Na edição dos 301 mil mortos por Covid, o cheiro é de acomodação e acordo no JN, por Eliara Santana

A expectativa era de uma edição mais dramática, mais dura, pelo tom que o JN vinha adotando e até pela edição de 5 de março, quando colocou em Jair o carimbo pela Pandemia. Mas não foi isso o que ocorreu.

BOLETIM DO JN 24-03

Apenas na escalada das manchetes houve um breve dimensionamento da situação: “Um ano e uma semana desde  a primeira morte por Covid no Brasil e passam de 300 mil as vidas perdidas para o coronavírus. 100 mil só nas últimas semanas”. 

No mais, foi uma edição muito morna, com toda cara de arranjos e acomodações – o que não é novidade, já ocorreu em muitos momentos dessa relação atribulada entre Globo, JN e governo Jair. Mas, talvez diferente de outros momentos, não houve muita benevolência com Jair, mas uma sinalização de abaixar as armas para tentar controlar o monstro que está na porta do castelo. Enfim, um acordo costurado possivelmente pelo Congresso – dado o protagonismo de Lira e Pacheco – e pelo empresariado. Com uma sinalização, claro, dada pelo anúncio do Ministério da Saúde que circulou no intervalo do JN – anuncio grande, robusto, o que não se via há muito tempo. 

A primeira matéria da edição dos 301 mil mortos foi a grande reunião dos três Poderes –Executivo, Judiciário e Legislativo – para “ação conjunta contra a pandemia. Comitê, com representantes dos estados e do Legislativo, vai discutir medidas contra a crise na saúde”.

Portanto, nada de destaque para a Covid no começo do jornal. Mesmo no dia em que chegamos à marca de 301 mil mortos.

Na abertura, Bonner ressaltou que “os chefes dos três poderes se reuniram hoje para tratar do enfrentamento da pandemia. Assim como no pronunciamento de ontem, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a vacinação em massa e anunciou a criação de um comitê com representantes dos estados e do Congresso para discutir medidas contra a crise da saúde”. 

Seguiu-se então reportagem oito minutos com vários detalhes da reunião e muitas falas, de todos os representantes dos três poderes da República, começando pela exposição de um Jair fantasiado de presidente, tutelado pelos presidentes da Câmara e do Senado. Tudo muito civilizado e azeitado. Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, um querido da mídia, assumiu a coordenação com os estados no trato da pandemia, ele teve um grande tempo de fala. Arthur Lira, presidente da Câmara, falou da “união de todos os lados” e “despolitização da pandemia”. Até Ronaldo Caiado estava lá, falando talvez em nome dos governadores. 

Todo o Ministério estava presente.

O novo acordo de acomodação, versão 2021, com Jair sob tutela

Em seguida, em outra reportagem, um tempo bem grande, 5 minutos, para uma entrevista do novo ministro da Saúde que afirmou que o compromisso número 1 é com a vacinação, que os brasileiros querem a vacina. E prometeu aplicar um milhão de vacinas por dia – mas, que engraçado, não falou exatamente como pretende fazer isso. Anunciou também que vai criar uma secretaria de combate à pandemia que vai funcionar 24 horas por dia. Afirmou ainda que Jair (que voltou a ser chamado de presidente Jair Bolsonaro pelos apresentadores) deu a ele autonomia para formar a equipe do Ministério – e nesse momento houve uma sutil contraposição, quando Renata Vasconcelos disse que o ministro, questionado sobre o uso de medicamentos ineficazes, não bateu de frente com Bolsonaro, mas ressaltou que “as medidas da pasta precisam ser baseadas na ciência e na medicina”. Pura balela, porque ele tergiversou e de fato acabou dizendo que os médicos têm autonomia para prescrever a receita. Um novo Rolando Lero. 

Depois, espaço de dois minutos para o tutor Arthur Lira fazer um balanço do encontro com o tutelado Jair e dizer, do plenário da Câmara, que “tudo tem limite”, que “nada no momento, dentre todas as mazelas brasileiras, é mais importante do que a pandemia”  e dar um “sinal amarelo para o que chama de erros primários no combate à pandemia”. 

Nenhuma assunto polêmico foi trazido à cena: nada do tiroteio de Pazuello, que saiu do Ministério falando da pressão que sofreu e da disputa pelo Ministério, onde circula muito dinheiro. Tampouco se abordou a suposta exigência do governo norte-americano de mudanças no meio ambiente para fornecer vacinas ou a informação de que empresários fofinhos e patriotas estão furando fila pra se vacinar. 

Todo mundo falou em união, vacina, frear as mortes. Belas palavras-chaves. E de novo, a aposta de que Jair será tutelado e humanizado até que o Brasil controle minimamente a pandemia.

Vamos a alguns detalhes:

NADA DE LINHA DO TEMPO

A estratégia de resgatar a memória do espectador é muito bem trabalhada pelo JN com essa construção da linha do tempo. Isso já foi feito em outros momentos, também com sucesso. a reconstrução é clara, mostrando momento a momento do avanço da pandemia, as declarações de Jair, a falta de ação em relação às vacinas. Quando o país atinge o desesperador número de 301 mil mortos pela Covid, era de de se esperar que essa linha do tempo mostrasse a absoluta falta de ação do governo como a a justificativa para termos chegado até aqui. Mas isso não ocorreu.

NENHUMA FONTE COMBATIVA

Ninguém combativo em relação à pandemia –  pesquisador, cientista, especialista, governador – apareceu para falar sobre essa tragédia de 301 mil mortos e subindo. Bem diferente de outros momentos. Nada de Natália Pasternak ou Margareth Dalcolmo ou Nicolelis. Ou até Rui Costa, Flávio dino. O governador do momento foi Ronaldo Caiado, que estava na reunião do acordão versão 2021.  

NENHUMA IMAGEM FORTE – FUNDOS NEUTROS

Nada de pacientes sem leito, de parentes chorando, de aglomeração pra tomar vacina, de idosos voltando pra casa sem vacina, de caos. Nada de imagem mais dura para dimensionar que voltamos à estaca zero piorada um ano depois do começo da pandemia no Brasil. 

Aquele fundo tradicional com os rostos de pessoas mortas apareceu um pouco desfocado na nota sobre a mudança do Ministério da Saúde, que abriu a matéria sobre o número de mortos. E ficou depois periférico, ao ao lado do mapa. Pouco nítido, sem destaque. Não apareceu em outros momentos.

COVID EM SEGUNDO PLANO

O tema não esteve no primeiro bloco como vinha acontecendo e foi relegado a duas reportagens de 8 minutos ao todo no último bloco do jornal. A primeira foi a clássica média de mortos, que teve 5 minutos, mostrou o mapa vermelho, o avanço da doença, lamentou os 301 mil, mas não fez nem comparações tocantes. 

A outra matéria mostrou que “Pacientes que usam remédios sem eficácia contra Covid estão desenvolvendo outras doenças. Médicos investigam casos de doentes que desenvolveram hepatite medicamentosa e agora precisam de transplante”. Foi interessante ao mostrar os efeitos do uso de remédio pra verme, de cloroquina, na “prevenção” à Covid, e um médico da linha de frente contra a doença explicou os efeitos colaterais. No entanto, a matéria podia ter explorado mais o fato de que as farmácias estão não só vendendo como anunciando livremente esses remédios e que muitos médicos prescrevem isso. Além, é claro, do fato de que o Ministério da Saúde vinha distribuindo o kit Covid.

Tudo ficou, então, na perspectiva equivocada do sujeito-agente: é o paciente doente que “toma” remédio sem eficácia por conta própria, a culpa é dele.

E numa sinalização explicita de entendimento, a decisão esdrúxula do Ministério da Saúde de mudar a forma de calcular o número de mortos foi noticiada, em 42 breves segundos, da seguinte forma: “Ministério da Saúde suspendeu as mudanças no preenchimento das fichas de casos e mortes de Covid. O sistema tinha passado a exigir o fornecimento de novos dados. Mas atendeu o pedido das secretarias de Saúde de estados e municípios para suspender as mudanças”. E que isso teve “impacto no ritmo de registro do numero de mortos em alguns estados. São Paulo, por exemplo, o número de óbitos passou de 1020, ontem, para 281 hoje”.

Ninguém foi ouvido para problematizar a mudança, para questionar, para dizer o que de fato significa mudar modo de compilar dados a essa altura do campeonato. 

Além disso, na chamada para o balanço das mortes, houve destaque para o “ritmo da vacinação”.

Esse balanço do número de mortos encerrou a edição, com Renata lamentando quem já “chorou mortes nesse período sombrio”. Como se a Covid fosse uma grande tragédia que se abateu sobre o país, sem culpados, sem responsáveis. 

Até segunda ordem, acordo mantido. Ou até a próxima live de Jair. Aguardemos os próximos capítulos.  

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