A arte de Leci Brandão resiste a modismos e à indiferença do mercado, por Railídia Carvalho

Ilustração: Helena Enne

 

do Portal Vermelho

A arte de Leci Brandão resiste a modismos e à indiferença do mercado

Leci Brandão ergueu o punho direito ao receber o troféu de Melhor Cantora de Samba do 29º Prêmio da Música Brasileira no dia 15 de agosto. O gesto dos lutadores das causas populares cai perfeitamente na trajetória de sambista, compositora e deputada estadual de Leci. São 43 anos de obra artística que combina contestação social, valorização dos ritmos da cultura popular e religiosidade afro-brasileira. 

Por Railídia Carvalho

O preço a pagar por denunciar a injustiça social é a indiferença do mercado fonográfico. Apesar das transformações tecnológicas, a indústria fonográfica nacional, povoada de multinacionais, tem medo da força do povo. 
Caprichosamente, à margem da indústria, foi o Cd independente entitulado Simples Assim que deu a Leci o prêmio conquistado na última semana. A iniciativa foi do diretor musical de Leci Marcos Boldrini inconformado com o fato de a cantora não gravar há algum tempo e estar afastada dos programas da grande mídia. 

Em entrevista ao portal Ipa online (de Sorocaba e região) no dia 20 de agosto, Leci afirmou que o troféu do Prêmio se torna mais especial ainda porque tem como referência um trabalho feito de forma independente. 

“O Marcos Boldrini, o Rodrigo Pimental, o PH do cavaco e o Juliano Souza, produtor de shows, tiveram a ideia de gravar com o Sampagode porque fazia algum tempo que eu não entrava em estúdio”, contou Leci. Uma carreira sólida e de aceitação popular com 24 cds e dois DVDs gravados não parece comover a indústria fonográfica. 

Leci não se curva

Leci enfrenta o mercado não é de hoje. Em 1985 bancou diante da gravadora a música Zé do Caroço, que fala de uma liderança popular que “vai causar alvoroço e quer ver o bem da favela”. A posição custou a saída dela da gravadora Polygram e impôs um certo ostracismo a artista. O mesmo aconteceu com a música Deixa Deixa (“Deixa ele beber Deixa ele fumar Deixa ele voar É melhor do que ele sacar de uma arma pra nos matar”).

Simples Assim fala da comunidade, do cotidiano, da tradição religiosa afro-brasileira. Ganhou esse nome pela simplicidade com que aconteceu, fruto de uma espécie de ação entre amigos e admiradores de Leci. “Em dois dias montamos o repertório e gravamos em uma semana com artistas que sempre respeitaram o trabalho da gente”, contou a sambista.

Leci honra origens

Se o mercado, seja fonográfico ou de outra natureza, fecha as portas para o povo, Leci honra suas origens, inclusive na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) que viu a frequência do povo negro aumentar nos corredores. Vanguarda, Leci é a segunda mulher negra na história de 180 anos da Alesp. Foi a primeira mulher a entrar na ala de compositores da Mangueira. 

“Quando eu cheguei na Mangueira levada pelo seu Zé Branco os compositores me achavam muito magrinha e queriam saber o que eu queria. Eu disse que vim aprender, já faço samba mas quero me aperfeiçoar. A minha entrada na Mangueira fez com que eu aprendesse a tocar pandeiro, ver como fazia samba de quadra”, contou. 

Cumprindo o segundo mandato como deputada, Leci dá continuidade na Assembleia aos temas que consolidaram suas trajetória artística como a cultura, educação, igualdade racial e direitos humanos. É integrante da Comissão de Educação e Cultura da Casa.  

Leci e o protagonismo do povo

O povo que encontrou as portas do gabinete de Leci abertas na assembleia é o mesmo que desapareceu dos desfiles das escolas de samba. Comentarista por décadas dos desfiles no Rio de Janeiro e em São Paulo, Leci valorizava o protagonismo do povo das comunidades. 

“Tem um outro povo indo para a avenida. Tenho saudade do carnaval que eu conheci e que comentava lá no início quando o protagonista era o sambista, a baiana, o diretor de harmonia, o mestre-sala, a porta-bandeira”, lamentou. 

“O samba não se reporta à moda”

A profunda ligação afetiva de Leci Brandão com o povo brasileiro é o que distancia a artista dos tapinhas nas costas da elite brasileira e seus mecanismos de dominação e alienação como a mídia. Levanta a bandeira do samba e dos seus criadores que, assim como ela, vem das trincheiras do povo negro escravizado, dos índios aculturados e dos brancos empobrecidos. 

“O Martinho da Vila diz que o samba é a música da alegria. Se você observar onde tem samba, sempre tem gente junta, feliz, cantando e sambando. O samba não se reporta à moda. É a música brasileira que está aí caminhando sempre”, definiu Leci. Com sua licença, saudoso Luiz Grande: “Vem onda, sai onda e Leci está sempre aí. Firme e forte com força para resistir”. 
 

Do Portal Vermelho 

 

3 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Jus Ad Rem

- 2018-08-27 03:29:35

Zé do Caroço

[video:https://www.youtube.com/watch?v=Su8_9QFXnBQ]

Jus Ad Rem

- 2018-08-26 18:17:53

#

Cadê o vídeo que eu postei?

+almeida

- 2018-08-26 01:35:50

Leci, uma lição.

Leci Brandão é força, resistência, emoção. É ativista, nativista, um belo exemplo e uma importante lição. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador