Oportunismo diplomático e manipulação da miséria alheia: o caso Skripal, por Eugênio Aragão

Premiê britânica Theresa May. Foto Human Rights Watch

Oportunismo diplomático e manipulação da miséria alheia: o caso Skripal

por Eugênio Aragão

Há dias o governo conservador do Reino Unido está às turras com o governo de Moscou, atribuindo-lhe autoria intelectual no envenenamento, em solo britânico, do ex-agente duplo de naturalidade russa Sergej Skripal e de sua filha Julia Skripal. A imputação foi suportada, também, pelo governo de Donald Trump.

O único indício que levaria à suspeita sobre o envolvimento da Rússia seria a proveniência do veneno supostamente utilizado, o composto Nówitchok, desenvolvido como arma química na antiga União Soviética. O governo de Moscou refuta com veemência as acusações, atribuindo-as à perda de compostura dos governos britânico e norte-americano e ao interesse da Grã-Bretanha de chamar para si a solidariedade internacional.

Com efeito, vinte e quatro países da União Europeia declararam diplomatas russos persona non grata, em apoio à iniciativa britânica de expulsar dezenas de agentes da embaixada da Rússia em Londres. A solidariedade coletiva nesse âmbito é inédita e de extrema truculência, ainda mais que repousa sobre fragilíssima suposição de participação oficial num atentado a pessoa de vida profissional controvertida, meramente porque, há décadas, o produto talvez usado no episódio teria sido desenvolvido e fabricado pelo governo soviético.

Há diversos aspectos que militam contra a autoria oficial russa. Em primeiro lugar, a Federação Russa, como membro da Organização para Proibição de Armas Químicas (OPCW), se submete regularmente a sua fiscalização ostensiva. Ainda na década de noventa do século passado e na primeira deste século, destruiu todo o arsenal de armas químicas que herdou da antiga URSS, sendo o procedimento auditado pela OPCW. Em segundo lugar, é notório que a Rússia perdeu maciçamente seus cérebros especializados na tecnologia de guerra após o fim da URSS. A maioria migrou para os países ocidentais e lá encontrou oportunidades bem mais rentáveis para sua pesquisa. Com esses cérebros, migrou também o know-how para produzir armas como o Nówitchok.

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Em outras palavras, é muito mais provável que o Nówitchok supostamente utilizado no ataque aos Skripal tenha sido produzido fora da Rússia e não é de descartar que a possível escolha desse armamento químico tenha sido tática de desviar a atenção dos verdadeiros interessados na morte do ex-agente duplo, facilitando a culpabilização da Rússia, que, há tempos, é vítima de política agressiva da aliança ocidental na expansão desta para o leste. A ação hostil da OTAN e eventualmente da União Europeia tem, por certo, impactado de forma assaz negativa a coexistência pacífica entre a Federação Russa e seus vizinhos.

O que mais chama atenção no episódio do envenenamento de Sergej Skripal e de sua filha Júlia é a inesperada melhora do ambiente em que se disputa a saída do Reino Unido da União Europeia. O ar carregado entre as partes deu lugar ao discurso regional de empatia, extremamente favorável ao governo conservador de Londres. A primeira a ver na frágil suspeita uma oportunidade de amenizar o embate com a primeira ministra May foi a calculista Angela Merkel, que não tardou de puxar a iniciativa coletiva de expulsão de diplomatas russos por mera solidariedade. A Rússia entrou na estória feito Jesus nas mãos de Caifás e Pilatos: crucificado para segurar a ira da massa falso-moralista. A Rússia está sendo claramente usada para reaproximar os britânicos da União Europeia e calar aqueles que querem impor um alto preço à secessão do Reino Unido. E o estratagema, por mais que aumente o risco de um confronto maior, está dando certo. Com a compaixão continental, quiçá, as condições do “Brexit” sejam menos duras! E a Rússia que pague o preço.

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É impressionante como a ética anda baixa na política global. O golpismo passou a fazer parte de nosso dia a dia, como joguetes das disputas entre as economias centrais. E, como no Brasil, os que golpeiam não têm escrúpulos de mentir ao distorcer meias verdades para articular acusações falsas. E nós, os comuns dos mortais, que assistamos a esse circo de pós-verdades como idiotas, acreditando na boa-fé dos que nos iludem, ou, como desgraçados, que, sabedores da capacidade dessa turma de mentir de cara limpa, se veem impotentes diante de tanta audácia.

É por isso que a Rússia merece nosso crédito e nossa solidariedade. O governo do Reino Unido que trate de provar inequivocamente sua participação no envenenamento de Sergej Skripal e sua filha, ou que se cale e deixe de ser irresponsável ao nos impor o risco de maior deterioração do ambiente de tensão leste-oeste. Que saibam que o mundo se lembra bem do teatro que Tony Blair montou com George Bush Jr., para atacar o Iraque, atribuindo-lhe mentirosamente a posse de armas de destruição em massa. Não precisamos de uma nova guerra, nem fria e nem quente, para atender aos caprichos interesseiros do governo de May em sua saída da União Europeia.

 

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11 comentários

  1. O Ocidente Rico está numa

    O Ocidente Rico está numa sinuca de bico e resolveu resolver seus problemas econômicos vendendo um conflito com a Rússia.

    Inglaterra e França se relançaram num novo colonialismo mundo afora. EUA estão lutando pela América Latina. Dijbout vem sendo disputada no tapa entre o Ocidente e a China. O ocidente perdeu a guerra na Síria. A Rússia tem poder de fogo suficiente para evitar uma invasão do Ocidente. A China está a lutar por cada palmo de sua nova rota da seda. E Trump tentar resolver um problema criado pela econoomia financeira com um novo protecionismo e regulação na economia produtiva.

    Não há dúvidas. Vivemos um pré-guerra. A Inglaterra espernea na tentativa de jogar o povo contra a Rússia. Até agora, graças a Internet não conseguiu.

  2. bom post.

    Plenamente de acordo com articulista.

    Infelizmente os paises ocidentais não tem nenhum compromissos com a ética e a verdade. Isso, pelo menos, desde o seculo XIX , quando reslveram fatiar a Africa. Nem falo dos tempos anteriores…”descoberta da america” etc.

    Acompanho politica internacional lá se vão várias decadas…

    Todo esse assunto está me parecendo uma grande farsa. Igual à que criaram com as famosas armas de destruição em massa no Iraque. Hoje sabemos o que isso resultou. Mas houve outras farsas anteriormente, que resultaram em guerras, basta consultar um bom livro de Historia.

    Não morro de amores do Putin e sua cleptocracia. Muito ao contrário, mas não devemos subestimar a intelegência do homem.

    Não tem nenhum sentido de usar armas quimicas no exterior sendo que o assunto poderia ser “resolvido” fácilmente com um assassino profissional regiamente pago. 

    Para mim, além dos motivos apontados pelo articulista há ainda a questão da NATO. A NATO precisa ser justificada perante a opinião publica, antes de começar haver um questionamento da necessidade e os custos de mante-la, enquanto os programas sociais estão sob ataque.

  3. Gozado eh que eu estou

    Gozado eh que eu estou pensando nisso por uma semana e cheguei aa mesmissima conclusao!

    False Flag, gente.  E FOI MESMO.

    como eh que imediatamente apos o governo Russo anunciar massiva, esmagante tecnologia superior a qualquer uma dos EUA, subitamente e para EXTREMA conveniencia do complexo de inferioridade norte americano, duas dezenas de paises oferecem um show de “solidariedade” ao governo central da…  Europa??????

    Nao ta conveniente DEMAIS essa situacao pra voces nao????

  4. É altamente improvável que seja de origem russa

    Utilizando os termos da histérica Teresa May, é altamente improvável que um Chefe de Estado da qualidade intelectual de Vladimir Putin, um mestre enxadrista, fosse promover um ato hostil desta natureza ao Reino Unido às vésperas da eleição presidencial russa e há poucos meses da Copa do Mundo de futebol na Rússia em junho próximo. Mesmo que fosse um presidente com um QI de ameba (Boçalnaro, por exemplo) não cometeria uma asneira desta dimensão. Parece que este atentado de falsa bandeira funcionou a favor do Presidente Putin que ganhou um apoio ainda maior depois deste espetáculo circense de Teresa May e do show de grosserias de seus ministros do exterior e de defesa.

    As verdadeiras razões são outras relacionadas à perda do protagonismo mundial do império anglo-americano que vem perdendo terreno para a China no campo econômico e para a Rússia no campo militar. Além disso Putin removeu todo o entulho da era Yeltsin que era manobrado pelos EUA, derrotou a OTAN na Síria, vem avançando sobre os antigos clientes do Grande Satã na exportação de equipamentos militares, com ele a Rússia virou a referência político-econômica do Oriente Médio como um papel mediador entre os países que mantêm hostilidades entre si, contornou as “sanções” do império, expôs publicamente a superioridade militar da Rússia em discurso histórico há cerca de um mês e acrescentou que a Rússia não pode ser contida em nenhum setor por ameaças de alguns países ocidentais. E muito mais, ou seja, o pano de fundo é a geopolítica regional e mundial, o “grande jogo”.

    http://resistir.info/gb/14_perguntas.html

    • Perfeitamente
       

      E o mais interessante é que essa tática pode aproximar ainda mais  a Russia da China e aquele espantalho de milharal do Tio Sam vai perceber que seu” botão vermelho de guerra “é menor que o do Xin Jinping.

       

  5. Aos futuros “terroristas” do planeta:

    Gente, ESCUTEM o que eu estou falando pois nao vai dar outra:  voces querem PAZ?

    Entao assassinem TODOS os bilionarios do mundo.

  6. Mundo estranho
     

    O mundo está se tornando um lugar cada vez mais estranho, perigoso, iníquo, onde a prática do bem ser reconhecida como mal ou a mais tosca mentira ser tida como verdade e vice-versa, têm se intensificado e confundido as mentes e corações de muitos. E é proposital, orquestrado.

    Veja-se que depois de todo esse estardalhaço, eles ainda não conseguiram provar que o material neurotoxico é de procedência russa.

    https://g1.globo.com/mundo/noticia/laboratorio-britanico-diz-nao-ter-provas-de-que-gas-neurotoxico-que-contaminou-ex-espiao-seja-russo.ghtml

       

  7. Acusação, ação e motivo
     

    Supondo-se que tenha fundamento a acusação inglesa e a ação do envenamento tenha partido da Rússia, é de se perguntar:

    Qual o motivo?

    Por quê a inteligência russa teria interesse em atentar contra a vida de um ex- espião em solo estrangeiro, sabendo das consequências  políticas que uma atitude como essa poderia trazer?

    Qualquer que seja a narrativa essa hipótese não se sustenta.

    Resta-nos então a hipótese do oportunismo diplomático e a manipulação da miséria alheia mesmo.

    O único ponto discordante  é a afirmação do articulista:

    “É impressionante como a ética anda baixa na política global.”

    Sou de opinião que ética e política não combinam,  e quanto maior o âmbito menor a ética.

     

     

  8. The Strange Death of David Kelly.

    Los expertos militares británicos contradicen a Theresa May

    Red Voltaire | 3 de abril de 2018français 

    El director del Laboratorio Militar de Ciencia y Tecnología de Porton Down (Reino Unido), Gary Aitkenhead, declaró, en nombre de sus colegas y en el suyo propio, que los servicios que él dirige identificaron la sustancia utilizada contra Serguei y Yulia Skripal como un agente perteneciente al programa Novichok, pero precisó que nunca determinaron dónde fue fabricado.

    «Logramos identificar esa sustancia como un Novichok y determinar que se trataba de un agente neurotóxico de calidad militar (…) No determinamos la fuente exacta aunque proporcionamos información científica al gobierno, que recurrió después a otras fuentes antes de sacar las conclusiones de las que hoy se dispone», afirmó Aitkenhead en una entrevista exclusiva concedida a Sky News el 3 de abril de 2018.

    Ya en 2003, en el momento de la invasión montada contra Irak por las potencias anglosajonas, los científicos militares del Reino Unido habían denunciado las falsificaciones de su gobierno. Aunque el entonces primer ministro Tony Blair afirmaba que sus expertos habían confirmado que Saddam Hussein disponía de importantes cantidades de armas químicas, un especialista británico de renombre mundial, el doctor David Kelly, informó discretamente a la BBC que la acusación de Blair era lo que hoy se ha dado en llamar una «fake new» (noticia falsa).

    Luego de ser descubierto por el MI6 como el informador secreto de la BBC, el doctor David Kelly fue hallado muerto. Una comisión investigadora presidida por Lord Brian Hutton concluyó que el doctor David Kelly se había suicidado. Cuatro años más tarde, el diputado liberal Norman Baker publicaba la verdad sobre aquel asesinato, decidido en nombre de la «Razón de Estado», en un libro titulado The Strange Death of David Kelly.

    Volviendo a la situación actual, es muy probable que con su declaración a Sky News, Gary Aitkenhead haya salvador la paz.

     

    • Uma alternativa ao boicote da Copa do Mundo…
      Outra possibilidade é pressionar a FIFA para tomar a iniciativa agora de impedir a Rússia de sediar e cancelar a Copa do Mundo FIFA 2018. Ao mesmo tempo, a FIFA anuncia que o torneio será realizado no próximo ano, em 2019 – em outro país. Como um evento em 2019 não coincidiria com o tradicional período de quatro anos, ele serviria como um lembrete histórico global da condenação internacional dos ataques do Estado russo. No entanto, o time de futebol russo está autorizado a participar da próxima competição se optar por fazê-lo. Este cenário, claro, inclui a Copa do Mundo da FIFA 2022 no Qatar, como planejado anteriormente. No entanto, recomenda-se host alternativo 2019 e não europeu – para dissipar as alegações da teoria da conspiração russa, então talvez ele pode ser submetido aos ex-finalistas – Argentina? 

  9. Uma alternativa ao boicote da Copa do Mundo …
    Outra possibilidade é pressionar a FIFA para tomar a iniciativa agora de impedir a Rússia de sediar e cancelar a Copa do Mundo FIFA 2018. Ao mesmo tempo, a FIFA anuncia que o torneio será realizado no próximo ano, em 2019 – em outro país. Como um evento em 2019 não coincidiria com o tradicional período de quatro anos, ele serviria como um lembrete histórico global da condenação internacional dos ataques do Estado russo. No entanto, o time de futebol russo está autorizado a participar da próxima competição se optar por fazê-lo. Este cenário, claro, inclui a Copa do Mundo da FIFA 2022 no Qatar, como planejado anteriormente. No entanto, recomenda-se host alternativo 2019 e não europeu – para dissipar as alegações da teoria da conspiração russa, então talvez ele pode ser submetido aos ex-finalistas – Argentina? 

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