Rasputin, a manipulação do poder e o declínio da monarquia russa

 
Por André Araújo
 
Grigory Rasputin (1869-1916) foi um místico do interior da Rússia Imperial, analfabeto mas dotado de excepcional intuição e que, por causa de extraordinários acontecimentos, teve um poder  impactante na Corte do Czar Nicolau II. De vida nômade, dotado de carisma natural de pregador, por uma série de eventos e conexões foi, em 1905, apresentado ao Czar e sua esposa, a Czarina Alexandra. O elo fundamental que o ligou ao casal imperial foi o quinto filho e único homem, o herdeiro do trono Alexis, que sofria de hemofilia B, uma doença comum nas famílias reais europeias por causa dos casamentos consanguíneos. Os médicos da Corte, chefiados pelo Dr.Botkin, não conseguiam cura para a doença, cujo risco é a não coagulação do sangue nos ferimentos, o que pode levar à hemorragia e à morte. Enquanto os médicos criavam um ambiente de pânico quando o Czarevich se feria e com o quarto cheio de cortesãos, a mãe imperatriz histérica e gritando, mais ainda com remédios errados mais a  agitação só pioravam a hemorragia, Rasputin intuitivamente percebeu que acalmando o menino reduzia a pressão sanguínea e diminuía a hemorragia. Contava estórias lindas para o menino e no relaxamento e calmaria a doença cedia. Não deixava ninguém no quarto, nem a mãe.  A Imperatriz atribuía esse dom a poderes sobrenaturais e através dessa aura Rasputin passou a ter influência e depois poderes na Corte, a ponto de indicar Ministros. A Imperatriz, alemã de nascimento, era uma mulher instável, neurótica e desequilibrada, tinha muita ascendência sobre o marido e a influência de Rasputin sobre ela e dela sobre o marido passou a dar o pulso da política russa. Rasputin intrigava contra Ministros que desconfiavam dele como charlatão e promovia Ministros que o adulavam.

 
A nobreza e depois o povo passou a ter desconfianças e raiva cada vez maiores de Rasputin, que era corrupto e devasso, passou a ser adulado pela aristocracia, tomou várias mulheres nobres como amantes, exigia dinheiro para intermediar favores na Corte, exigia presentes, banquetes e vivia nababescamente.
 
Seu papel e sua situação se agravou com o início da Grande Guerra de 1914, seu poder na Corte aumentou assim como número e a altura de seus inimigos. Os nobres, vendo que ele estava com sua influência arruinando o prestígio da Família Imperial, criou uma conspiração para matá-lo, isso em dezembro de 1916,  encarregando da execução o Príncipe Felix Yassupov, parente do Czar e um dos homens mais ricos da Rússia. O Príncipe atraiu Rasputin para um banquete em seu Palácio em São Petersburgo (conhecido como Palácio Moika) e colocou cianeto de potássio em seu bolo. Rasputin comeu todo o bolo e nada aconteceu, os nobres no jantar então deram 11 tiros no Monge, que tampouco o deixou morto. Rosnava ferido e espumava jurando vingança mas nem fechou os olhos, o que apavorou os conspiradores, que também eles passaram a achar que o monge tinha pacto com o demônio. Conseguiram amarrá-lo com dificuldade, enrolaram em um tapete e o jogaram no rio em frente ao Palácio. Encontrado no dia seguinte, Rasputin estava morto por hipotermia e não pelos ferimentos ou pelo veneno. Criou-se aí outra lenda sobre seus poderes sobrenaturais, por causa de sua incrível resistência, o que se somava a sua fama anterior de místico e mago.
 
Uma autópsia realizada em 1930 verificou que o açúcar do bolo neutralizou o veneno, um de cujos antídotos era a glicose e a sacarose, o que tinha em abundância no bolo.
 
O episódio do assassinato de Rasputin foi impactante na politica russa, já imersa na Guerra contra a Alemanha, mas um novo acontecimento no ano seguinte, a Revolução Soviética, deixou Rasputin para o arquivo morto da História. No ano seguinte, 1918,  outro grande acontecimento joga mais fundo no arquivo o Caso Rasputin, o fuzilamento de toda a família imperial Romanov pelos soviéticos em Ekaterimburgo, em meio ainda à desorganização da Guerra e da Revolução.
 
Felizmente para a História um personagem central do caso sobreviveu aos fatos por décadas e pode relatar com minúcias o Caso Rasputin visto por dentro. O Príncipe Felix Yasupov com a Revolução emigrou para Paris, onde tinha um palácio e lá sobreviveu até 1967, testemunha e protagonista da história e nesse caso seu depoimento tornou claro todo o enredo do impressionante caso de manipulação do Poder por um indivíduo extraordinário, que nunca foi à escola e sabia manipular através do Soberano o poder em um dos mais importantes países do mundo.
 
Por causa dos desfechos supervientes, a Grande Guerra, a Revolução Soviética e o fuzilamento dos Romanovs, o personagem de Rasputin foi envolvido em lendas e narrativas fantasticas sobre sua vida e poderes. Seis filmes foram rodados sobre Rasputin e mais de 50 biografias foram escritas, grande parte criando e recriando lendas.
 
Os fatos reais todavia são hoje muito conhecidos.
 
1.Rasputin não teve influência tão grande sobre o Governo mas sua presença na Corte enfraqueceu muito o prestígio do Czar, figura central na alma russa desde séculos, abrindo caminho para sua queda provocada pela Revolução.
 
2. Rasputin entra para a História quando conheceu o casal real, em 1905, ano emblemático que já apontava para o fim de um ciclo na Rússia. Em 1905, a Rússia foi derrotada pelo Japão na Guerra Russo Japonesa, de forma humilhante, em 1905 houve a primeira Revolução socialista, mal sucedida mas precursora da segunda e vitoriosa e em terceiro lugar, em 1905 o Czar perde o poder absoluto de governar, cedendo a uma Constituinte e a um Parlamento, a Duma.
 
3.A força psicológica de Rasputin era real e encontrou terreno fértil em uma Czarina e mãe desesperada e em um Czar fraco de caráter e de vontade de poder, em uma Corte corrupta e decadente com políticos de péssima qualidade.
 
Rasputin empurrou a Monarquia para o abismo, como muita gente via claramente que ia acontecer. Foi uma prévia trágica para a Revolução que se seguiria meses depois da morte  do diabólico Monge dos grotões da Rússia.
 
 
Acima foto do Palácio do Príncipe Yasupov em São Petersburgo, que tinha teatro de ópera proprio dentro do palácio.
 
 
O Príncipe Felix Yasupov, assassino de Rasputin, em foto de 1965.

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9 comentários

  1. Obrigado
    Obrigado André Araújo, por nós brindar com postagens interessantes e instigantes como esta. Morei na Rússia e tenho muita ligação com este país e a história de Rasputin sempre me fascinou. Grande abraço!

  2.  
     
    Excelente AA , curto

     

     

    Excelente AA , curto muito os relâmpagos históricos que vosmecê lança. Esse então, foi ótimo.

    Orlando

  3. ” Alma Russa ” e a ” Terceira Roma “

      AA divagarei um pouco, nem comentarei sobre o Tratado de Porthsmouth, com mediação de Ted Roosevelt, ou sobre a Constituição de 1906.

       Mas é incrivel que em varios momentos, na história da formação da Russia, existam – anterior a Godunov -, tantos momentos nos quais “Monges”, “Renascidos”, ” Tzar Encoberto” ( semelhante ao sebastianismo ), tenham aparecido, por séculos, terminando em Rasputin, alem de outros “causos”, nos quais a compreensão ocidental vai em direção completamente oposta a visão russa, como Ivã, Pedro, Catarina……etc.

        Ivã IV, no ocidente ” Ivã, o Terrivel “,matou, estuprou, fez o diabo, mas para os russos, o unificador da Russia, cujo principado de Moscou, suplantou o de Kiev, que levou a Russia (Moscou ) a possuir o território que até hj. possui, ou mesmo Catarina ( que era “alemã” de origem ), que conseguiu ser a unica Tzarina com poder de fato, e praticamente ninguem se importa das manobras, assassinatos e concessões que ela fez para atingir tal condição, ainda é a personificação, quase iconica da “Mãe Russia”.

         Se vc. não tem adquira: http://www.history.ac.uk/reviews/review/241

         “Russian Messianism: Third Rome, Revolution, Communism and after “

         

  4. Vou brincar com o AA.

    Meu caro, você precisas se modernizar, pouquíssimas linhas sobre sexo. Em qualquer livreco teríamos os relatos de alcova do dito cujo.

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