O momento para a esquerda pautar a discussão sobre a escola e a educação, por Daniel Gorte-Dalmoro

Antes de discutirmos o que ensinar e como - e mesmo para quê -, cabe perguntar qual a função da escola no mundo hoje.

O momento para a esquerda pautar a discussão sobre a escola e a educação, por Daniel Gorte-Dalmoro

Talvez não tenha havido nos últimos anos momento mais oportuno para impôr uma pauta progressista na discussão sobre os rumos da educação no Brasil – perdemos essa oportunidade quando nos governos petistas, talvez impelidos por questões mais prementes e que avançavam, como financiamento. Com Fundeb aprovado e Weitraub fugido, a principal discussão da área deve ser sobre a volta às aulas no contexto da pandemia. Ainda que envolva aspectos pedagógicos, não é exatamente uma questão pedagógica: eis o momento de colocar certas questões essenciais em pauta, antes que o governo o faça – ou movimentos privatistas/predadores da educação, tão bem representados na figura da deputada Tábata Amaral.

Aliado ao respiro que a aprovação do Fundeb trouxe, a entrada de Milton Ribeiro no ministério da educação não deixa de ser um alento: sai a proposta de destruição pura e simples de educação – parte da guerra contra o “marxismo cultural”, entendido como tudo aquilo que não seja adestramento para a brutalidade e a submissão -, e entra uma proposta, péssima, mas uma proposta: privatista, reacionária ao extremo – ao que tudo indica -, que crê que se educa pela dor, pelo autoritarismo (sempre confundido com autoridade, apesar de serem conceitos bastante distintos, por mais que possam ter intersecções) com vistas à formação de força de trabalho servil (portanto acrítica e desconhecedora da própria cidadania) e para os valores da família e da igreja (substitutos da cidadania negada). É um retrocesso, mas é um avanço: sem a estridência do pupilo olavista e provavelmente trabalhando mais nos bastidores, dá para entrar em algum debate público racional.

E o contexto permite que as esquerdas, o campo progressista, os pedagogos e pesquisadores da área consigam colocar e balizar o debate agora. A pandemia e a forma como ela atingiu a educação em todos os níveis (até mesmo a educação à distância, falo por experiência!), com a suspensão das aulas e os arremedos ensaiados pela internet, dão a oportunidade de ouro para se perguntar: para quê serve a escola? Qual deve ser a função da escola? Qual o papel da educação na dita sociedade do conhecimento e o que deve ser ensinado – na escola e fora dela? Ensino à distância substitui o ensino presencial?

Não sou pesquisador da área, apenas um diletante que desde sempre gostou de pensar e refletir sobre o que vivencia quotidianamente. Tenho experiência tanto com educação presencial quanto à distância, como professor (ensino superior EaD e educação popular presencial) e como aluno (dois diplomas de graduação e um mestrado presenciais (fora três graduações inc ompletas), uma graduação e uma especialização à distância, e cursando mais uma graduação EaD). Como professor, EaD é frustrante. Como aluno, tem seus aspectos positivos – mas realmente não sei o quanto as crianças estão preparadas para lidar com um meio altamente dispersivo como a internet, se sequer os adultos estão. É interessante para ir direto ao ponto de certo assunto, sem que o professor se perca eventualmente (não raro) em digressões, facilitando entender a linha de raciocínio. Para uma aula expositiva de fixação de conteúdo, vale, para formação de pensamento crítico é um instrumento precário: não substitui as trocas em sala de aula e outros ambientes escolares – os fóruns são arremedos cansativos e pouco produtivos.

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E o “ensino EaD” é um dos temas na pauta, não só pela pandemia como desde que foi aprovado que 30% do Ensino Médio pode ser ministrado nessa modalidade, pela reforma do golpista Temer, e com a proposta do governo Bolsonaro de ampliar para todo o ensino fundamental (trata-se de um prato cheio para aliciação das igrejas evangélicas, que poderão cuidar da merenda e da formação do “caráter” das crianças, enquanto os pais trabalham e o Estado se desobriga e economiza). A experiência da pandemia vai fazer alguns defenderem, outros criticarem, vai ter quem levantará o ponto da popularização da internet no país, e nessa discussão vai passar que essa não é uma questão essencial – eu diria que beira a irrelevância, se não se aceitar os termos postos por quem vê educação como mera formação de força de trabalho.

Antes de discutirmos o que ensinar e como – e mesmo para quê -, cabe perguntar qual a função da escola no mundo hoje. A ideia de um ensino conteudista (que é o que está por trás da defesa do ensino EaD) é totalmente pertinente para a década de 1950, quando ter uma fonte de pesquisa, como uma enciclopédia, significava morar perto de uma (rara) biblioteca pública ou ter boas posses para comprar uma e deixá-la na sala – diante desse empecilho, o mais recomendado era que as pessoas tivessem vários dados e datas guardados na memória. Isso para não falar das fontes de informação, também escassas e unidirecionais. Hoje tem-se todo esse conteúdo facilmente à mão e em qualquer lugar, graças à internet. Tal aparente facilidade, claro, não substitui o conhecimento prévio: se não se souber que houve ditadura militar na Argentina, por exemplo, não se vai pesquisar o nome dos ditadores do período; não conseguir entender e interpretar um exercício de análise combinatória não vai permitir pesquisar as fórmulas que permitam resolvê-la. Conteúdo segue importante, porém não deveria ser o centro do processo de educação – sei que há muito não há mais essa centralidade, ao menos dentre os teóricos da educação, contudo é a visão senso comum da escola e da educação, daí que tanto a questionam.

Se os novos meios de comunicação rebaixaram a importância da escola quanto ao repasse de conteúdos, eles aumentaram a importância que ela tem no ensino da socialização das crianças e jovens: em uma sociedade do medo, onde cada um fica fechado em sua casa ou condomínio – todos consumindo, pensamento, agindo, se comportando de modo muito semelhante -, interagindo por meio de telas – que podem ser desligadas ao primeiro sinal de desavença e encerrar a discussão -, a escola pode surgir como centro dessa socialização, dessa forma de interação humana que a sociedade do espetáculo tenta minar. Interagir cara a cara com alguém é se responsabilizar imediatamente pelo que é dito e a forma como é feito, é entender que o tempo não é infinito e que não dá para falar tudo o que deseja a qualquer momento, é ser educado não para a tolerância com o diferente, e sim para a convivência com ele, sem se sentir ameaçado por isso – porque não há mesmo ameaça.

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E se aceitarmos que a socialização e a convivência são as funções principais da escola na sociedade atual, a própria ideia de educação privada pode ser questionada num segundo momento: se a proposta é a de conviver com o diferente, é preciso que estejam presentes no mesmo ambiente diferentes classes sociais, diferentes experiências de vida, diferentes visões de mundo. E se é um centro de socialização e convivência, logo pode servir para educar os pais também – quem sabe tirá-los do lodo fascista onde chafurdam contentes por pentercer a uma pretensa irmandade de puro coração e valores -, servir para engajar a sociedade toda na educação das crianças – não só -, tirando essa responsabilização excessiva da escola e dos educadores – os CEUs da gestão Marta podem ser encarados como um primeiro e tímido ensaio.

O que estou propondo não é nada revolucionário. É uma proposta de educação liberal, afim a muitos valores da sociedade, ao menos dos valores cultivados pela e para as elites – não por acaso, alguns colégios e métodos já há tempos equilibram conteúdo e convivência. É contudo, uma forma de escaparmos da armadilha de discutirmos questões posteriores, como métodos e objetivos – forma de se manter tudo como está, ainda mais na atual correlação de forças, com avanço do fundamentalismo religioso. Discutir a função da escola é pôr em questionamento a própria sociedade, sua forma de produção, os valores que reproduz, os ideais que almeja. É preciso que saiamos de uma posição reativa e de negação e avancemos com propostas e questionamentos que mobilizem o debate público e criem o ambiente para, no futuro, possam ser discutidas reformas mais transformadoras da educação formal – e de toda a sociedade.

28 de julho de 2020

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PS: Enquanto pensava neste texto, lembrava do problema da educação durante a pandemia, o fato de muitas pessoas não terem acesso a celular e internet. No início da pandemia até houve um movimento pedindo que fosse liberada internet gratuita para todos – até como forma de estimular ficar em casa -, isso antes de entrarmos no debate se o vírus existia de verdade ou não era invenção e outros non senses do tipo. Curiosamente, não se pensou que há concessões públicas de televisão que abrangem todo o território nacional, e que tem nos termos de sua concessão a utilidade pública e fins educativos. Com programas suspensos por causa da pandemia e crise financeira das emissoras, daria para o governo negociar os horários da manhã para oferecer teleaulas, das oito ao meio dia. São cinco emissoras de abrangência nacional (Globo, Record, SBT, Band e Rede TV!), isso totaliza 20 horas todas as manhãs; dá para ter um canal somente para crianças não alfabetizadas e outra só de revisão para Enem, e ainda sobraria uma hora para cada série. Certamente pedagogos saberiam fazer a coisa render melhor, ainda assim seria algo bastante precário; contudo, ao menos as crianças não ficariam totalmente paradas, e os pais também teriam um momento de folga (por sinal, falou-se muito do aumento da violência contra a mulher durante a pandemia, é de se questionar se não houve também aumento da violência contra as crianças no período). Esta ideia soa meio descontextualizada a um texto que fala em questionar o ensino baseado no conteúdo, a expus porque é serviu para me lembrar que há outros meios que podem ser usado para educação, estão à mão desde muito tempo, e deixamos passar.

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