A fera Cida Moreira e o álbum Soledade, por Aquiles Reis

A fera Cida Moreira

Aquiles Rique Reis

Soledade (Joia Moderna), o novo álbum de Cida Moreira, gira no prato do tocador… “Viola Quebrada (Maroca)”, de Mário de Andrade, vem apenas com a viola de Paulo Freire ponteando para Cida cantar. Sua voz parece rouca… mas não é, é harmônica, e indecifrável, uma intérprete de altíssimo poderio vocal e interpretativo.

Nunca em vão, sempre amplidão, escancarando a visão da mulher, veemente cantora, aguerrida contadora de causos idos, vividos e morridos, e de causos do avesso do passado, presente que lampeja e verseja apenas no breve instante do arder da chama de uma vela.

Com direção musical de Omar Campos e Cida Moreira, concepção e repertório a cargo dela e de Eduardo Magossi, Soledade é a música levada a extremos raramente visitados.

Vem o sol, raia o dia, e Cida diz “Bom Dia” (Nana Caymmi e Gilberto Gil). Sua voz é um dardo que cega, ilude, confunde. Difusa, ela desconcerta e demole certezas digestivas. O causo musical, com ares de canto medieval, tem o acordeom de Mestrinho e o violão de Omar Campos, e dá de relatar o momento em que um amor acorda o outro, e, enquanto diz que é hora de trabalhar, se despede.

A preparação instrumental é digna do que virá a seguir. Cida conta em canto a saga dos versos de “Gosto de Sol” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), e que logo deságua em “Trastevere” (idem). Com voz de cantadora dramática, cujo timbre nasceu predestinado a narrar cada canção, Cida entontece o ouvinte mais calejado em bonitezas sonoras.

Cida veste-se de seresteira para o cantar o causo de “Moreninha” (domínio público). Com voz amorosa, que invade as sílabas, ela novamente divide o protagonismo com o acordeom, cujo belo intermezzo tem como parceiros Edmilson Capelupi no violão de sete cordas e Omar Campos na viola.

A balada “Forasteiro” (Helio Flanders e Thiago Pethit) tem a guitarra de Faiska Borges a conduzi-la. Certeira, a voz de Cida diz ao final: Se tens em mim o teu revólver/ Hei de te próprio disparar/ Por onde é que andarás? Poesia que salta da faixa cinco para a seis e se encontra com os versos de Alice Ruiz para “Poema”, que, cantado e tocado ao piano por Cida, iniciam em inglês e terminam em português: Não importa o sentido/ Se tudo vibra.

E tem mais. Isto até aqui é apenas menos da metade de Soledade. Ainda tem Taiguara, Chico Buarque, Zé Rodrix, Noel Rosa, Jards Macalé. Criadora e irrequieta, Cida é cantora, mas é também atriz. Seu domínio vocal a faz parecer ser mais de uma – e elas se tocam e se engrandecem. Todas Cida Moreira.

Cida é fera que fugiu da jaula. Personagem indômita que assusta adultos, tementes de sua magia descomunal; mas que acolhe os que, feito crianças, amam afrontar o desconhecido e desbravam a criatividade que brota de cada nota cantada por ela.

A emoção arrebata sua arte e o seu ofício de cantar e de ser. Ora bandida, nos rouba lágrimas; ora frágil, nos impele a tomá-la no colo; ora tinhosa feito uma não-sei-o-que-lá, a ela berramos loas e vivas.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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