O Alfaiate e o Samba

O ano de 2020 está muito estranho. Essa pandemia chamada Covid-19, transformou completamente nossas vidas. Por esse motivo o mundo praticamente parou. As Escolas, os parques, os teatros, os cinemas, os campos de futebol e muitas outras atividades estão proibidas.
Se temos amigos e gostamos deles, não devemos encontrá-los. Assim, como nossas mães, avós, irmãos, sobrinhos e netos que tanto amamos, temos que mantê-los distante. É muito triste…
Por esse motivo, não tivemos a tradicional festa da Praça Vermelha. Então, para descontrair um pouco, vou contar uma das muitas histórias que presenciei no saudoso bar CDM, que ficava localizado em frente a mais famosa Praça Vermelha do Mundo, talvez um pouco menos que a de Moscou.

O alfaiate e o samba
Almir Forte

Cachoeiro sempre foi terra de ilustres personagens, alguns mais outros menos famosos, outros mais ou menos simpáticos, o fato é que se formos lembrar, teremos sempre uma bela história que vale a pena contar. Essa, de seu Toninho alfaiate é uma que vale o registro por questão de respeito e registro para a posteridade.
Toninho era mineiro, mas, como vereador tive a hora de conceder a ele o título de Cidadão Cachoeirense, tinha uns oitenta e poucos anos e me lembrava muito meu tio Nelson, pela forma como se vestia. Sempre de terno preto ou azul-marinho, gravata com o nó duplo, um lenço bem colocado no bolso externo do paletó, o sapato sempre brilhando e um belo chapéu Ramenzone.
Trabalhava ali nas imediações do bairro Guandu, todos os dias por volta das 19 ou 20 hs, vindo pela avenida Beira Rio, subia a Travessa Ramon Ramos, passava em frente o bar da Loira, atravessava a linha de ferro, que com a retirada dos trilhos, se transformou na linha vermelha, mas, ele continuou sempre com a mesma rotina.
Chegava no bar CDM, onde havia sempre uma ou duas mesas na calçada, que estavam quase sempre o mesmo time formado por Cafunga, Henrique, Braulindo, Jurinha, Rogério Fabrino, Luiz Noventa, Zé Meio Quilo e outros. Toninho cumprimentava a todos, contava uma história, as vezes cantava um sambinha batendo na caixa de fósforo, em seguida, tirava do bolso do paletó uma caixinha de rapé e oferecia aos presentes. Uns aceitavam, colocavam nas costas da mão, cheirava e começava a espirrar como louco, servia apenas para isso.
E Toninho não demorava muito, pelo fato de não beber, passava apenas para rever os amigos e manter a rotina. Uma noite, Arnoldo Silva, o menininho, tinha chegado do Rio de Janeiro e estava lá, Toninho se despediu e continuou sua caminhada para casa, quando já estava quase chegando na banca de Revistas do Daltinho a uns 10 metros do bar, Menininho resolveu fazer uma piada.
– “Aí, Toninho se diz alfaiate, mas nunca pegou numa agulha ou uma tesoura”.
Toninho ouviu, parou, deu meia volta, caminhou até nossa mesa em silêncio, enfiou a mão no bolso do paletó e tirou um dedal daqueles que só os alfaiates usavam para pregar botão sem furar o dedo, uma tesourinha pequena e fazendo uma batucada com a tesoura no dedal cantou uma parte do famoso Samba da Traição, da Velha Guarda da Portela que dizia:
“Quem vê cara
Não vê coração
Um sorriso também pode ser uma traição
Cristo
Também foi traído
Por judas
Fingindo seu amigo
Com tanta ternura
Um beijo na testa lhe deu
E por trinta dinheiro lhe vendeu”…
Quando ele parou a música bruscamente, a gargalhada foi geral, enquanto menininho permanecia em silêncio, como se estivesse petrificado.
E assim, sem dizer uma única palavra, virou as costas e continuou seu caminho em direção a mais uma longa noite de sono bem tranquilo, e, porque não dizer de alma lavada.

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