Bloco sanitário para caixa acoplada

Pouco depois de me mudar para São Paulo, dividi apartamento com um arquiteto recém chegado da Europa, contratado para trabalhar num dos escritórios de grife da arquitetura nacional.

Um dos pontos interessantes da convivência com ele foi saber (ou melhor confirmar) alguns comportamentos das nossas elites econômicas, em especial as diferenças entre um novo rico – que vai para Nova Iorque, perdão, New York, escolher as banquetas para sua casa, a três mil dólares cada – e um rico tradicional – que acha extorsivo o valor do projeto do puxadinho para sua mansão nos Jardins, ainda que seja um valor irrisório para quem está na lista da Forbes como dos mais ricos do mundo, com alguns bilhões de dólares.

Outro ponto interessante foi ver que estar um (bom) tanto desconectado das coisas práticas da vida não é privilégio de filósofos, sociólogos, economistas e escritores (ainda que estes possam fazer bom uso desse alheamento). Pouco depois que ele mudou, perguntei se ele teria alguma sugestão de ocupar melhor o espaço do apartamento com os móveis que eu tinha. Na noite do mesmo dia me veio com a sugestão de quebrar a parede da sala, fazendo uma cozinha gurmê no meio, com um grande… interrompi suas ideias não tanto pelo clichê, antes porque o que eu queria era mudar móveis de lugar e não fazer uma reforma estrutural num apartamento alugado. Certa feita, veio intrigado contar da conversa no elevador que tivera com os vizinhos de cima, que questionaram se estava tudo certo em nosso banheiro. Disse que respondeu afirmativamente e vinha então me perguntar se tinha acontecido algo. Sim, tinha: do spot de luz gotejava há quatro dias um líquido viscoso preto e todo o teto estava pipocado de água infiltrada, por conta de um cano que estourara no apartamento de cima; mas ele não havia notado nada – e era o único banheiro da casa. Fosse ele o filósofo, eu até, quem sabe, poderia dar um desconto, mas ele era arquiteto!

O melhor foi uma vez que saído do banheiro veio ter comigo, que estava na sala, lendo. Diante do bloco sanitário em gel que eu havia posto no vaso, me contou que na Europa havia blocos sanitários para caixa acoplada, que se jogava na respectiva caixa e era desnecessário limpar o vaso (os três moradores da casa nos revezávamos na faxina, uma semana um limpava o banheiro, outro o resto da casa e o terceiro folgava), e me sugeriu que adotássemos tal expediente. Nem pontuei o fato de não acreditar que um bloco sanitário fosse capaz de substituir uma faxina feita com uma escova, apenas levantei que tínhamos um problema capital: nosso vaso sanitário não possuía caixa acoplada. Ele ainda ficou um tempo pensativo, levemente perplexo, levemente decepcionado com minha objeção, ao que, enfim, concluiu: “que coisa, então não vai dar para usar”. Eu sei que parece piada, mas aconteceu.

Lembrei desse antigo colega de habitação porque na residência em que vivo atualmente o vaso sanitário possui caixa acoplada – e eu compro os tais blocos sanitários específicos, ainda que faça questão de passar a escova uma vez por semana, no mínimo.

Em geral, compro o bloco sanitário para caixa acoplada mais barato, “sabor” lavanda, que tem uma cor que não sei se é azul, roxo, índigo – sim, eu sou daltônico, e isso me traz algumas dificuldades com certos tons de cores (o que não me impediu de tentar ser iluminador cênico, o que permitia que eu me apresentasse como um dos poucos filósofo das luzes devidamente registrado no MEC e no MTE). Esses dias resolvi trocar de cheiro. Me chamou a atenção o silvestre: não pelo cheiro – pois eu estava de máscara e só pude ver sua cor, verde -, mas pela possibilidade de dar um ar mais bucólico ao meu banheiro, que às vezes, quando chego do trabalho, tem um acentuado cheiro de xixi dos meus gatos. Imaginei algo meio fazenda, que rememoraria passeio da infância: o cheiro da relva misturado ao das excretas bovinas – meu gato Guile, com quase dez quilos, já parece mesmo um boi. O cheiro do tal silvestre até era gostoso, mas as memórias antigas não vieram, e achei que deixava a água do vaso com uma cor estranha. Decidi não encafifar com isso, afinal, provavelmente devia ser obra do meu daltonismo.

Foi quando Sabrina veio passar o fim de semana em casa. Ao sair do banheiro, perguntou se havia algum problema com o vaso, pois dava a descarga e o xixi continuava ali – ao menos assim parecia -, algum problema com a água? com a caixa acoplada? Sabrina não é daltônica, de modo que vi que minha impressão era real. Expliquei que não, não havia nenhum problema e a urina que aparentemente se acumulava na retrete era bloco sanitário de “sabor” silvestre – ela acreditou. Espero não ter mentido.

 

03 de agosto de 2020.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora