Contra a Felicidade: em defesa da melancolia

Neste momento a sociedade reúne todo um arsenal médico-terapêutico-psicológico-farmacêutico para extirpar o mal que atormenta milhares de almas: a melancolia. O professor de literatura inglesa da Wake Forest University Erik Wilson vê na obsessão pela busca da felicidade na atual sociedade de consumo como uma desconsideração medrosa do valor da tristeza: a agitação da alma que se transforma no impulso vital de toda cultura próspera. Se o Prozac existisse desde séculos atrás, certamente não veríamos hoje muitas obras primas nos campos da literatura, pintura e ciências. Esse é o tema do recente livro de Wilson “Against Happiness: in praise of melancholy”


Na última postagem (veja links abaixo) discutíamos a possibilidade da existência de um efeito político na banalização de antidepressivos: a criação de um novo conservadorismo decorrente de um efeito colateral do consumo banalizado desses medicamentos, o chamado “efeito zumbi”. Tal efeito poderia ser descrito como um mix de euforia, apatia e perda de senso crítico. Em síntese, embotamento e uma visão “suavizada” ou abrandada dos fatos da vida (sejam políticos ou pessoais).


Oportunamente li o livro “Against Happiness: in praise of melancholy” (“Contra a Felicidade: em defesa da melancolia”) do professor de literatura inglesa da Universidade Wake Forest da Carolina no Norte – EUA, Erik Wilson. O autor é bem conhecido por esse blog a partir do seu livro “Secret Cinema: gnostic vision in film” onde ele descreve as conexões entre as narrativas míticas do gnosticismo clássico e a produção cinematográfica hollywoodiana atual.


Profundo conhecedor do gnosticismo na literatura romântica dos séculos XVIII e XIX, Wilson nos oferece uma abordagem sobre a melancolia como uma força vital de qualquer cultura próspera, literatura, pintura, música, inovação, ou seja, a força que subjaz a toda ideia original. O problema é que a nossa cultura, baseada no vício da busca a todo custo da felicidade, alimenta uma desconsideração medrosa do valor da tristeza. Neste exato momento, toda a cultura midiática e indústria farmacêutica empreendem uma verdadeira repressão da melancolia, da tristeza e demais agitações da alma para expulsá-las do sistema como fossem meramente lamentos de um paciente neurótico.


Francisco de Goya, Emily Dickinson, Marcel Proust e Abraham Lincoln, todos eles eram melancólicos confirmados. Para Wilson, se em suas épocas existisse Prozac jamais a história humana contaria com suas obras-primas.

 

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