Damares leva mercado literário infanto-juvenil à autocensura

Declarações da ministra e de outras autoridades demonizam seres mágicos, e marcam tabus das obras infantis

Jornal GGN – Seres fantásticos tornaram-se elementos delicados na retórica conservadora propagada por integrantes do governo Bolsonaro, principalmente pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, e isso tem levado autores de literatura infanto-juvenil a serem mais criteriosos com seus textos por conta de reclamações contra tais elementos.

No ano passado, um vídeo em que Damares condena a obra Manual prático de bruxaria, de Malcom Bird, tornou-se viral nas redes sociais. “Isso é livro para dar para crianças, irmãos? Ensina como ser bruxa, como se vestir como bruxa”, diz Alves diante de uma congregação religiosa. O recente caso de caça aos livros por parte da Secretaria da Educação de Rondônia mostra que diferentes editoras, escritores, educadores e ilustradores de livros infantis tem passado por problemas desde que essa “caça às bruxas” teve início.

“A autocensura já acontece. Já tem editores falando que é melhor não publicar obras infantis com essas temáticas. Dizem: ‘Vamos fazer algo mais leve”, conta a escritora Rosana Rios, que também é presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ), em entrevista ao jornal El País.

Em fevereiro de 2019, na esteira das polêmicas declarações de Damares Alves, a Leiturinha, maior clube de literatura infantil do país, com 170.000 assinantes, publicou um edital em que não aceitava obras com “seres mágicos, como bruxas, fadas e duendes” e, depois da má repercussão nas redes sociais, voltou atrás. 

“Os seres fantásticos são vistos como ameaça porque esses grupos [religiosos] têm um grande apego à literalidade da Bíblia, e aí o simbólico, que é um elemento estrutural da psique, perde espaço. O simbólico está tanto em uma placa de trânsito quanto em um conto de fadas. São elementos que ampliam a concepção de mundo e enriquecem o pensamento e as relações humanas”, explica a psicóloga Clarissa de Franco, que tem pesquisado os efeitos da retórica conservadora na educação infantil.

Com informações do El Pais

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