A morte, que nos joga o presente na cara.

“Viver é ir morrendo aos poucos”, me ensinou uma vez minha mãe, enquanto dividíamos uma dor. Quando for a nossa morte, a morte definitiva, biológica, essa, arrisco, nos será indiferente: não estaremos mais aqui – nem em lugar nenhum – quando ela nos encontrar. É no trajeto até esse nosso encontro que a morte – seja a real, seja a simbólica – dói: parte da vida.

O mundo atual tem dificuldade em lidar com a morte: criamos, inclusive, éticas super racionais que tentam negar a morte como parte da vida – e, admito, estou inserido nesse espírito do tempo, ainda que tente ir contra. Porém, a vida só subsiste com a morte: para as vidas que surgem é preciso que outras partam, até para a Terra sustentar todo mundo. Ouso ainda: a vida só faz sentido com a morte: a perspectiva de nosso fim é que dá sentido à nossa existência no mundo. E a morte nada tem de racional: ela chega quando chega, o fim é o fim quando acontece, e não porque se cumpriu um ciclo, se esgotou o que havia para ser. Em geral o fim chega no meio, interrompendo de chofre algo que prometia se alongar ainda muito tempo – não só prometia, desejávamos. E vai sobrar para quem fica a batata de lidar com isso, com a dor da perda, com o luto, com a existência rasgada em algo que era então praticamente essencial.

Talvez uma das coisas mais devastadoras de um fim seja nos jogar no rosto o presente, esse instante fugidio que parece sequer existir, e com o qual preenchemos de futuros, tentando nos antecipar aos instantes fugidios que virão a seguir – ou ao menos acreditamos que virão. E quando chega o fim – a morte –, nossa fantasia de que o futuro de fato existe é interditada. Vem a sensação de vazio, de solto no espaço. Todos nossos projetos, nossos planos, nossos sonhos, nossos desejos para aquela pessoa, aquela situação, de repente passam a ser mera ilusão – e eram tão reais até um segundo atrás: estavam ali, ao nosso alcance, bastava o calendário chegar, o relógio marcar mais meia hora!

Lidar com os cacos – de futuro, de presente, de si próprio, porque parte nossa estava em grande medida ancorada nessa quimera. Puxar o passado com a esperança de que isso aplaque nossa angústia, nosso vazio, que explique que tinha que morrer ali, que justifique aquela dor. Em vão: a dor está presente e de nada adianta a razão negá-la. É difícil estar sozinho essas horas – por mais que seja necessário: a solidão assola, amedronta, e se mostra em sua crueza.

Mas haverá uma hora que a vida se impõe, e recomeçaremos a preencher nosso presente de futuros e projetos, com base em novas fantasias – ou se apoiando mais firmemente em velhas -, desejando que dessa vez o fim não venha, tentando abafar a angústia de saber que a morte é nossa única certeza – sorrateira e iminente –, fingindo ignorar solenemente que, a não ser que nossa morte venha antes, essa dor voltará – porque viver é ir morrendo aos poucos.

02 de julho de 2019

PS: por coincidência, o professor Roberto Romano faz uma postagem hoje em seu facebook intitulada “Sobre a dor na separação”. Indica o livro A separação dos amantes, do Igor Caruso. A ver se não revejo minha posição…

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