Na noite de 30 de junho, mal Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha, seu grupo saiu às ruas para caçar não apenas opositores, mas aliados de primeira hora. Foram mortas 85 pessoas, milhares foram detidos, no episódio conhecido como “a noite das facas longas”. O alvo principal foram as lideranças do Sturmabteilung (SA), os “camisas pardas”, seus antigos aliados, uma espécie de MBL da época, que já contava com 3 milhões de seguidores. Seu líder, Ernest Rohm, foi preso sob acusação de ser homossexual e viciado. Já era antes, mas se tolerava. Depois, qualquer álibi valia para cortar cabeças.

As prisões e execuções foram tocadas pelas temidas SS e pela Gestapo. Antes disso, as SSs eram forças radicais, que apelavam para a retórica sanguinária, sem ir às vias de fato, como o Endireita Brasil e outros movimentos da ultradireita, na sua conformação atual. E a Gestapo era uma corporação sob controle institucional, tal e qual a Polícia Federal de hoje, embora se preparando para a grande noite, sendo comandada por um Ministro da Justiça que apela às ruas para se manter, e, apelando, endossa discursos que propõem fechamento do Congresso e do Supremo.

Na “noite das facas longas”, aproveitou-se o momento para prender conservadores antinazistas, como o ex-chanceler Kurt von Schleicher e Gustav Ritter von Kahr. Conhecedor da história, Fernando Henrique Cardoso, que não é trouxa, tratou, logo, de elogiar Himmler, para garantir salvo conduto para os tempos que se avizinham.

As forças que sustentaram a ascensão de Hitler, com o discurso de ódio, com a criminalização da política, não conseguiram mais segurar a radicalização, que levou à maior tragédia do século 20.

Deveriam ter ficado, para sempre, as lições para não se brincar com a democracia, para não se utilizar da tática de criação do “inimigo interno”, de demonização da política, de destruição do passado em nome de uma nova ordem fundada no ódio, porque nascida de um discurso de ódio.

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No pós-guerra, de nada adiantaram os alertas para a não repetição desse jogo. O álibi da guerra fria implantou o macarthismo nos Estados Unidos, a ditadura chilena, a tragédia argentina, o golpe de 64, todos fundados no discurso de ódio, no movimento de tirar a disputa política das eleições para os cárceres, enquanto do lado comunista havia expurgos culturais, massacres de opositores. Nas últimas décadas, imaginou-se que os valores civilizatórias se impriam definitivamente sobre a barbárie.

No seu editorial de hoje, o Estadão empina velhas bandeiras liberais, tentando trazer a opinião pública de volta à racionalidade perdida.

É um apelo dramático, em um momento em que Bolsonaro vai afastando, um por um, os quadros menos radicais, e em que a extrema direita do bolsonarismo investe contra a direita e, para se manter no cargo, seu Ministro da Justiça Sérgio Moro apela às ruas e a passeatas que propõem fechamento do Congresso e do Supremo.

Diz o bravo Estadão:

A crítica pública será necessária sempre que um presidente demonstrar descaso pelos preceitos republicanos, por mais comezinhos que sejam, ainda que se alegue ser este o preço a pagar para impedir o “mal maior” – seja o “petismo”, o “comunismo” ou outro fantasma qualquer”.

Meu Deus!, porque não tiveram o bom senso de entender essa lógica antes, de aguardar que o PT fosse afastado dentro de um processo normal, de alternância democrática?

Diz mais:

“Também não se pode silenciar diante da tentativa sistemática de desmoralizar a política e o Congresso, pilares da democracia representativa, com o indisfarçável intuito de governar por decreto, dispensando-se a negociação democrática. É certo que os políticos colaboraram para a deterioração da imagem de sua atividade, depois que vários deles, muitos em posição de destaque, entregaram-se à mais desbragada corrupção nos últimos anos. Mas nada disso justifica a presunção de que basta estar do “lado certo” – isto é, o do Executivo, suposto campeão da pureza de propósitos contra os vilões corruptos – para que sua vontade seja convertida em lei”.

Foi a cobertura sistemática dos fogos de artifício da Lava Jato, foram quinze anos de criminalização de qualquer bobagem do PT, até o decreto virtuoso da participação dos conselhos, um extraordinário reforço do poder civil contra arroubos totalitários, foi apresentado como primeiro passo para a bolivarização, venezuelização, cubanização ou fosse o que fosse.

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Foi a catarse, a criação do ambiente de medo do “comunismo”, o fato de tratar como ameaça à democracia qualquer medida de um governo institucionalmente desarmado até o limite da irresponsabilidade, que permitiu a ascensão dos SSs bolsonaristas.

Diz, agora, o editorial:

“Isso resulta da percepção equivocada de que a maioria do eleitorado queria uma liderança que livrasse o País do “comunismo”, luta exótica em nome da qual parece valer tudo. Na verdade, os eleitores manifestaram nas urnas um sonoro protesto contra a politicagem que condenou muitos brasileiros à miséria”.

O alerta não chegará nem perto das multidões que foram às ruas caçando comunistas e o MBL, que avançaram sobre uma correligionária meramente por ter pintado os cabelos de vermelho, a multidão comandada por um militar decrépito e sanguinário, que enlameou a imagem das Forças Armadas no Haiti, e que mandava palavras de ordem contra os “canalhas”, os “esquerdopatas”.

Nessa tragédia brasileira, a Lava Jato foi a onda avassaladora, manobrada por um juiz ambicioso e um grupo de procuradores ingênuos, despreparados, imaturos, sem a menor noção sobre as responsabilidades institucionais do Ministério Público, deslumbrados com os poderes que foram revestidos por uma mídia igualmente descompromissada com valores democráticos e incapaz de prever o dia seguinte

Na grande noite que se aprofunda, restará o apelo solitário da procuradora Jerusa Viecelli, tentando despertar seus colegas para o desastre que se avizinhava, e revelado agora pelo The Intercept:

Pessoal, desculpem voltar ao assunto (sou voto vencido), mas, somente esta semana, várias pessoas, inclusive alguns colegas e servidores, me questionaram a ausência de manifestação da FT [Força Tarefa] diante de alguns posicionamentos dos candidatos à presidência.

Fato é que sempre nos posicionamos diante de várias ameaças ao nosso trabalho e, nos últimos dias, temos ficado silentes, mesmo com ameaças de candidatos à independência do Ministério Público (nomeação de PGR fora da lista tríplice) e à liberdade de imprensa.

Em outros tempos, por motivos outros, mas igualmente relevantes e perigosos, divulgamos nota, convocamos coletiva e ameaçamos renunciar (!).

Agora, jornalistas escrevem no Twitter que a LAVA JATO é caso de desaparecido político, pois já alcançou o que queria. Acho muito grave ficarmos em silêncio quando um dos candidatos manifesta-se contra a nomeação do PGR da lista tríplice, diante de questões ideológicas.

Mais grave ainda, assistirmos passivamente, ameaças à liberdade de imprensa quando nós somos os primeiros a afirmar a importância da imprensa para o sucesso da Lava Jato.

Igualmente grave, candidatos divulgarem nomes de futuros ministros que são alvos de investigações e processos por corrupção. Nossa omissão também tem peso e influência.

Eu sinceramente não quero (e isso a penas a história dirá) que a Lava Jato seja vista, no futuro, como perseguição ao PT e, muito menos, como co-responsável pelos acontecimentos eleitorais de 2018. . . 

 

 

45 comentários

  1. Vou ficar triste o dia que o Estadão fechar . Pois uma das poucas regras infalíveis é que em horas dramáticas da história,em que há uma luta pra destruir o mínimo de civilização que este país construiu, em que você não sabe que lado apoiar, é só ler os editorais do Estadão e ficar do extremo oposto ao que os donos do jornal pregam. Você assim sempre estará do lado certo da história.
    A família Mesquita não aprende nada. Apoiaram com gosto o golpe de 64 pra desta forma tirarem o comunista(sic) Jango do poder e abrir caminho pra que Adhemar de Barros ou Lacerda chegassem ao poder. Só se arrependeram quando perceberam tardiamente ( ô povo beócio ) que o poder militar decidiu que ele é que mandaria no país, sem intermediários, ou seja, os políticos. O processo se repete hoje com o poder Judiciário, que decidiu que ele, poder puro, iria limpar a área e e preparar o terreno chegar lá – via o Sergio Conje Moro. Só que no meio do caminho tem um Capetão. Enfim, estamos no meio de uma briga pelo poder entre o Judiciário e Forças Armadas. Meu desejo é que os dois percam.

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  2. Nassif sempre otimista! Quem disse que o Fernando H. Cardoso conhece história. Na verdade ele não conhece nada em profundidade. Foi um simples aproveitador esperto bafejado pela sorte quando da fatídica escolha de seu nome pelo ex-presidente Itamar Franco (na substituição de Rubens Ricúpero, que havia falado demais). Aí, nas palavras cheias de sabedoria de Delfim Netto, ele “grilou” o plano Real, e então, como o Bolsonaro da época, surfou a onda do plano, que, na verdade, havia sido montado por Edmar Bacha, André Lara Resende e Pérsio Arida. Todos eles convidados por Itamar Franco para montar o plano.

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  3. Muito boa analise, aos poucos vamos percebendo o panorama em que nos encontramos. A comparação com a História no Nazismo é muito boa, a diferença aqui é que não temos o exército que tinha Hitler, nem o desejo de ganhar o mundo. Aqui será uma destruição de tudo que é nacional, até virarmos totalmente dependentes. Nosso povo não quer mas parece não se importar. E começamos a perceber que boa parte do judiciário é nazista mesmo, nazista tupiniquim, anti nacional, nacionalista Norte americano, sabotadores da nação. E parece que as forças armadas também. A maioria ao menos.

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  4. O golpe esta andando ..BOZO é apenas uma peça no jogo

    NÃO HÁ democracia capaz de vencer os ditos poderes permanentes, as FORÇAS Militares e o Judiciário, em todo canto do planeta.

    Todo poder que emana do povo tende a ser DESCONSTRUIDO pelos que se sentem diminuídos ..e normalmente os veículos midiáticos, percebendo o risco que tb correm, não se furtam a com os opressores

    Enquanto houver força pra DERRUBAR tudo o que foi construído com vistas ao reconhecimento da cidadania e pela construção duma SOCIEDADE mais independente das forças transnacionais capitalistas, personagens como BOZO serão bem vindos ..pois eles ajudam a camuflar o projeto que esta andamento e que nunca cessou.

    FATO, LULA no poder, elevando o POBRE e desassistido a personagem principal da trama evolucionária social, desafiou o que havia sido convencionado e acordado em “consenso” numa certa capital americana (sem a presença de povo) ..e nós, com DILMA, a INAPTA, pagamos caro por isso

    em tempo – não pensem os srs que a violência, o BANIMENTO e a censura a posições contrárias, que hoje só façam parte dos ditos CANAIS (comunidades) de direita radical ..tenho visto, e SENDO VITIMA digital – TIPO QUANDO NO PERÍDO DE DilMA, onde a perseguição aos destoantes se fazia mais aguerrida – que muitos canais progressistas tem partido pra higienização ideológica de forma sumária e arbitrária também.

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  5. Esses miseráveis FDPs tudo fizeram para demonizar Lula e o PT. Não tiveram limites, escrúpulos, vergonha, ética. Nada. Não conseguiam vencer pelo voto e apelaram para os instintos mais primitivos de uma parte do eleitorado. A parte mais escrota, diga-se…
    Agora esses mesmos FDPs estão reclamando do quê? Já não consigo levar esses estúpidos a sério. Esse choro é totalmente falso porque jamais tiveram apreço ou respeito pela democracia. Todavia, se for verdadeiro eu deixo um sonoro BEM-FEITO. E digo mais: que as hordas bolsonaristas ataquem TODOS os veículos que ajudaram em sua ascensão. Que a criatura se volte contra o criador.

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  6. A procuradora foi profética, a farsa a jato era apenas perseguição ao pete e foi inteiramente responsável pela eleição do coiso.

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  7. Esse editorial do abestado de sao paulo é somente um cacoete liberal, de quem acredita no próprio fingimento. O antipetismo é mais forte. O esforço perverso de FHC, por exemplo, de equiparar o extremismo dos boçalnaros com um suposto extremismo do PT, PT, PT é da mesma cepa do estadão ou da folha.

    Caso diferente é o da globo, esta tem vínculos muito mais estreitos com os fascistas de todas as estirpes, incluindo os militares, embora paradoxalmente seja liberal nos costumes.

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  8. Tarde demais. Começa com a “Noite das Facas Longas”, passa pelos decretos ilegais, daí vem a “Kristallnacht”, e por fim, prisões políticas em massa por orientação política, de gênero, ou racial. Tudo com uma conotação de legalidade. No meio de tudo isso, o país perde a nata de sua intelectualidade, que migrará para o exterior por não compactuar com as políticas de perseguição política implementadas. Na Alemanha: Einstein, Brecht, Walter Benjamin, Klaus Fuchs, Thomas Mann, etc, etc. Na Áustria: Freud. E outros menos conhecidos, mas não menos importantes. Estamos prestes a se tornar um país cujo poder político estará, de forma oficial, nas mãos das milícias. Tudo isso com a anuência das Forças Armadas. Tal como na Alemanha anos 30. É assustador perceber isso.

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  9. Olá, Nassif, não ficou claro pra mim sobre a origem do texto da procuradora jerusa: é mensagem revelada pelo the intercept? onde foi publicado?

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  10. pois é, atualmente a lei legitima o estado
    de exceção e a perversidade desse sistema
    seletivo de punição ao campo progressista…

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  11. A procuradora Jerusa, que parece ser a única pessoa com um mínimo de bom senso entre os caçadores de comunistas do MP do Paraná, mal podia prever o que estava por vir:
    Presidente fanfarrão e irresponsável, tráfico de cocaína no avião presidencial, candidaturas laranjas no partido do presidente, imensa rede de funcionários fantasmas nos gabinetes, filho de presidente acusado de enriquecimento ilícito, envolvimento da família do presidente e do próprio presidente com milicianos assassinos, guru esquizofrênico orientando o governo e inclusive nomeando ministros, politica de desmonte do Estado e das estatais, subserviência automática aos interesses dos EUA e Israel etc.
    Agora é tratar de reparar os erros antes que o “grande reich brasileiro” se solidifique mais ainda.

  12. O Nassif é um lingua preta. Quando cassaram a Dilma ele finalizou o comentário dizendo que o Brasil havia aberto a caixa de pandora. Caramba, que as previsões da “pitonisa de Delfos” vão se confirmando dia a dia.

  13. Perfeito quando a procuradora diz “voto vencido”. Porque, dentro da lava jato sabíamos que o bom senso sempre foi voto vencido. Parabéns , canalhas da república de curitiba. Vocês conseguiram realizar a profecia da procuradora.

  14. Você não quer mas a lava jato veio para destruir o PT,venceu as eleições,empobreceu ao País devastando nossas riquezas pois isso só afetam as políticas sociais preservando a gente rica jocosamente chamada de elite quando elite é o que uma nação possui de melhor e não esse lixo que empesteia o Brasil.

  15. Bom, para mim podem pegar esse editorial e jogar no lixo……depois dessa bobagem abaixo, mostram-se totalmente sem noção, apenas defendendo o grupelho de sempre……..

    “Na verdade, os eleitores manifestaram nas urnas um sonoro protesto contra a politicagem que condenou muitos brasileiros à miséria”.

    Quanto a procuradora, foi apenas uma defesa “porcorativa”……nada mais…..

    Todos esse são cumplices pela miséria do país e dos brasileiros….o resto é conversa fiada…..

  16. O neossalvacionismo brasileiro

    Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes.
    Descobrem sempre novos erros para cometer.
    (Mark Twain – escritor norte-americano)

    Os estudiosos, os chamados brasilianistas, não são unânimes em identificar suas origens históricas. Em regra, atribuem suas raízes ao chamado “sebastianismo”: referência ao movimento político religioso surgido em Portugal, nos fins do século XVI, após a trágica morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, no ano de 1578, marco do declínio geopolítico português.
    Por paradoxal que pareça, foi também nesse período que se consolidou a conquista territorial do Brasil sob domínio espanhol, durante a União Ibérica (1580-1640). Não obstante, logo em seguida, sua parte mais lucrativa ser invadida e dominada pelos holandeses e transformada nas “Zuckerlands”, que, aliás, reconquistada, quase um quarto de século depois, foi o palco primevo do que chamamos “salvacionismo”, já que a “guerra de expulsão dos batavos” foi empreendida sob forte espírito religioso: luso-brasileiros católicos estavam a “salvar” o Brasil dos “holandeses protestantes”!
    A “restauração portuguesa” (1640) e a “reconquista das regiões açucareiras” (1654), seguida de seu declínio econômico, ante a concorrência antilhano-holandesa, e da “descoberta das minas” (esta, em 1693) reforçaram em Portugal e, por consequência, no Brasil a “espiritualidade católica”, ainda que no segundo sincretizada com outras matizes de origem africana ou indígena, ou de ambas.
    Ressaltemos que, ao mesmo tempo em que a mineração dava certo alívio ao declínio geral português, o pequeno reino ibérico e, por decorrência, sua colônia ficavam à margem das transformações intelectuais e tecnológicas que marcaram o século XVIII na Europa e na América do Norte, às quais os historiadores passaram a denominar Iluminismo e Revolução Industrial, respectivamente. Nem mesmo as tentativas de reformas do Período Pombalino (1750-1777) deram contam de retirá-los do limbo!
    Ao contrário, a “viradeira” do reinado de D. Maria I (1777-1796), depois alcunhada “a Louca”, e a regência de seu filho D. João (depois, “sexto” – 1796-1826), preguiçoso e com evidentes limitações de toda ordem, reforçou, na Metrópole e na Colônia, um profundo desprezo pela ciência, pela filosofia, pelo intelecto, pelo trabalho disciplinado e inventivo, enfim, por tudo que fosse inovador, produtivo, revolucionário em nome de um catolicismo barroco e sombrio, deslocado de sua época!
    Assim, a Corte Portuguesa instalou-se no Brasil (1808), sediou-se no Rio de Janeiro (1815), escondendo-se na “distante colônia” da “onda revolucionária” que varria a Europa junto com as tropas de Napoleão Bonaparte, justamente, e não por acaso, para “salvar-se” dela (ou delas, se nos referirmos às “tropas” e não à “onda”). Aqui reforçando o “padroado” (vínculo Estado – Igreja, religião e política), já alienígena em seu tempo, mas que legou como “herança maldita” (expressão hoje muita em voga, ironicamente pouco expressiva) para a não menos exógena monarquia americana que se instalou no Brasil a partir de nossa “independência” em 1822.
    E outra vez para “nos ‘salvar’ de nós mesmos, de nosso atraso, de nossa degenerescência, de ‘nossa inferioridade’ mestiça”, na década de 1870, sob batuta da filosofia comteana, o “positivismo”, e da pseudociência speciana, o “evolucionismo social”, que, aliás, não liam, literalmente “paridos pelos ouvidos”, militares brasileiros, saídos vitoriosos da malsinada Guerra do Paraguai, sob cabresto da aristocracia cafeeira, deram um golpe de Estado, em 1889, depuseram um inútil e inexpressivo imperador, e nos impuseram uma “distópica república sem povo”, aliás, “contra o povo”, que “a tudo assistiu bestializado”, para “salvá-lo” dele mesmo…!
    Daí por diante, ao longo do século XX, o “espírito salvacionista” foi incorporado à rusticidade da filosofia positivista pelos militares, especialmente do Exército brasileiro, e deste para as demais “forças”, com mais afinco entre sua oficialidade, na mesma proporção em que a mediocridade intelectual lhes beirava a indigência, se não a hipossuficiência; às vezes, com forte caráter autoritário, no limiar do fascismo, como na década de 1930 com o integralismo, ou na de 1960 e 1970 com sua DSN-LSN, expressa na aberração jurídica do AI-5: o Estado se sobrepunha à nação e nossas (?) forças armadas nos “salvavam de nós mesmos” “em nome da família” e “com Deus”… “amém”!
    Com o fracasso do “salvacionismo militarista”, evidenciado ainda nos anos de 1970, entretanto não devidamente expurgado pela abertura transacionada dos anos de 1980, outra vez excluído o povo pelo fracasso da campanha das Diretas Já, “passagem hoje desbotada da memória de nossas novas gerações”, gradativamente vem se formando um “neossalvacionismo”, desta feita, e outra vez mais, incrustado nas altas esferas da burocracia, no patronato estatal, e de novo contra o povo, anti-povo, misógina, racista, homofóbica, mas acima de tudo contra os pobres e os pretos.
    Esse “neossalvacionismo” instalou-se na cúpula do poder judiciário; o “salvacionismo militar” deu lugar ao “salvacionismo jurídico”; as “baionetas da doutrina de segurança nacional” deu lugar às “bics da interpretação bíblica das leis”; a “república dos quartéis e da caserna” deu lugar à “república dos concurseiros”, não menos medíocre, não menos indigente intelectual e moralmente, às vezes, próximo a práticas criminosas (como estamos assistindo com a Vaza Jato); infelizmente, mais perigosa: agora, é o “partido da justissa” que se lança a “salvar nosso povo de si mesmo”!
    Nosso novo “Golbery” é uma espécie de “iluminista de botequim”, mal plagiador de frases feitas chamado Luis Roberto Barroso; nosso novo “Figueiredo” é um bacharel latinista do Google “desdotado” de qualquer talento e com evidente inclinação ao crime, chamado Sérgio Moro; nosso novo “Ustra” é um vermezinho fanático e vaidoso da própria insignificância chamado Deltan Dallagnol! Eis os novos salvadores da pátria!
    Parece farsesco, mas é trágico!

    Leônidas Mendes Filho
    (historiador, professor, bacharel em Direito)

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    • Muito oportuno o seu breve levantamento histórico.
      Esse apanhado leva-nos a atentar para um fator preponderante e divisor de águas e sempre com forte, se não absoluta, presença em nossa história: a igreja católica.
      Se é fato que a ICAR não perde poder, tendo sido, aliás, a principal apoiadora do golpe de 64, será que agora, diante do poder dos neopentecostais liderados pela IURD, se interessará em recuperar a sua hegemonia?

  17. O editorial do Estadinho é uma grande merda. Esses textos que se metem a iluminados, mas que sempre recorrem a um “mas” para justificar sua participação no crime, não fazem nada além de alimentar o fascismo.

  18. A longa noite chegou. O comportamento inerte dos procuradores, especialmente no tocante às ameaças contra a ordem, capitaneados por Sérgio Moro, que admite manifestações contra os poderes da República, sem tomar medidas de dissuasão (devo lembrar que se opor a CF não é opinião, mas crime tipificado). A inação de promover o afastamento de ministros notoriamente protegidos pelo governo em seus crimes (caixa 2, apropriação de verbas de campanha, incompetência, ameaças a CF) tudo isto como disse Nassif, destruir a o país. Logo serei obrigado a me exilar ou resistir.

  19. A fratura é irreconciliável. Eu pessoalmente não podia estar menos interessado no destino do Estadão ou desses setores da burguesia que atiçaram os celerados (comportaram-se eles próprios como celerados). Basta dar uma rápida olhada nas capas da Veja de 2015 e 2016 e fica evidente que a imprensa deliberadamente criou essa situação. O que eles não esperavam é que um imbecil incontrolável fosse tomar a dianteira do processo, acostumados que estavam a oprimir os governos do PT.

    Hoje alguns iludidos querem “reestabelecer o centro”, “estender uma mão” para o(s golpistas do) PSDB, fazer um pacto com meia dúzia de políticos de 2ª divisão no apartamento de alguém, apelar para o STF…

    Eu não poderia me importar menos. A população está submetida a uma política desabrida de genocídio, do aero-Witzel ao “lugar de bandido é no cemitério” do Dória. A economia do país está sendo demontada, a Petrobrás obrigada a alugar a infraestrutura que ela própria construiu, milhões de brasileiros não têm mais expectativa de renda e do que fazer na vida. O Bolsonaro é um fascista, não importa o que um professor universitário venha me dizer. É um fascista e ponto. E como tal, ele vai tentar destruir as organizações populares e assassinar lideranças através de milícias.

    Frente a essa situação, existem duas esquerdas: a inútil, que escreve na Folha, tem cargos públicos e quer passar mel a todo custo no Bolsonarismo; e a esquerda útil, que tem sede de sangue, não escreve em jornal burguês, não tem voz na mídia nem cargos institucionais, e quer desesperadamente lutar contra o fascismo, libertar o Lula, e derrubar o governo Bolsonaro, do jeito que der. Mas que está desorganizada e enferrujada.

    Como a fratura social é IRRECONCILIÁVEL, vamos ter algum grau de luta social violenta. Não se iludam, se nós não estivermos dispostos a ir pra cima deles, eles virão pra cima de nós e tentarão nos esmagar. Não existe conciliação com fascistas. E inclusive, hoje vemos que foi um erro não ter ido pra cima dos fascistas da ditadura militar.

  20. As comparações (não se falou da revolução francesa). Até quando irá essa semeadura. O brasileiro que ainda tem o seu trabalho se preocupar em mantê-lo, os que estão desempregado lutam por um colocação mesmo que seja das mais baratas possíveis. Escrever bonito, difícil, espalhar as dúvidas, incertezas, insegurancas é a regra

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  21. Sou mais o discurso da procuradora (mais sincero) do que o editorial do “Estadão”, velho cúmplice do que sempre houve de pior no Brasil.

  22. Eu ainda não acredito que iremos resvalar para uma quebra absoluta da institucionalidade democrática. Talvez por ser otimista. Otimista no sentido de reconhecer o quadro tenebroso que nos assombra, mas, consciente de que há como corrigi-lo. O otimista não é aquele que vendo o mundo a desabar põe-se a cantar “don’t worry, everething’s gonna be alrigth”. O otimista tem consciência de sua capacidade de luta e que nada nesse mundo é irreversível ou, mesmo, inevitável.
    O mundo de hoje não é o mundo de 33 e sequer o Brasil de hoje é o de 64. Somos uma sociedade conectada globalmente tanto em termos sociais quanto econômicos. Não somos uma Honduras ou um Panamá, ainda que alguns atestem ao contrário. Também, não alcançamos o nível de deterioração social e econômica que assolava a Alemanha da República de Weimar, ainda. E, também, não há, nem haverá um Hjalmar Schacht que, após controlar a hiperinflação, entrou no governo para conduzir um programa de desenvolvimento econômico – que, aliás, deu certo – colando sua imagem de sucesso como condutor da economia e o reconhecimento que tinha do povo alemão a Hitler, o que reforçou o über alles nazista. Hitler deu circo, mas não esqueceu do pão.
    Aqui o circo é mambembe e o pão é racionado. Nosso Hitler está mais para Idi Amim ou Pol Pot, nosso Schacht é “Beato Salu” Guedes, nosso Himmler é Sérgio “Super” Moro, nosso Canaris é Augusto “ops, deu azar” Heleno e nosso Göebbels é Carlos Bolsonaro – 002 com licença para tweetar.
    Então, calma. Basta não desistirmos da luta, porque se perdermos desse time não empatamos com mais ninguém.

  23. Parabéns, Nassif!
    Essa coluna deveria ter sido publicada como editorial em todos os grandes e pequenos jornais do país. Como vc mesmo o diz, a longa noite ainda está por vir, se nada for feito pra contê -la. A ameaça do totalitarismo é iminente e poderá se tornar uma grande tragédia.

  24. Essa procuradora reclama para essa operação fraudulenta e CRIMINOSA uma pureza de intenções e objetivos da qual carece,sendo incensada apenas pela massa alienada (maioría neste país) e os malandros de sempre interesados nos benefícios que esta farsa lhes proporcionaría.
    Vale pesquisar e os jornalistas tem a obrigação de faze-lo,SOBRE QUANTOS HOJE 01/07/19 ESTÃO PRESOS EM CELAS.E REPETIR ATÉ O CANSAÇO OS ENORMES PREJUÍZOS ECONÓMICOS QUE ESTES DELINQUENTES PROVOCARAM,E ESTOU FALANDO DA QUADRILHA CURITIBANA FARSAJATO.
    CHEGA DE CONTINUAR ALIMENTANDO A FARSA DESSA OPERAÇÃO CRIMINOSA !!!!!!
    ACORDA BRASIL !!!!

  25. Luis Nassif como sempre dando um banho. Fiquei interessado na tua promessa de ontem de comentar/apresentar algum material sobre novos pensamentos de políticav e economia, fiquei curioso, mas sempre com um pé atrás do termo nova esquerda. Precisamos sair e sairemos logo, acredito, desta barbárie que assola o país. A comparação com os tempos de Hitler causa arrepios. Precisamos sim promover um debate de fundo sobre Estado, política, economia que enfrentem os desafios do tempo presente. E encarar sem medo os erros cometidos, e foram enormes, dos governos petistas. Menos arrogância de intelectuais e dirigentes partidários e mais auto crítica.

  26. Nassif o Brasil foi submetido intensamente a uma técnica nazista de manipulação das mentes através da mídia tradicional,quase sempre estava associado reportagens sobre corrupção na Petrobrás Lula/PT/Dilma,foram e são longos anos assim,agora estão novamente aplicando técnicas manipuladoras para salvar a Lava-jato é só assistir ao fantástico passado e a cobertura dos protestos feita pela Globo,isto é seríssimo,associam combate a corrupção à Lava jato sempre mencionando isso pra ficar na mente/subconsciente das pessoas essa informação,por isso há tantos zumbis/gado aqui !!

  27. O Nassif é um lingua preta. Quando cassaram a Dilma ele finalizou o comentário dizendo que o Brasil havia aberto a caixa de pandora. Caramba, que as previsões da “pitonisa de Delfos” vão se confirmando dia a dia.

  28. Estou distribuindo via WhatsApp com o seguinte adendo:

    [1/7 19:21] José Carlos Lima: 🖕assustadora mas perfeita essa analise do Nassif sobre o ingresso do Brasil no nazi-fascismo atual
    [1/7 19:31] José Carlos Lima: Divulga

  29. Assim fica complicado.

    A “Noite das Facas Longas” é a noite de 30 de junho para primeiro de julho de 1934. Hitler tomou posse como chanceler em 30 de janeiro de 1933 – um ano e meio antes.

    Daí derivam os equívocos do texto. A “Noite das Facas Longas” não é o início da ofensiva hitleriana contra a democracia alemã – que já estava morta e enterrada havia muito tempo. A prisão dos deputados comunistas data de março de 1933; o fechamento dos sindicatos, de maio; o fechamento do partido social-democrata é de junho de 1933; a lei proibindo novos partidos políticos é de julho de 1933. A demissão em massa dos servidores públicos judeus, social-democratas e comunistas é de março de 1933.

    A “Noite das Facas Longas” foi um acerto de contas entre os nazistas já amplamente vitoriosos. As SA estava longe de ser um “MBL da época”; ao contrário, eram parte integrante do partido nazista – a sua milícia paramilitar (milícia mesmo, ao contrário das “milícias” cariocas, que são quadrilhas de extorsionários, “súcias” para usar um termo antiquado, “racket schemes” para usar o equivalente inglês), e, se alguma coisa, provavelmente a ala mais extremista do movimento: as cabeças dos seus líderes foram oferecidas ao Exército conservador como uma indicação de que Hitler não toleraria mais disputas que colocassema a posição das forças armadas na nova ordem em dúvida. O episódio não marca uma aceleração do processo nazista, mas, ao contrário, uma pausa ou recuo temporário, a fim de tranquilizar os conservadores e liberais.

  30. Enquanto a mão que balança o berço continuar embalando os fantoches hoje no poder qualquer aberração perpetrada pelas marionetes do executivo ficará no máximo por 24h no radar da midia infame que desinforma o povo brasileiro há décadas.
    Os piores crimes contra o povo são relegados a notas de rodapé ao tempo que imbecis, recrutados por grupos idiotas de extrema direita bancados pelas mesmas mãos que controlam as marionetes, desfilam de amarelo cbf falando merda e babando ódio.
    O povo livre precisa responder nas ruas com movimentos que apoiem a luta pela manutenção da democracia e do estado de direito.

  31. Parabens pelo seu trabalho. Seu nome já está e ficará gravado na historia do jornalismo sério e competente do Brasil.

  32. O candidato Amoêdo deveria pedir uma recontagem dos votos. Todo eleitor de Bolsonaro arrependido diz que votou no Amoêdo.

  33. Nassif, boa análise. O poder absolutista (não mais ditatorial) está marcha. E pela democracia, as liberdades e a justiça, também, porém, em menor escala, por estar fragmentada e desconfiada de tudo e todos. Essa desconfiança gera uma apatia, que gera preguiça e aos poucos, o suicídio coletivo.

  34. No ponto. Temos mais uma vergonha mundial para passar. O tal oficial alemão homenageado pelo EB nunca foi homenageado em seu próprio país, que luta para esquecer este passado ignóbil. O (dês) governo brasileiro ressuscita o ódio.

  35. Mais um maçom.
    Não creio que possa ser apenas coincidência o fato de vários golpistas, nas mais diversas áreas importantes da sociedade (militares, políticos, judiciário, …) tenham em comum o fato de pertencerem a essa irmandade (ou seja lá o que for).

  36. O que a assusta é o despreparo e a burrice dos procuradores que temos por aí…. o que essa Jerusa esperava? entrar para história do Brasil como uma heroína… enquanto ela e seu bando desrespeitavam despudoramente todos o princípios democráticos?… desculpem-me, mas é uma mula, anta seria um elogio. É assustador que existam profissionais de tão baixo nível, facilmente manipuláveis, como os exemplares desta “Força Tarefa” atuando no serviço público. Em suma, um bando de gente burra, vaidosa, sem inteligência ou caráter, achando-se “muiiito importantes”. Bando de otários.

  37. + comentários

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