Para entender a Wikileaks

Nassif:

A reação mais fácil, diante de uma novidade que desorganiza nossa forma de ver o mundo, é menosprezá-la e reconquitar nosso conforto. Fiquei muito surpreendido com as revieçaões do Wikileaks esta semana. Pesquisei e produzi um post a respeito, em “Outras Palavras”. Está aqui.Em resumo:

> O Wikileaks não é uma invenção da CIA para fazer sensacionalismo, criar “cortina de fumaça” e, com isso esconder as verdadeiras misérias dos Estados Unidos, como pretende a Red Voltaire. Mas *também não é* uma arma ideológica para combater o “Grande Satã” — o que talvez entristeça a mesma rede. O Wikileaks é um produto dos novos tempos, em que a sociedade civil reivindica o direito de fazer política sem entrar na máquina do Estado e sem estar filiada a um partido político. Entre seus criadores, estão dissidentes chineses de esquerda — alguns dos líderes dos protestos de Tien Am Em, en 1994. Em seu Conselho Editorial está o produtor do filme “Corações e Mentes”, a primeira grande denúncia pública da Guerra do Vietnã.

> Sinal dos tempos: *todos* os furos do Wikileaks que repercutiram internacionalmente são denúncias contra os poderes econômicos e políticos do Ocidente. Além dos segredos do Afeganistão, vale lembrar: a) o ataque, por soldados norte-americanos, a um grupo de pessoas em Bagdá, resultando na morte de cerca de vinte, entre os quais dois jornalistas da Reuters (2010); b) o hackeamento da conta pessoal de correio que Sarah Palin mantinha no Yahoo (2007), por meio do qual articulava ilegalmente negócios públicos, enquanto governadora do Alaska (o Wilileaks não vazou nada de sua vida pessoal); c) a publicação do manual de procedimentos das tropas dos EUA em Guantánamo, apontando série de violações do Direito Internacional (2007); d) a denúncia de um despejo de resíduos tóxicos na Costa do Marfim, pela transnacional suíço-britânica Transfigura, que atingiu 118 mil pessoas e fora ignorado (ocultado?) pela mídia.

> O Wikileaks não pode ser entendindo por meio da antiga divisão do mundo intelectual entre direita e esquerda. Ele perturba poderes em várias faixas do espectro político. O governo chinês tenta censurá-lo (nem sempre consegue). A Austrália e a Alemanha, também… A Casa Branca reagiu asperamente às revelações desta semana. Exceto a Red Voltaire e suas teorias conspiratórias, alguém poderia julgar que elas favorecem os Estados Unidos?

Vivemos um momento raro, de grandes mudanças e quebra dos antigos paradigmas. Quem se surpreende com o Wikileaks deveria ler o editorial e matéria de capa da edição mais recente de “Economist”. La, informa-se e argumenta-se que: 1) Os trabalhadores chineses do setor de exportação estão em meio a uma onda de greves inédita [um paralelo óbvio são os movimentos do ABC no final dos anos 1970]; 2) O Partido Comunista, que em geral reprimia movimentos deste gênero, relaxou, porque vê no aumento do consumo um caminho para uma estabilização da economia a longo prazo (compreeendeu que é impossível estimular a produção, eternamente, apenas com novos investimentos0; 3) A própria revista, talvez a expressão jornalística mais ilustre e importante do capitalismo ociedental, acha que as greves são justas e importantes, para a China e para o mundo.

Mas há quem prefira as velhas certezas e o sonhe com a volta do mundo bipolar, que não exigia imaginação alguma… 

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