.412 reais) ao mês por criança com idade entre 6 a 17 anos. Após um ano de pandemia da COVID-19, essa medida deve reduzir o número de crianças vivendo em condição de pobreza nos Estados Unidos em cerca de 45%. Não é pouca coisa. Atualmente, são cerca de 11 milhões de crianças que vivem na pobreza nos Estados Unidos sendo que 7 milhões delas vivem em famílias que não tem recursos suficientes sequer para se alimentar.

Não é pouca coisa porque a situação é bem pior do que os dados revelam pois são dados com base informações do último Censo (2010) e estimativas orçamentárias da década dos anos 1960. Não leva em consideração gastos com habitação, que tem subido vertiginosamente e, muito menos, variações no custo de vida segundo a região do país.  

Os benefícios serão mantidos por um ano mas, com o apoio de alguns congressistas, Democratas e Republicanos, espera-se que essa medida venha a se tornar um programa mais amplo para a redução da pobreza infantil no país e possibilitar a mobilidade social, o tal “sonho americano”.

A maioria dos países desenvolvidos como Canadá, Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Inglaterra, Noruega e Suécia também fornecem pagamentos em dinheiro para subsidiar os custos das famílias com crianças. Na Inglaterra, por exemplo, há mais de vinte anos, Tony Blair, então primeiro-ministro, propôs medidas para a redução da pobreza entre as crianças que seriam o carro-chefe de seu mandato. Em 10 anos (de 1998 a 2008), o número de crianças em situação de pobreza na Inglaterra caiu de 3,4 milhões para 1,7 milhões de crianças, uma redução de 50%. Embora o programa inglês tenha sofrido cortes e, em grande parte, suspenso em 2016, o governo inglês ainda garante o pagamento mensal de até £84.20 (R$648 reais) por criança para famílias em situação de pobreza. 

Nenhum desses programas teve a dimensão da estratégia contra a pobreza implementada pelo Brasil. Combinando programas como o Fome Zero, Bolsa Família, Cartão-alimentação, Programa de Restaurantes Populares e outros, entre 2001 e 2012, o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema (pessoas que vivem com menos de US$1 ao dia) em 75%!!! Mas isso foram outros tempos. Hoje a fome no Brasil atinge mais de 10 milhões de pessoas. Chegamos a tal ponto que a frase “quem não morre por Covid, morre de fome”, que já ouvi várias vezes, não é nenhum exagero.

Não há dúvidas que o brasileiro é solidário. Frente a omissão e negligência do Estado, os brasileiros se organizam para fornecer alimentos e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade e comunidades carentes. Esse é um dos poucos brilhos que vemos em tempos tão sombrios. Mas, não só de caridade se faz uma nação. Precisamos de uma solidariedade com engajamento político. É preciso explicar as pessoas o quão absurdo é a redução dos benefícios do programa Bolsa Família e a destruição dos mecanismos de inclusão social no Brasil como o Sistema Único da Assistência Social (SUAS) e do Cadastro Único. É preciso questionar por que o Brasil insiste em ir na contra-mão da história e que todos entendam de uma vez por todas que pobreza não é opção, é decisão política.

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