A unanimidade perdida

Coluna de 09/08/2006

Nos últimos tempos, rompeu-se a unanimidade do mercado financeiro em relação às decisões do COPOM (Comitê de Política Monetária). Antes, seguiam ao pé-da-letra a máxima de Maílson: em qualquer circunstância a Selic sempre estará cinco pontos abaixo da taxa de equilíbrio da economia.

Agora, vozes sensatas se juntam aos não-ortodoxos para denunciar a falta de discernimento do Banco Central, e a demora em derrubar as taxas.

Não pense em inovações teóricas, em novas teses fundamentando a mudança de postura de parte do mercado. Obviamente, sempre houve economistas independentes, de primeiro time, denunciando os excessos do BC. Agora, há um fato novo: os bancos descobriram que podem ganhar muito dinheiro cumprindo sua função primordial: concedendo crédito.

Ao mesmo tempo, a queda do risco Brasil, no exterior, tem provocado uma pressão adicional sobre a taxa Selic. Se cai a taxa lá fora, e não há uma queda correspondente aqui dentro, aumenta a entrada de dólares, obrigando o BC a correr atrás do prejuízo, adquirindo dólares sem impedir a apreciação do Real.

Percebendo essa inevitabilidade, parte do mercado está se posicionando em fundos “equity” (de investimento em empresas), e, especialmente, se preparando para um “boom” nos investimentos imobiliários.

Com isso, dividiu-se o mercado em três grupos. Os economistas de Tesouraria seguem a máxima de Maílson. Os bônus que recebe depende do desempenho da Tesouraria, estreitamente ligado aos rendimentos da renda fixa. Um segundo grupo, de economistas de banco, obedecem à lógica econômico-financeira da instituição, que procura expandir a concessão de créditos. E um terceiro grupo, de economistas de bancos e atacado, começa a apostar na reciclagem da poupança para ativos reais. Como eles acreditam que, em um ponto qualquer do futuro, a renda fixa deixará de ser tão vantajosa, ocorrerá uma migração para ativos reais (imóveis, ações, aquisição de empresas), o que provocará uma elevação nas suas cotações e preços. Constituindo os fundos, eles se antecipam a esse movimento, apostando na alta dos ativos.

Contas públicas e bicicletas

O competente economista Fábio Giambiagi, em seu último artigo ao “Valor Econômico” produz uma afirmação retumbante: se nos últimos quinze anos o Brasil tivesse tratado com carinhos as despesas correntes, hoje estaria crescendo mais do que a Coréia. É uma frase da importância histórica de outra que ouvia na minha infância: “se minha avó fosse roda, eu seria bicicleta”.

A construção de um país passa por uma gama mito mais ampla de fatores, por educação, tecnologia, inovação, investimento em infra-estrutura, estratégias comerciais, integração continental. Mas sua especialidade são os números macro-econômicos, especialmente as contas públicas. Assim, ele procura supervalorizar o seu peixe. Relações políticas, diplomacia, governabilidade, fatores sociais, fatores de desenvolvimento, inovação? Bobagem.

Para economistas como Giambiagi o que vale é a sopa de pedras das contas públicas e a certeza de que, se minha avó era roda, eu só podia mesmo ser uma bicicleta.

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