O processo de vaporização em pleno funcionamento, por Sebastião Nunes

Como se fosse nestes dois países impossíveis e inacreditáveis que temos o desgosto de ver cometendo asneiras e besteiras de todos os calibres, meu herói troca uma inexistência por outra, sem que isso faça qualquer diferença.

O processo de vaporização em pleno funcionamento

por Sebastião Nunes

Wilson ignorava por que Joaquim Fulgêncio caíra em desgraça. Tanto podia ter sido por corrupção quanto por incompetência ou desobediência. Ou pode ser que o Grande Irmão pretendesse apenas se livrar de um subordinado excessivamente popular. Provavelmente, Joaquim, ou alguém próximo dele, tornara-se suspeito de tendências heréticas em relação ao Partido. Ou talvez – e era o mais provável – aconteceu porque os expurgos e as vaporizações eram parte necessária para o bom funcionamento do governo. A única pista real era a palavra em Novilíngua “impessoas”, indicando que Joaquim Fulgêncio estava morto.

Nem sempre se podia dizer o mesmo quando alguém era preso. Às vezes, o detido era solto e lhe permitiam viver em liberdade um ou dois anos antes da execução. Mais raramente, alguém, que se imaginava morto há tempos, reaparecia igual fantasma em algum julgamento público, no qual denunciava centenas de camaradas, antes de desaparecer de novo, dessa vez em definitivo.

Mas Joaquim já era uma “impessoa”. Não existia, nunca havia existido. Wilson decidiu que não bastava mudar o sentido da declaração do Grande Irmão. Era melhor supor que se tratava de algo sem nenhuma relação com o assunto original.

Podia transformar o discurso na denúncia habitual de traidores e criminosos mentais, mas isso era evidente demais. Por outro lado, inventar uma nova vitória contra os Coronaviridae ou algum êxito de superprodução no Nono Plano Trienal poderia complicar exageradamente os registros. Wilson precisava de algo totalmente novo.

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Quase de imediato lhe ocorreu certo camarada Orlandino, falecido há pouco, em circunstâncias misteriosas. Ora, de vez em quando, o Grande Irmão dedicava a ordem do dia à exaltação de algum humilde personagem da base do Partido, cuja vida e morte exaltava como exemplo digno de imitação. Assim, Wilson resolveu elevar o camarada Orlandino à categoria de herói do dia. Nada era real, Orlandino e Joaquim nada tinham em comum, mas algumas linhas impressas e um par de fotografias falsas serviriam para devolver Orlandino à vida, matando de vez o inexistente Joaquim Fulgêncio.

Decidido o quê, era preciso resolver como. Wilson refletiu alguns minutos. Em seguida aproximou-se do falaescreve, começando a ditar no estilo habitual do Grande Irmão. Um estilo ao mesmo tempo pedante e militar, muito fácil de imitar, pelo recurso costumeiro de fazer perguntar retóricas, que respondia imediatamente:

– Que lição podemos tirar disto, camaradas? A lição, que é também um dos princípios fundamentais do Socmundi, é que… etc. etc.

 

UMA BIOGRAFIA INVENTADA

“Aos três anos, o camarada Orlandino havia desprezado todos os brinquedos, exceto um tambor, um fuzil-metralhadora e um helicóptero em miniatura. Aos seis anos – portanto um ano antes da idade regulamentar, e graças a uma concessão especial – ingressou nos ‘Espiões’. Aos nove, era chefe de tropa. Aos 11, denunciou um tio materno à Polícia do Pensamento, depois de ouvir uma conversa que lhe pareceu subversiva. Aos 17, foi coordenador da Liga Juvenil Antissexo. Aos 19, criou uma granada detonada por controle remoto que foi adotada pelo Minipaz e que, logo na primeira vez em que foi testada, despedaçou 31 proles anarquistas num restaurante popular, ferindo gravemente 59 outros. Aos 20, morreu heroicamente em serviço, lutando contra terroristas proles que tentavam introduzir uma nova cepa de Coronaviridae nos reservatórios de água mineral que abasteciam os ministérios.”

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“Um fim de vida” – terminou Wilson, falando pelo Grande Irmão – “que era impossível imaginar sem um natural sentimento de inveja”.

Não fazia calor, mas Wilson suava, pelo concentrado esforço de imitação. Sabia de seu talento para imitar a retórica do Grande Irmão, mas sempre ficava a dúvida sobre qual discurso – dos provavelmente muitos que estavam a ser produzidos para aquele texto – seria aprovado e, talvez até, elogiado numa próxima ordem do dia. Claro que só os envolvidos diretamente saberiam do elogio, mas não importava: um elogio do Grande Irmão tinha uma importância capital no futuro de qualquer camarada do Partido Exterior ou mesmo do Partido Interior.

Para encerrar a tarefa, Wilson ponderou se devia ou não conceder ao camarada Orlandino, pelo feito heroico, a medalha da Ordem do Mérito Notável Grau I, mas afinal concluiu pela negativa, em virtude das inúmeras referências cruzadas em que esse acréscimo redundaria.

“Não creio que o camarada Orlandino reclame de sua nova biografia” – pensou Wilson com uma risadinha de escárnio. “Sair do esquecimento para as páginas do Globo não é para qualquer um nem acontece todo dia”.

Wilson desligou o falaescreve, recostou-se na cadeira e deu por encerrada mais uma manhã de trabalho. No cubículo ao lado, o camarada Ramiro emitia chispas de ódio em sua direção.

 

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1 comentário

  1. A foto é emblemática. Dois personagens que moldaram a desgraça criada neste Brasil em 90 anos de NecroPolítica. Influências ativas sobre o Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista de 1930. Mentores intelectuais e políticos de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Mas alguns dizem não saber como produzimos estes 90 anos. Pobre país rico….

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