Entrevista no exílio (um exercício literário em tempos sombrios)

Os computadores e holofotes estão montados e ligados. O braço robótico da câmera faz seu auto-teste, o técnico/diretor supervisiona o resultado num pequeno monitor sem fio. O programa vai ajustar o foco, a altura, inclinação, posição e zoom da câmera de acordo com as emoções expressas pela face do entrevistado.

Lula está sentado numa cadeira modesta, um cobertor imenso esconde seu corpo. O frio intenso parece incomoda-lo. Acesa do outro lado do cômodo, a lareira está crepitando.

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– Bom dia. Estamos aqui em Oslo, capital da Noruega, para entrevistar o presidente Lula – diz a jovem repórter.

-Diga oi para os brasileiros.

– Oi – repete o ex-presidente brasileiro.

– É só isso que o senhor tem a dizer?

Foi só isso que você me pediu para dizer menina.

-O que o senhor tem a dizer sobre sua vida no exílio?

– A vida aqui é quase tão boa quanto a que eu tinha em Garanhuns, mas não tem rapadura e o frio devora os ossos que nem carcará esfomeado.

– Você pensa muito no Brasil – a jornalista se vira para ver de que maneira a câmera vai reagir à reação do entrevistado.

– O Brasil está dentro de mim onde quer que eu vá, minha cara.

Lula levanta, o cobertor vai ao chão revelando uma imensa pilha de livros de Direito Penal, Direito Processual Penal e Direito Constitucional que estavam atrás da cadeira encostada na parede. A câmera procura o rosto do ex-presidente, mas ele deu as costas à entrevistadora e apanhou alguns livros.

– Vejo que o senhor está estudando muito. 

– Nem não – responde Lula tranquilamente, os livros que ele pegou estão no colo dele.

– Então para que o senhor trouxe tantos livros de Direito Penal, Direito Processual Penal e Direito Constitucional para Oslo?

– Não trouxe não menina. Foi o professor Afrânio Jardim que me enviou. Ele ficou tão decepcionado com o resultado do processo que resolveu parar de estudar e de lecionar Direito Penal. Ele me enviou porque imaginou que eu precisaria muito dos livros.

– Como assim?

– Estes livros não tem mais nenhuma utilidade no Brasil, pois nem os juízes aplicam o que está escrito neles. Mas aqui em Oslo eles são especialmente úteis para mim.

– Entendo. O senhor resolveu estudar a fundo seu caso. O senhor pretende revisar o processo do Triplex ou está apenas querendo entender a decisão que foi proferida? – e se vira para observar a reação da câmera.

Lula ri e não se levanta novamente e joga um livro aberto na lareira.

– Observe com atenção. – diz o ex-presidente para a repórter.

Em alguns segundos o livro começa a pegar fogo inundando o cômodo de luz. A temperatura no cômodo aumenta um pouco.

– É verdade que o senhor vai receber o Prêmio Nobel da paz?

– Não sei não, mas acho que eu mereço um né? – pausa, a câmera robótica detecta uma alteração na face do entrevistado e se posiciona para dar um close no rosto dele a partir do chão. O ex-presidente aguarda alguns segundos e recomeça.

– É… acho que eu mereço sim. Obama ganhou um sem ter feito nada e depois que ganhou ele provocou milhares de mortes incentivando guerras civis no Norte da África, no Oriente Médio e na Ucrânia. Eu fui presidente durante 8 anos e não comecei nenhuma guerra.

– Mas o senhor foi acusado de ser um tirano desonesto. – diz a jornalista tentando irritar o entrevistado.

– É verdade. Eu fui injustamente acusado de ser um tirano, muito embora não tenha me comportado como um. Veja menina… – diz o ex-presidente jogando outro livro aberto na lareira.

– Qualquer outro líder político em atividade e popular como eu que fosse acusado de ser um ditador e condenado injustamente por corrupção teria mandado queimar centenas de juízes. E eu estou aqui apenas queimando pacificamente os livros que eles resolveram desprezar durante meu julgamento.

Corta, corta, corta… diz a placa levantada pelo técnico/diretor.

– Infelizmente nosso tempo acabou.

 

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