Vladimir Putin: muito além de uma caricatura grosseira, por Léa Maria Aarão Reis

Sugestão de Ricardo Cavalcanti-Schiel

no Conversa Afiada

Vladimir Putin: muito além de uma caricatura grosseira

por Léa Maria Aarão Reis

Quando o apresentador da CBS, Stephen Colbert, entrevistou o cineasta Oliver Stone, há três meses, procurando desqualificá-lo com ironias baratas e criticando-o pela primorosa série de quatro episódios, Putin’s Interviews, que acabava de estrear nos Estados Unidos, a ignorância americana foi desafiada e exposta em um dos seus momentos mais ridículos.

Bastante semelhante ao que ocorre aqui com a audiência controlada dos programas de auditório tipo hulks, faustos, silvios et caterva locais: indivíduos rindo histericamente, sem saber exatamente do que gargalham.
Na ocasião, o respeitado jornalista John Wight escreveu no site Russia Today, na contramão da grosseira caricatura do presidente da Rússia vigente nos Estados Unidos:

Assistir à série de documentários de Oliver Stone sobre Vladimir Putin é absolutamente necessário para que o público ocidental tenha uma visão da visão de quem governa a Rússia, o maior país da Europa, grande potência nuclear e alvo de profundas tensões decorrentes das diferenças geoestratégicas do país e da rivalidade com Washington nos últimos anos“.

Exibido pelo canal Showtime, em junho passado, este mês o público brasileiro tem a chance de assistir o filme As Entrevistas de Putin na tela grande, no Festival do Rio, em sessões de quatro horas. Em nenhum momento o espectador se sente entediado. Pelo contrário. A habilidade e o talento de Stone em conciliar a linguagem da televisão com a gramática cinematográfica lhe conferem controle efetivo na direção do filme e uma dinâmica peculiar nas sequências dos seus encontros com Putin, 63 anos, avô e pai de três filhas cientistas, durante as 50 horas de conversas com ele e ao longo de quase dois anos: de julho de 2015 a fevereiro deste ano.

Nos escritórios do presidente, no Kremlin, na dacha onde vive a 20 quilômetros de Moscou, visitando juntos museus, alimentando os seus cavalos, um rápido flash de sua própria presença no impressionante tradicional desfile militar do Dia da Vitória (“É emocionante”, Stone diz. “O orgulho das formações militares, sua precisão, a organização”) e em outros momentos especiais: a visita (sozinho) ao mausoléu de Lênin, circulando pelas ruas da capital russa com Putin dirigindo carro e ele ao lado; no haras do presidente e – surpreendente – os dois assistindo o filme “Dr. Strangelove”, numa sala do Kremlin, o qual Putin nunca vira. No final da sessão, Stone oferece um DVD do filme de Kubrick a “Vladimir” (como chega a chamá-lo), mas o estojo, por um lapso da sua produção, está vazio. Ao que Putin revida, rindo e se divertindo: “Típico presente de americano”.

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Semelhante a uma matrioska, com várias camadas sendo desfolhadas, essas entrevistas de Stone com Putin alternam senso de humor, cultura, inteligência e fina ironia dos dois lados. Vida pessoal, visão filosófica da vida, além, é claro, de momentos significativos sobre assuntos reais e sensíveis. Snowden, terrorismo, espionagem de massa, traições entre aliados e geoestratégia – Ucrânia, Crimeia, Síria, Chechênia, Albânia, Afeganistão.

De pessoal, Putin lembra o pai engenheiro, morto na guerra defendendo Stalingrado, o irmão, abatido no histórico cerco à cidade pelos alemães e fala da sua formação universitária na Faculdade de Direito. Comenta os netos, silencia sobre o casamento na juventude que perdura até hoje e ressalta sua paixão pelo judô que o ensinou a ser flexível – de corpo e de espírito.

Alguns dos melhores momentos dos encontros entre os dois estão aqui.

Sobre as diversas etnias que vivem na Rússia. “Elas convivem sem conflitos. É um assunto delicado, mas aqui, pessoas de várias religiões e etnias são russos; não são imigrantes, como ocorre nos Estados Unidos. Sempre houve uma cultura de interação. Há feriados cristãos e muçulmanos, por exemplo, celebrados conjuntamente, no mesmo dia”.

Confiança entre parceiros. “É essencial”. Insinua: “No Afeganistão, na Chechênia, e na entrada da OTAN, na Albânia, ela foi perturbada. Tinha sido acertado que a atuação da OTAN na Europa não seria mudada. Tudo de boca. Na política tudo tem que ser escrito”.

Petróleo. A piada: sobre o roubo de petróleo por parte dos terroristas que atuam nas fronteiras da Turquia com a Síria, Stone pergunta: “Você avisou ao Erdogan?” Putin, rindo: “É sempre um prazer conversar com você…”

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Ucrânia. “O timing dos protestos foi calculado. A grande violência, o massacre em Maidan, a criação do caos com a CIA de olho lá, e os atiradores de elite que mataram pessoas que protestavam. Quem eram eles? Até hoje não se sabe. Tínhamos informações que havia grupos armados pela OTAN treinados na Polônia”. (Imagem da embaixadora Victoria Nuland, com voz frívola de festa, oferecendo sanduíches às velhas, na praça: “quer pão?”). “Se isto não foi um golpe de estado, uma tomada do poder pela força… e a mídia enganando o tempo todo. Havia Soros, as ONGs dele, Nuland…”

A auto-armadilha americana. “É preciso sempre um inimigo externo para justificar a permanência de um mundo unipolar. É o discurso permanente da política externa dos Estados Unidos. Há traços da mentalidade imperialista na sociedade americana. Mas os EUA acabam caindo numa auto-armadilha”. “A estratégia americana é destruir a economia russa e neutralizar o poder nuclear dos russos”, diz Stone. Putin, enfático, e repete isto três vezes: “Pessoas que pensam assim não estão vendo o futuro daqui a 25 anos”.

OTAN. “O que nos preocupa são as ondas da expansão da OTAN na Ucrânia, Geórgia, nos países balcânicos. Quem disse que a guerra fria is over? (Imagem de Bush filho, bombástico, declarando: “A Rússia não é nossa inimiga!”). “Logo depois deste discurso é instalada a barreira de antibalistícos rodeando e cercando a Rússia! É preciso diálogo para o equilíbrio nuclear porque no caso de guerra ninguém sobreviveria com ou sem escudos”.

URSS na Segunda Grande Guerra. Stone: “Foi uma participação determinante para a vitória contra o nazismo. Os russos lutaram com valentia”. Putin: “Os russos lutaram até o ultimo suspiro, não até o ultimo tostão. Hoje, os russos não gastam 600 milhões de dólares na sua defesa, como ocorre com os Estados Unidos”.

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Hillary. “É uma neoconservadora. Fundamentalista. Repete que a Rússia é a ameaça número um aos EUA. Invocou questões de geopolítica no processo eleitoral – foi um erro”. E adiante: “Somos um país democrático mesmo que, hoje, demonizem a Rússia como fazia Catão, o Velho, no passado, com o seu Delenda est Carthago“.

Machismo. A tradição machista é muito forte na Rússia, diz Stone. Putin replica: “Até certo ponto, sim”.

KGB. “Não espionamos tanto quanto os americanos, nem tanto quanto gostaríamos… A espionagem em massa deveria ser dirigida ao terrorismo e não a aliados”. (Imagens de chefes de governos espionados pelos EUA. Dilma Rousseff e Angela Merkel entre eles.)

Snowden. “O Sr. Snowden é um peão nesse jogo. Aqui ele vive seguro”. Respondendo a Stone se concorda com o que Snowden fez. Monossilábico, diz: “Não”.

Bernie Sanders. Quem ganhará as eleições? pergunta Stone. “Os americanos escolherão aquele que eles mais merecem”. O pequeno grupo da produção, atrás das câmeras, dá gargalhadas. E se for Sanders? Putin: “O importante é o peso que o presidente sente quando se senta no seu primeiro dia de eleito, para trabalhar”. Stone: “Você não respondeu minha pergunta”. Putin: “Respondi, sim”.

As grandes questões do mundo de hoje. “Terrorismo, degradação do meio ambiente e pobreza”.

Em entrevista ao site Sputnik, Oliver Stone disse que não sabe se Vladimir Putin foi completamente aberto durante as entrevistas. Mas ressaltou: é um homem orgulhoso do seu país e trabalha firmemente em prol dos interesses da Rússia. “Lamentavelmente, é criticado com frequência pelo ocidente, o que é injusto em muitos sentidos. Acho que ele se cansou de ouvir isso constantemente. Os russos se cansaram de ouvir o que os americanos ou europeus dizem porque eles simplesmente pensam de outro modo”.
 

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12 comentários

  1. Este documentário deve ser visto…

    Diversas vezes.

    Para mim, o ponto principal no que diz respeito ao Brasil é o que Putin fala sobre SOBERANIA (lembrando de cabeça):

    “São poucos os países do mundo que podem ser efetivamente soberanos. Alguns, optaram por serem vassalos. Ninguém os obrigou a isso.”

    Para que haja a verdadeira soberania, não bastam a um país ter abundância de território, população e recursos naturais, é preciso que SEUS GOVERNANTES E SUAS ELITES NÃO TENHAM ESPÍRITO DE VASSALOS também.

    • Concordo com todo o

      Concordo com todo o comentário e ressalto, os governantes que aí estão são VASSALOS e ENTREGUISTAS, de cabo a rabo. Não sei dizer onde começa o cabo e nem o rabo, mas parecem estar em ósculo.

      • O pior é que não são só os
        O pior é que não são só os governantes. São vassalos entreguistas grande parte da população, a mídia, judiciário e os militares.
        Para esses a soberania nacional é populismo, coisa de comunistas, e tem que ser sabotada e destruída.

    • Concordo com todo o

      Concordo com todo o comentário e ressalto, os governantes que aí estão são VASSALOS e ENTREGUISTAS, de cabo a rabo. Não sei dizer onde começa o cabo e nem o rabo, mas parecem estar em ósculo.

  2. Eita! O dia que o Brasil

    Eita! O dia que o Brasil tiver um Putin no poder, viraremos a página desse passado vergonhoso de um país sem orgulho e sem defesa. E de uma nação cúmplice da pobreza, da miséria e do extermínio de uma face de si mesmo que não quer reconhecer.

  3. Quando?

    Será que em 2018 (se o Brasil não acabar antes disso) poderemos dizer isto (do Brasil) do presidentx eleito?:

    “é um homem orgulhoso do seu país e trabalha firmemente em prol dos interesses da Rússia.”

  4. “Pensam de outro modo”

    Isso é o fundamental, mas que os estadunidenses ignoram ou se fazem de bobos ao ignorar propositadamente.

  5. Nassif
    Que inveja !!!
    Ele,

    Nassif

    Que inveja !!!

    Ele, com o fim da URSS, poderia ser mais um bilionario na Inglaterra como varios colegas seus viraram, mas preferiu ser um CHEFE de estado !!

    E pensar que Dilma poderia ter  evitado o golpe se o  imita-se !!!

    Mas ai é pedir demais !!!

  6. Russia

    Gosto de ler sobre historia da Russia, já li muitas coisa.

    Assim como de literatura russa, que tem muita coisa boa.

    Putin não é democrata, a Russia não é uma verdadeira democracia, mas não dá para governar a Russia segundo os preceitos da democracia ocidental. 

    Putin mesmo que quisesse não poderia governar a Russia de modo diferente. É  assim desde Ivan, o terrivel, Pedro, o grande, Catarina, etc. Mesmo Lenin e Stalin não puderam escapar dessa sina.

     

     

     

  7. + comentários

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