O CORAL DE RIBEIRÃO DE AREIA, A POLÍTICA E A CIVILIZAÇÃO

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De longe, as únicas luzes visíveis são da fileira de postes na ladeira morro acima, sugerindo uma rampa impossível de subir. Os pneus da van patinam na poeira fina, levantando nuvens espessas atrás de nós. No alto a capelinha, azul entre luzes. Já surpresos e maravilhados entramos, os bancos rústicos ao centro nos esperando, as pessoas do lugar em volta, junto às paredes, o Coral em frente ao altarzinho, sandálias de tiras de couro, os rapazes de branco, as moças de vestido simples com rendinhas, cores suaves combinando entre si e com o branco e rosa das fitas de papel decorando o teto.

“Ocê me chamou tropeiro,

eu não sou tropeiro não,

Sou arrieiro da tropa, Bernadim,

o tropeiro é meu patrão!”

A cantiga soa como uma declaração de princípios, o lugar que a comunidade ocupa não é o do patrão, cada um tem seu ofício e seu papel… A suavidade das cantigas emociona a todos.

A apresentação do Coral é o ápice de uma semana de viagem convivendo com o processo civilizatório de recuperação da dignidade das pessoas através do resgate de suas raízes culturais, as danças e cânticos dos moradores de comunidades afastadas, dos negros dos quilombos, da tradição das festas religiosas.  São muitas as belezas dessa civilização, a beleza do barro se transformando em arte pela mão das ceramistas, a construção da dignidade representada no moderno galpão com seus teares produzindo peças que lembram nossas avós e ao mesmo tempo apontam o novo, a finesse sutil dos bordados, os tambores, as violas, as comidas e as festas em que participam todas as gerações.

Não se espera, no semiárido em Ribeirão de Areia, distrito de Jenipapo de Minas, no Médio Jequitinhonha, no escuro do entorno, apenas a capelinha iluminada, entrever um horizonte maior, civilizatório. Trata-se de algo maior que o horizonte político, este embate contra a barbárie de um desgoverno de extrema direita a que nos acostumamos tão rapidamente. Da política não se falou, mas está no ar, na onipresença da indústria da seca, no estado deplorável dos acessos às comunidades, na visível ausência de políticas gerais de preservação do bem essencial que é a água…

Trata-se de um horizonte maior: respeito ao ambiente, nas formas de conviver com a rudeza do semiárido e seus rios secos, respeito às pessoas e às suas raízes culturais, demonstrando a aberta hospitalidade nos sorrisos, a solidariedade, o trabalho associativo, as brincadeiras… Trata-se de um microcosmo, de uma das formas de sustentabilidade do planeta ameaçada pelos movimentos de acumulação do capital e de geração de desigualdades e destruição do ambiente.

Uma nova e ancestral forma de fazer, convivendo com o beija-flor no seu ninho de casquinhas brilhantes no vão da telha do beiral do galpão ao lado, que une o barro das ceramistas, as colchas e tapetes dos teares, a delicadeza dos bordados, o canto e o tambor dos negros, a sabedoria das histórias e mitos dos antepassados, as artes dos ourives e dos artesãos e o canto do Coral.

Viagem de volta à civilização, no Vale do Jequitinhonha: ligar o barro da cerâmica com o batido de um tambor africano, com histórias contadas, com teares e tapetes e rocas fiando algodão, com bordados contando fábulas e fatos da vida no agreste, por alguém que recolheu os cantos e colocou na voz dos jovens do Coral.

É reconfortante saber que pessoas, principalmente mulheres, submetidas a séculos de esquemas de reprodução da miséria, na aridez do cerrado e da caatinga, conseguem resistir e mostrar sua refinada cultura, fincada nas raízes, e receber e abraçar a gente com um imenso sorriso. Uma beleza sem tamanho… O Brasil está vivo!

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