Singer: Lava Jato vaza delações para inflar protestos convocados pela direita

 
 
Jornal GGN – O uso de delação já conhecida de Marcelo odebrecht como se fosse um vazamento fresquinho, às vésperas da manifestação pró-Lava Jato marcada por movimentos de direita para o domingo (26), reafirma a tese de que a imprensa ajuda a força-tarefa a criar motivos para levar pessoas às ruas. Mesmo se for preciso desrespeitar o lema de que “notícia velha não vende”, aponta o cientista político André Singer.
 
Em artigo na Folha deste sábado (25), Singer lembra que em março de 2016, às vésperas do impeachment de Dilma, a Lava Jato também provocou uma série de vazamentos à imprensa com o intuito de criar o clima ideal para os protestos de rua.
 
O GGN, à época, fez um levantamento exclusivo em cima da cobertura midiática de toda a Lava Jato até aquele momento e mostrou que a operação nunca vendeu tantas capas de jornais como nas semanas que antecederam o impeachment. Leia mais aqui.
 
Por André Singer
 
Folha
 
 
Sou avesso a teorias conspiratórias. Parto do princípio de que processos complexos, como os que vigoram na sociedade contemporânea, são sempre resultado de múltiplos fatores. Nenhum centro consegue controlar o conjunto deles.
 
No entanto, chamou-me a atenção o novo vazamento das declarações de Marcelo Odebrecht ao TSE em 1º/3 ocorrer às vésperas das manifestações programadas com o intuito de defender a Operação Lava Jato em 26/3. O estranhamento decorre de que o conteúdo principal do depoimento já havia sido divulgado, nos mesmos termos, quase um mês atrás.
 
Pode-se ler em “O Estado de S. Paulo” de 2/3/2017 o que Marcelo dissera ao ministro Herman Benjamin. Segundo o primeiro vazamento, Odebrecht afirmara que boa parte do doado pela empresa à chapa Dilma/Temer ocorrera por meio de caixa dois e “a petista tinha dimensão da contribuição e dos pagamentos, também feitos com recursos não registrados ao então marqueteiro do PT João Santana”.
 
Agora, a mesma afirmação volta a ganhar enorme destaque, meramente porque a transcrição do que fora gravado em 1º/3 chegou a um site antipetista e, em seguida, a todos os grandes veículos de comunicação, no estilo do que foi apontado pela ombudsman da Folha (coletiva em off) no domingo (19). O lema jornalístico de que notícia velha não vende caiu em desuso?
 
Não se trata de diminuir a importância do supostamente revelado por Odebrecht. Ele fala de edição de medida provisória com expectativa de retribuição pecuniária, conversa sobre recursos com o então vice (hoje chefe de Estado), conhecimento da então presidente sobre pagamentos, para mencionar apenas alguns aspectos.
 
Embora não saibamos o que disso tudo está amparado por provas —sem as quais é apenas a palavra de um contra a palavra de outro—, reitero o que tenho dito e escrito: os personagens e instituições envolvidos precisam desde logo oferecer explicações detalhadas à opinião pública. Insistir no sintético bordão de que tudo foi feito dentro da lei é cada dia menos suficiente diante de relatos como o de Odebrecht. A exigência vale tanto para direita e o centro quanto, evidentemente, para a esquerda.
 
Compreendida a premissa acima, fica a hipótese de que o timing desses vazamentos esteja relacionado à necessidade de levar gente às ruas no domingo, como aconteceu em março de 2016 e acabou por ser decisivo para o sucesso do impeachment em abril do mesmo ano.
 
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Não posso deixar de registrar que a aprovação na quarta (22) de um projeto de terceirização engavetado desde 2002 escancara o forte viés antitrabalho da maioria formada para derrubar a ex-presidente Dilma Rousseff. 

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