A juventude radical da Inglaterra, por Ben Beach

Enviado por Antonio Ateu

Conheça a Nova Geração de Estudantes Radicais da Inglaterra

Por Ben Beach

Da VICE NEWS

“Eu sabia que pagar £ 9 mil [R$ 53 mil] de taxas era ridículo, e sabia que estava pronto para fazer alguma coisa a respeito”, diz Angus O’Brien, que faz Estudos Sociais e Políticos Europeus na UCL. “Não é simplista dizer que as universidades deveriam ser um espaço livre e aberto de aprendizado. Quando os estudantes são obrigados a agir como consumidores, o propósito da educação se perde.”

Ser um calouro numa universidade inglesa em 2015 não é o que você idealizaria. Para falar o mínimo, é um momento complicado para buscar um diploma na Grã-Bretanha. As matrículas podem ter batido recordes, mas as perspectivas dos formados, para a maioria, estão sumindo rápido. George Osborne, entre outras coisas, pretende abolir o subsídio de manutenção, e um aumento nas taxas de matrícula é esperado no país. Muitos estudantes se sentem completamente fodidos, enquanto muitos outros ainda nem colocaram os pés nas salas de aula. No final de semana passado, os estudantes ingleses realizaram um protesto nacional ambiciosamente batizado de “Educação gratuita e subsídios para todos – sem barreiras, sem fronteiras, sem negócios!”. Mas quem são os estudantes da nova safra de esquerdistas do campus se levantando contra um governo que gostaria que os universitários parecessem menos com o Rik do The Young Ones, e mais com o elenco de O Jovem Aprendiz?

Ele Boiling tem 18 anos e começou seu curso na London School of Economics em setembro. Ela acabou de se juntar a Free University of London, um grupo ativista que recebeu apoio de David Graeber e Russell Brand depois de ocupar o prédio da LSE por seis semanas no começo do ano. “Muitos de nós vão se formar devendo dezenas de milhares de libras. Vamos acabar em estágios não remunerados numa busca desesperada por emprego”, ela explica.

“É uma certeza de que a ação direta será uma ocorrência cada vez mais regular sob este governo”, disse Boiling, que, antes de se mudar para Londres, foi parte da campanha anti-Farage em South Thanet, onde o líder da UKIP questionou o resultado das eleições gerais. “Pode haver uma tendência em desistir e obedecer, porém, se nos organizarmos em números ainda maiores e continuarmos com as ocupações e os protestos, seremos uma força grande demais para ser ignorada.”

A vista do topo do Millbank no dia em que o prédio foi invadido por estudantes em 2010. Foto por Henry Langston.

Cinco anos se passaram desde que ativistas invadiram o QG de Millbank do Partido Conservador; agora, uma nova geração de estudantes radicais está tomando forma. Numa paisagem política em transformação, o movimento estudantil pode se encontrar em vantagem estratégica. Ocupações recentes já começaram a chamar a atenção do mundo para a luta nas universidades britânicas; assim, depois da ascensão de Jeremy Corbyn – impulsionado para a liderança pelo entusiasmo da juventude –, há uma reserva em expansão de ativistas experientes convergindo para os campi do país.

“Me voluntariei na campanha de liderança de Corbyn – foi uma das razões para me tornar mais ativo politicamente neste ano”, frisa Demaine Boocock, um novo recruta da Free University de Sheffield, cujas bandas favoritas são The Smiths e The Clash. “A atmosfera da campanha foi muito especial, e é revigorante ter um líder do Partido Trabalhista que apoia sem medo a educação gratuita.”

Das 13 mil pessoas que se voluntariaram para a campanha de Corbyn, grande parte delas era de estudantes. Enxames da juventude supostamente apática lotaram seus comícios: a idade média dos membros do Partido Trabalhista caiu 11 anos no verão, e camisetas “Team Corbyn” podem ser vistas nos campi tanto quanto keffiyehs.

O que isso realmente quer dizer para o movimento estudantil é simples: algumas barreiras táticas, pelo menos temporariamente, caíram. Os eventos do verão podem apresentar uma oportunidade para multiplicar seus esforços.

Polícia versus estudantes em 2012.

O’Brien, que foi membro do Partido Trabalhista brevemente sob o comando de Ed Miliband, até que “ele disse alguma coisa horrível sobre imigração”, acredita que a eleição de Corbyn significa que, pela primeira vez numa geração, um líder da oposição pode ter um movimento criado ao redor de si.

“Atualmente, devoto muito do meu tempo à luta contra as taxas de acomodação no campus”, explica O’Brien, “agora, você imagina o que aconteceria se os estudantes de uma universidade de Londres fizessem uma greve de aluguel e ganhassem?”

E, algumas semanas depois de falar com O’Brien, os grevistas da UCL – protestando contra o que viam como condições de vida “insuportáveis” apesar do aluguel alto –venceram. Mesmo com ameaças ilegais de sanções acadêmicas, e até de expulsão, a campanha teve sucesso. Esses ativistas conhecem política, seus objetivos e – o mais importante – seus direitos.

Os ativistas hoje se sentem preparados para ajudar os outros ingleses que estão desafiando aluguéis exorbitantes por toda a capital e além. Laços com movimentos sociais mais amplos estão se formando. Por exemplo, em Manchester, uma coalizão cada vez maior de ativistas emergiu em defesa da crescente população sem teto da cidade. Essa coordenação, em escala local e global, é um sintoma da quebra do isolamento da política estudantil.

No entanto, a construção de um impulso vai depender da resistência a qualquer repercussão. Stuart McMillan, 19 anos, admite que a cobertura da imprensa frequentemente é “prejudicial e deprimente”, embora, como ele insiste, “devamos lembrar que eles estão lentamente perdendo o controle da consciência do público”. McMillan, que foi influenciado pela Internacional Situacionista e por seu papel nos levantes de Paris de 1968, se identifica com as ideias de descentralização do poder, sindicalismo e ação espontânea.

“Agora é a oportunidade pela qual estivemos esperando para mudar a narrativa política”, explica Rebecca Easton, 18 anos, em seu sotaque forte de Leeds. “Depois do resultado da eleição em maio, achei que o otimismo tinha sido apagado da nossa geração, mas as coisas estão mudando rapidamente”, afirma Easton, que é parte de uma campanha contra a fome local desde a adolescência. E o clima de ressurgimento é o epicentro desse grupo novo de estudantes radicais, enquanto o verão do despertar da esquerda britânica lhes forneceu um foco.

“Vamos vencer – as regras estão mudando rapidamente, e o poder não consegue acompanhar isso”, declara Dan Mulroy, outro calouro que se descreve como um anticonsumista com uma queda por brechós e cidra caseira, cujo cronograma está mais ocupado por reuniões públicas do que aulas. “As pessoas estão indignadas com razão, e isso é ótimo, porque elas estão se juntando. Se isso continuar crescendo, quem sabe onde estaremos em alguns anos?”

Para aqueles que em breve estarão liderando essa luta, o futuro é cheio de incertezas. Eles não sabem em que tipo de Inglaterra estarão se formando nem que tipo de universidade deixarão para trás. Só que sua determinação é inabalável, sua experiência é autêntica e suas motivações são profundas.

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