As pesquisas e os verbos, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

As pesquisas e os verbos

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Primeiro, o contexto da bagaça: a situação 1 era o candidato A, preso e impedido de concorrer, na liderança isolada, seguido do candidato B (dsclp) no segundo lugar, com metade dos votos do candidato A. Tal situação persistiu até terça-feira da semana passada. Em 11 de setembro o contexto se alterou para a situação 2: candidato A’ entra no lugar do candidato A; candidato B mantém o segundo lugar.

Com isso, a pesquisa Ibope de ontem, na verdade, está medindo até que ponto A’ consegue emular A, e se o percentual de B se altera. O que o Ibope mediu: A’ cresceu 11 pontos percentuais em sete dias, e está em segundo lugar, sem empate com ninguém, enquanto B oscilou na margem de erro, e está em primeiro.

Observem os verbos que eu usei no parágrafo acima para falar de Haddad (o Alinha) e o Bolsonaro (Bê): oscilar para Bolsonaro e crescer para Haddad.

Agora vamos ver como os jornais deram destaque a isso. Claro que dona Pragmática vai nos ajudar na análise:

  1. Bolsonaro atinge 28%; com 19%, Haddad se isola em 2º (Estadão, capa)

  2. Haddad cresce 11 pontos e se isola no segundo lugar (Estadão, interna)

  3. Bolsonaro segue líder e Haddad cresce 11 pontos, aponta Ibope (Folha, interna)

  4. Bolsonaro lidera com 28%; Haddad vai a 19% e se isola em segundo lugar (Globo, capa)

  5. Bolsonaro é líder, Haddad sobe 11 pontos (Globo, interna)

 

– Bolsonaro é líder / lidera / atinge;

– Haddad cresce / sobe e se isola.

 

Não sei quanto a vocês, mas eu tô aqui encasquetada com esse “se isola” do Haddad. É possível entender esse “se isolar” como “não está empatado na margem de erro com ninguém”, mas também é possível entender algo como Haddad estar à parte da corrida presidencial – tipo Daciolo nas montanhas.

Como nas manchetes eleitorais não há necessidade de catar cabelo em ovo, vou fazer de conta que não vi esse “isolamento”. Mas deixo ocêis tudo aí cas pulga atrás dazoreia.

Mas não consigo deixar de observar que em todas as manchetes de capa o tópico é Bolsonaro (que apenas oscilou); Haddad (que subiu inacreditáveis onze pontos) virou tópico só na manchete interna do Estadão. O importante é reforçar a liderança do Bolsonaro, né? E Segura, Berenice, que esta semana ainda tem Datafolha!

 

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