O assassinato do general Soleimani e a crítica à minha visão ocidentalizada de paz, por Cilene Victor

“Professora, sua visão de paz é muito ocidentalizada. Quando a senhora começar a estudar e a pesquisar sobre justiça, alcançará [também] mais respostas sobre paz”.

Cilene Victor e Lilian Sanches em Karbala, Iraque

O assassinato do general Soleimani e a crítica à minha visão ocidentalizada de paz

por Cilene Victor

“Professora, onde está a paz? Quem tem autoridade para justificar a paz?”

Sem dúvida alguma, as duas perguntas são desconcertantes e sem resposta.

Essas foram as primeiras linhas de uma conversa de hoje cedo com um dos meus professores iranianos. Assim que soube da morte do general Qasem Soleim, decorrente de um ataque aéreo ao aeroporto de Bagdá, Iraque, autorizado pelo presidente Donald Trump, comecei a ligar e a escrever para os amigos que fiz no Irã e no Iraque.

Costumo dizer aos meus alunos, da graduação ao doutorado, que faz muita diferença quando conhecemos de perto os rostos, os anseios, as luta, os sonhos, a ternura e bravura de um povo que ora só é lembrado em momentos como esse que assustou e repercutiu no mundo inteiro.

Gostaria de falar mais sobre o general Soleimani, seu papel no combate ao ISIS e atuação durante a invasão dos Estados Unidos no Iraque, mas o GGN já tem publicado excelentes análises de especialistas em Oriente Médio e em política internacional.

Neste texto, quero me ater à questão da paz, ou melhor, da nossa visão ocidentalizada de paz que coincide com a visão reducionista de paz como ausência de conflitos.

Quando Donald Trump, por tuite, ameaçou invadir o Irã, em 20 de junho de 2019, eu e a jornalista Lilian Sanches, uma jovem pesquisadora e estudiosa do terrorismo, à época minha orientanda de mestrado, estávamos dentro de um voo com destino à República Islâmica.

Foi no aeroporto de Teerã que ficamos sabendo da ameaça via tuite. E isso não se deu porque havia algum esquema de segurança além do já esperado em chegadas internacionais. Soubemos quando nos conectamos à rede Wi-Fi do aeroporto e ficamos impressionadas com a quantidade de mensagens que não paravam de chegar pelo WhatsApp e Telegram.

Amigos brasileiros e de outros países nos alertavam: “haverá uma guerra entre Irã e Iraque, vocês precisam voltar”.

Era a minha quinta ida ao Oriente Médio [já tinha estado duas vezes na Turquia e duas no Líbano], mas a primeira vez no Irã. Como tenho consciência de que conhecemos pouco, porque estudamos e lemos pouco sobre a geopolítica daquela região, não desdenhemos o alerta dos amigos e familiares, mas seguimos para encontrar nossos anfitriões.

Dentro do carro, a anfitriã e o motorista estavam tranquilos, assim como as pessoas nas ruas e no hotel, onde deixamos as malas e saímos para sentir se havia algum clima de tensão.

No dia seguinte, uma sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos, só encontramos famílias fazendo piqueniques nos parques e ruas de Teerã e desfrutando o dia com os seus filhos e amigos. Nenhuma tensão explícita.

O que vimos no primeiro dia se repetiu ao longo do período em que ficamos no Oriente Médio, entre o Irã, Iraque e o Líbano, contrastando assustadoramente com o que a imprensa e as mídias sociais ocidentais estavam veiculando.

Como jornalistas, não paramos de perguntar sobre a ameaça dos Estados Unidos. A resposta sempre reiterava a fala do ministro das Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, simplificada em uma entrevista à CNN em julho passado: “O Irã nunca começará uma guerra, mas se defenderá de qualquer ato de agressão”.

No Iraque, não foi diferente. Entrevistamos professores e pesquisadores em Najaf e Karbala, uma das cidades sagradas do país, que também nos alertaram sobre o abismo entre os fatos e a cobertura desses fatos pela mídia ocidental.

Já no Líbano, passamos a falar sobre paz, não mais sobre conflitos. E aí, o primeiro alerta veio de uma fonte em Trípoli que trabalhava com refugiados: “Se a pauta for sobre paz, sinto muito, mas não posso conceder entrevista. Nossa visão de paz é bem diferente da de vocês”.  Ela estava certa!

A convencemos a conceder a entrevista, mas não abordamos a questão da paz. De lá, fomos ao Vale do Beqaa, na fronteira com a Síria, onde, no campo de refugiados, entrevistamos uma mãe. Arriscamos e perguntamos o que a paz significava para ela: “viver com dignidade, no meu país, sem precisar me refugiar”, respondeu. Ela estava falando sobre paz ou justiça?

Do Líbano, retornei sozinha ao Irã para fazer um curso na Universidade Al Mustafa, na cidade sagrada de Qom.

Com aulas de segunda a domingo, com exceção apenas da sexta-feira, e atividades culturais à noite, como visitas a bibliotecas, museus, locais religiosos e centros de pesquisa, o curso foi pensado totalmente para a minha demanda: islã, religião e a mídia na construção da paz [peacebuilding].

A universidade convidou docentes, grandes referências na área, apenas para darem aula para mim. O tempo inteiro, na universidade e centros de pesquisa, fui tratada como uma professora, pesquisadora e jornalista que compartilharia depois aquele conhecimento.

Tive aula com especialistas em paz. Estudiosos e críticos da mídia, estudiosos de relações internacionais e do islã. Foram 84 horas de curso.

Na última semana, o diretor da universidade gostaria de se despedir de mim. Então, fui à sua sala acompanhada de dois dos meus professores.

Na reitoria, o diretor e dois assessores para relações internacionais estavam me aguardando.

Durante a conversa, o diretor me perguntou se o curso estava atendendo às minhas expectativas. Disse que não poderia ter sido melhor, mas comentei que ainda precisava estudar mais sobre paz.

Com muito respeito e lucidez, ele olhou na minha direção e calmamente me corrigiu: “Professora, sua visão de paz é muito ocidentalizada. Quando a senhora começar a estudar e a pesquisar sobre justiça, alcançará [também] mais respostas sobre paz”.

Não era a primeira vez que alguém me dissera aquilo. Do mesmo modo, eu também já havia estudado que paz não deve ser reduzida à ausência de conflito e que tampouco devemos falar sobre ela [somente] quando os conflitos emergem.

E não está sendo diferente em relação à repercussão da morte do general Soleimani.

A palavra paz começa a aparecer nas falas e apelos dos líderes mundiais e dos formadores de opinião, dentro e fora do Brasil.

Ignoramos o Oriente Médio, ignoramos o que aconteceu antes, durante e depois da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Ignoramos o genocídio dos Yazidis pelo Estado Islâmico, o sofrimento de milhões de sírios e curdos, de mulheres e crianças no Yemen e na Palestina, mas agora queremos levantar a bandeira da paz.

“Se não há justiça, como pode haver paz?” – pergunta que uma jovem artista plástica fez para mim enquanto tomávamos um café na região das montanhas, a duas horas de Teerã.

Teerã
Teerã
Najaf – Iraque
os tanques em Bagdá a “O caminho da Zona Verde, onde estávamos hospedados – local da embaixada dos EUA”

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