Três anos sem Altamiro Carrilho, por Mara L. Baraúna

 

Altamiro Aquino Carrilho (Santo Antônio de Pádua, RJ, 21 de dezembro de 1924 – Rio de Janeiro, RJ, 15 de agosto de 2012)

Filho de Lyra de Aquino Carrilho e Octacilio Gonçalves Carrilho, era membro de uma família de oito  irmãos, entre eles o flautista Álvaro Carrilho.

Seu avô materno, Carlos Manso de Aquino, era tão apaixonado por música que deu à sua primeira filha o nome de Lyra. Por influência da família de sua mãe, aos cinco anos de idade brincava com uma flauta de bambu, feita por ele. Ele serrava perto do ombro do bambu, deixava toda a parte aberta, e ia furando com um ferro quente. Furava e tocava, tirava uns sons agradáveis tocando sozinho em casa. 

Aos 11 anos, já integrava a Banda Lyra de Orion (formada em sua maioria por seus parentes), tocando tarol e, aos 12, vencia com maestria o programa “Calouros em Desfile”, de Ary Barroso, com uma música de Dante Santoro,  ‘Harmonia selvagem’, uma música difícil de executar. Altamiro Carrilho levou para casa uma pequena fortuna. Era muito dinheiro, oito prêmios acumulados. E foi um incentivo incrível: com o dinheiro deu para comprar uma flauta decente.

Um fato marcante que o influenciou musicalmente na infância, foi a primeira vez em que ouviu no gramofone a música Margarida, uma mazurca de Patápio Silva. 

Em 1940 mudou-se com a família para Niterói (RJ), onde trabalhava como farmacêutico e à noite estudava música com o amigo e incentivador Joaquim Fernandes, carteiro e flautista amador. Em 1943 participou pela primeira vez de uma gravação, em um 78 rpm de Moreira da Silva, na Odeon. Bem sucedido, foi apresentado a outros artistas e acompanhou estrelas do rádio como Ademilde Fonseca e Emilinha Borba. Em 1949, gravou o seu primeiro disco na Star, “Flauteando na Chacrinha”. Formou seu primeiro conjunto em 1950 para tocar na Rádio Guanabara, quando foi convidado a integrar o Regional do Canhoto, substituindo Benedito Lacerda.

https://www.youtube.com/watch?v=2bn8pQT4Unw]

Em 1951, já tendo acompanhado em gravações na Rádio Mayrink Veiga astros como Vicente Celestino, Sílvio Caldas e outros, apareceu no filme “Mulher do Diabo”, de Milo Marbisch. Em 1955, formou a “Bandinha de Altamiro Carrilho” e gravou seu maxixe “Rio Antigo”, que fez grande sucesso, chegando a vender 960.000 cópias em apenas seis meses! De 1956 a 1958 a Bandinha ganhou grande prestígio e popularidade com seu programa “Em Tempo de Música”, na TV Tupi. Em 1958, recebeu o troféu Microfone de Ouro, instituído pela revista Radiolândia.

https://www.youtube.com/watch?v=jD22zhb5eqI] 

Em 1959, lançou o LP “Cantigas de Roda : Carequinha, Altamiro Carrilho, Sua Bandinha e Coro Infantil”, com o registro das composições tradicionais “Galope de Abertura”; “Ciranda Cirandinha”; “Passa Passa Gavião”; “Samba Lelê”, entre outras e, em 1960, o LP “Cantigas de Roda Nº 2”, com “Sapo Cururu”; “O Coelhinho”; “Pobre Peregrino”; “Senhora Viúva”; “Escravos de Jó”.

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https://www.youtube.com/watch?v=Mkx8R4bsgho]

https://www.youtube.com/watch?v=tqb81gmutqE]

https://www.youtube.com/watch?v=RMNGEaVrFJg]

Tornou-se conhecido internacionalmente na década de 60, quando se apresentou em diversos países, como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Egito, México, Estados Unidos e União Soviética. Com o grande sucesso ficou um ano no México, onde fora passar uma temporada de apenas vinte dias. A partir da década de 70, tornou-se um dos flautistas mais requisitados, como solista e como acompanhante.

Foi convidado pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre para participar de um programa de Concertos onde, sob a regência do Maestro Julio Medaglia, executou o Concerto Nº 2 em Ré Maior KV 314 de Mozart e foi aplaudido de pé durante dez minutos.

A carreira de Altamiro alternou fases glamourosas com outras revoltosas. Em 1955, quando seu regional ganhou a TV, viveu a glória. Depois, houve um período de desilusão com os rumos da música.

Quando o iê-iê-iê e as guitarras elétricas dominaram o cenário, ele chegou a vender 12 de suas 18 flautas e destruir todos os seus troféus. “De 1962 a 1971, o músico brasileiro ficou totalmente relegado. Como muitos dos meus colegas que chegaram a ser até chofer de táxi, eu também  procurei emprego numa corretora. Só não comecei o trabalho porque fui desestimulado pelo próprio gerente”, contaria, em 1975.

Além das próprias músicas e de acompanhar as gravações dos mais consagrados artistas brasileiros, deixou sua marca inconfundível em solos de flauta em dois dos maiores sucessos brasileiros: “Detalhes”, de Roberto Carlos, e “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque de Hollanda.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=9YfVoRBaKY4

[video:https://www.youtube.com/watch?v=FnvVwFZOJ2o

No VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro acompanha Wanderléa cantando “Lourinha”

[video:https://www.youtube.com/watch?v=lT02lGiuoWI

Além de centenas de composições e dezenas de álbuns, ele contribuiu como produtor e músico para sessões lendárias como “A Turma da Gafieira” (com Sivuca, Edson Machado, Raul de Souza e Baden Powell, entre outros) e “Nova Geração em Ritmo de Samba” (Eumir Deodato, Claudette Soares, Paulo Silvino). 

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[video:https://www.youtube.com/watch?v=FaKyxnfDi5I

Seu disco “Clássicos em Choro” foi premiado com o Troféu Villa-Lobos, como melhor disco instrumental, tendo recebido também Disco de Ouro pelo seu trabalho “Clássicos em Choros Nº 2”.

Ganhou o Prêmio Sharp de 1997 como melhor CD instrumental, com o seu “Flauta Maravilhosa” e lançou, no ano seguinte, o CD “Chorinhos Didáticos”, pelo qual o aluno de música aprende ouvindo, tocando com play back e lendo as partituras anexas ao CD.

Recebeu em 1998 uma Comenda especial, a Ordem do Mérito Cultural, em reconhecimento ao seu talento e sua incansável luta em prol da música brasileira. Ganhou o titulo de “Cidadão Carioca” concedido pela Câmara dos Deputados. Em 1999 participou, com Mauricio Einhorn (harmônica de boca), Sebastião Tapajós (violão) e Gilson Peranzzett (piano), do CD “Encontro de Solistas!.

Em 2001, pela gravadora alemã Teldec, com produção de Rildo Hora, e juntamente com Carlos Malta, Sivuca, Henrique Cazes, Época de Ouro, Pedro Amorim, Joel Nascimento, Maria Tereza Madeira e Ademilde Fonseca, participou do disco “Chorinho”. Durante os anos de 2001 e 2002, manteve um programa musical na Rádio MEC AM, no qual recebia vários convidados para lançamentos de música instrumental (principalmente choro). Em 2004, comemorou 60 anos de carreira com show no bar Mistura Fina, na Lagoa, bairro do Rio de Janeiro.

Em 2003, Altamiro recebeu a Comenda da Ordem do Mérito Cultural da Magistratura pelos serviços prestados à cultura brasileira.

Em 2005, gravou um DVD ao vivo no Teatro Municipal de Niterói, com participações de nomes como Cristóvão Bastos, Nailor “Proveta “Azevedo, Gilson Peranzzetta, Paulo Sérgio Santos, Déo Rian, Zé da Velha, Maurício Einhorn, entre outros. Dois anos depois, o pianista Cristóvão Bastos o homenageou com a suíte “Altamirando”. No mesmo ano apresentou-se no festival “Na cadência do choro”, realizado no Circo Voador ao lado da cantora Ademilde Fonseca. 

A gravadora Biscoito Fino lançou “A fala da flauta”, uma caixa com 4 DVDs de 6 horas de duração e um livreto de 80 páginas. A caixa reúne, além do show realizado no Teatro Municipal de Niterói, aparições na TV, entrevistas e momentos do flautista. O Projeto inclui ainda três CDs, “Poesia do choro”. 

[video:https://www.youtube.com/watch?v=eeTnRXKYLq0

Em 2009, foi lançado em edição bilíngue o songbook com 12 composições de sua autoria dentro da série “Clássicos do choro brasileiro”. Estão presentes suas composições “Aeroporto do Galeão”, “Beija flor”, “Caco de vidro” e “Vivaldino”. Além das partituras, acompanha o songbook um CD com as músicas com interpretações do flautista e seu regional. 

É considerado o maior flautista do Brasil e um dos quatro melhores da história da música, ao lado de Hubert Laws, Jean-Pierre Rampal e Don Burrows. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Um dos maiores instrumentistas da história da música brasileira, com mais de 100 discos gravados e 200 composições e um dos mais importantes divulgadores do estilo nacional conhecido por “chorinho”, faleceu em 15 de agosto de 2012, no Rio de Janeiro, aos 87 anos de câncer ósseo. Foi enterrado em Santo Antônio de Pádua, no Noroeste Fluminense, cidade natal do músico.

Fontes:

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Altamiro Carrilho na Rádio Batuta, por Carla Paes Leme

Altamiro Carrilho no Dicionário Cravo Albin

Altamiro Carrilho (1924-2012) parte 1, por Fábio Gomes

Altamiro Carrilho (1924-2012) parte 2, por Fábio Gomes

Altamiro Carrilho fala sobre a composição do chorinho “André de Sapato Novo” 

Altamiro Carrilho cobra o direito de ouvir a nossa música no Brasil, por Rosa Minine

Altamiro Carrilho deixou sua marca em 70 anos de música popular

Altamiro Carrilho foi sucesso também na Rússia

Discografia de Altamiro Carrilho no Clique Music 

A entrevista com Altamiro Carrilho, por Luis Nassif

Morre aos 87 anos o flautista e compositor Altamiro Carrilho

Música Popular Brasileira perde Altamiro Carrilho, por Wallace Surce

Nosso homem flauta 

Os sopros e a fala mansa do músico Altamiro Carrilho, por Roger Marzochi

 

 

 

 

 

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8 comentários

  1. Que certeza de doçura!

    A. Carrilho foi fundo musical da minha infância no Rio.

    Hoje o guardo, com licença poética nos ouvidos, como um músico medieval daqueles, inspirando as novas cantigas de amor, de amigo que escrevo.

    Ele me comove.

    • Você colabora muito com meus posts!

      Você, repito, com seu canal no youtube, colabora muito com meus posts!!

      Lembra que eu reclamei da foto que aparece quando eu posto no facebook e você disse que a escolha é aleatória? Está resolvido!

  2. Eu me acho estranho por

    Eu me acho estranho por sempre acreditar que o Altamiro Carrilho, Pixinguinha, Cartola etc…ainda encontram-se entre nós .

    Muitas vezes me sinto surpreso quando leio algo sobre o falecimento destas figuras .

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