Dilermando Reis em solos e parcerias memoráveis

Por Luciano Hortencio

Meu intuito é mostrar Dilermando Reis, o exímio instrumentista e compositor, em seus maravilhosos solos e também em memoráveis parcerias, exemplifcando com a parceria com Francisco Petrônio, que rendeu 7 LPs ” UMA VOZ E UM VIOLÃO EM SERENATA”; com Poly, que resultou em 2 LPs; com Jair Amorim, em “SE ELA PERGUNTAR”; além de parceria em disco com Waldir Azevedo, embora essa parceria seja somente dividindo interpretações em um LP, cada qual interpretando em solo.

Por oportuno, trago aqui a excelente matéria sobre Dilermando Reis, publicada em http://insustentaveleveza.blogspot.com.br/2013/06/cultura-on-line-musica-dilermando-reis.html

Dilermando dos Santos Reis
22/9/1916 Guaratinguetá, SP
2/1/1977 Rio de Janeiro, RJ
 

 
Biografia
 
Violonista. Compositor.
 
Começou a estudar violão com o pai, o violonista Francisco Reis, ainda na infância. Em 1931, aos 15 anos de idade, já era conhecido como o melhor violonista de Guaratinguetá. Neste mesmo ano, assistindo a um concerto do violonista Levino da Conceição, que se apresentava na cidade, tornou-se seu aluno e seu acompanhador, seguindo-o em suas excursões.
 
Em 1933 chegou ao Rio de Janeiro, em companhia de Levino da Conceição e segundo contou em depoimento ao “MIS”, “ao desembarcarmos na Central, tomamos o bonde com destino à Lapa à procura do violonista João Pernambuco”, que era amigo de Levino da Conceição. O violonista residia num quarto de uma república na Praça dos Governadores, posteriormente Praça João Pessoa localizada no cruzamento da Av. Mem de Sá com a Rua Gomes Freire. Passaram o resto do dia e a noite com João Pernambuco, entre conversas e música.
 
Em 1934, Levino Conceição, a pretexto de ir a Campos, deixou pagos 15 dias de hotel para o jovem violonista e nunca mais voltou. Sozinho na cidade, procurou auxílio com João Pernambuco, que o acolheu. Em fins da década de 1930, envolveu-se num caso amoroso com Celeste, companheira de seu ex-professor Levino Conceição. O casal passou a residir na Rua Visconde de Niterói, próximo ao Morro de Mangueira. Viveram juntos por toda a vida. Trabalhou nas casas musicais Bandolim de Ouro e Guitarra de Prata. Foi amigo do ex-presidente Juscelino de Oliveira, e segundo seu depoimento: “Ajudei a construir, com minhas próprias mãos, o Catetinho. Meu violão foi o primeiro ouvido nos céus da nova capital. Fiz também a primeira música em homenagem à cidade que nascia”.
 
 
 
Dados Artísticos
 
Um dos mais importantes violonistas brasileiros, atuou como instrumentista, professor de violão, compositor, arranjador, tendo deixado uma obra vultuosa, versátil, composta de guarânias, boleros, toadas, maxixes, sambas-canção e principalmente de valsas e choros. Iniciou sua vida profissional aos 18 anos de idade. Segundo seu relato ao Jornal do Brasil “Naquela época as lojas de instrumentos musicais mantinham professores de música que ajudavam a aumentar a clientela. Dei aulas numa loja na rua Buenos Aires, depois fui apresentado por um aluno ao dono da loja “Ao Bandolim de Ouro”.
 
Em 1935, passou a lecionar na loja “A Guitarra de Prata”. Por essa época, começou a acompanhar calouros na Rádio Guanabara, trabalho esporádico e sem contrato. No intervalo de uma dessas apresentações, como costumava fazer, solava uma valsa “Gota de lágrima”, de Mozart Bicalho, quando o radialista Renato Murce ouviu e gostou. Levou o violonista para a Rádio Transmissora e deu-lhe um programa de solos de violão, para experimentar o resultado. O programa foi um sucesso. Iniciava-se neste momento uma carreira de violonista destinado à fama. Como já naquela época não era possível sobreviver apenas de solos de violão, continuou como acompanhador em regionais, como faziam todos os grandes violonistas da época como Garoto, Laurindo de Almeida e outros.
 
Em 1940, transferiu-se pra a Rádio Clube do Brasil. Nesse mesmo ano, formou uma orquestra de violões composta de 10 violonistas, à qual acredita-se que tenha sido uma das primeiras do gênero. Atuou com êxito na Rádio Clube e também no Cassino da Urca. Em 1941, gravou seu primeiro disco pela Columbia interpretando ao violão a valsa “Noite de lua” e o choro “Magoado”, provavelmente o mais conhecido e mais executado de seus choros, ambas de sua autoria.
 
Três anos depois, gravou seu segundo disco interpretando a “Dança chinesa” e a dança típica “Adeus pai João”, ambas de sua autoria. Em 1945, gravou mais dois discos com composições suas, o choro “Recordando”; as valsas “Saudade de um dia” e “Minha saudade” e a “Rapsódia infantil”. Gravou em 1946 a valsa “Noite de estrelas” e os choros “Dedilhando” e “Grajaú”, de sua autoria e a mazurca “Adelita”, de Francisco Tárrega. Dois nos depois gravou o choro “Vê se te agrada”; a valsa “Dois destinos” e a polca “Araguaia”, de sua autoria. Gravou as valsas “Súplica” e “Flor de aguapé” e os choros “Tempo de criança” e “Doutor sabe tudo”, de sua autoria, em 1949.
 
A década de 1950, representou a consolidação e grande avanço na carreira do artista. Em 1950, gravou as serenatas “Alma sevilhana” e “Quando baila la muchacha”. No ano seguinte, gravou solo ao violão a valsa “Promessa”; os choros “Xodó da baiana” e “Bingo” e o baião “Sentimental” e, com seu conjunto, os choros “Cuidado com o velho” e “Vaidoso”, todas de sua autoria. Em 1952, gravou de João Pernembuco o choro “Sons de carrilhões” e de Américo Jacomino, o Canhoto, a valsa “Abismo de rosas”. Em 1953, gravou de sua autoria o calango “Calanguinho”, o bolero “Penumbra” e a valsa “Alma nortista” e de João Pernambuco o jongo “Interrogando”. No ano seguinte, gravou a fantasia “Recordando a Malaguenha”; “Uma noite em Haifa” e o choro “Fingimento”, de sua autoria e o fox-trot “Eu amo Paris”, de Cole Porter. Em 1955, gravou o “Poema de Fibich”, de Zedenko Fibich; a canção “Barqueiro do Volga”, de domínio público; a polca “Rosita”, de Francisco Tárrega, a valsa “Dois destinos”, o choro “Vê se te agrada”; o baião “Chuvisco”; a polca “Limpa-banco” e o bolero “Sonhando com você”, de sua autoria.
 
Em 1956, por interferência do recém-empossado presidente JK, assinou contrato com a Rádio Nacional, para estrelar o programa “Sua majestade, o violão”, nos primeiros anos apresentado por Oswaldo Sargentelli e posteriormente por César Ladeira. O programa tinha por prefixo a mazurca “Adelita”, de Francisco Tárrega e se manteve no ar até 1969. No mesmo ano, gravou a “Tristesse – opus nº 3”, de Chopin e a mazurca “Adelita”, de Francisco Tárrega. Em 1958, gravou a valsa “Se ela perguntar”, parceria com Jair Amorim; a guarânia “Índia”, de Flores e Guerrero e as canções “Romance de amor”, de Vicente Gomes e “Pavana”, de Francisco Tárrega. No mesmo ano, lançou o LP “Sua majestade o violão”.
 
Em 1960, gravou “La despedida (Chilena nº1), de Juan Rodrigues e “Ausência”, de sua autoria. Nesse ano, lançou o disco “Melodias da Alvorada”, em homenagem à nova capital, e a seu fundador, Juscelino Kubitchek, em companhia de quem foi o primeiro músico de prestígio nacional a tocar na “solidão de Brasília”, que se iniciava a partir de 1957. O disco teve arranjos e regência de Radamés Gnattali. Também no mesmo ano, lançou o LP “Abismo de rosas” que reuniu sucesso anteriormente gravados por ele como a música título, além de novas gravações como “Ruas de Espanha” e “Uma valsa e dois amores”, de sua autoria e a “Sonata ao luar”, de Beethoven. Em 1961, gravou a “Marcha dos marinheiros”, de Américo Jacomino, o Canhoto; a valsa “Soluços”, de José Augusto de Freitas e o choro “Odeon”, de Ernesto Nazareth. Em 1962, gravou a toada “Oiá de Rosinha”, de sua autoria e o samba-canção “Abandono”, de Nazareno de Brito e P. Barros, além de acompanhar ao violão o ator Paulo Gracindo na gravação dos poemas “Pequena cantiga de Natal”, de Ghiaroni e “Idealista”, “Felicidade” e “Ato de caridade”, de Djalma de Andrade. Nesse ano, gravou com Francisco Petrônio o LP “Uma voz e um violão” no qual interpretaram clássicos como “Chão de estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa; “Malandrinha”, de Freire Júnior; “Ave Maria”, de Erotides de Campos; “Rapaziada do Braz”, de Alberto Marino e “Tardes de Lindóia”, de Zequinha de Abreu. Em 1963, gravou o maxixe “Sons de carrilhão”, de João Pernambuco; a toada-brasileira “Despertar da montanha”, de Eduardo Souto; a valsa “Gotas de lágrimas”, de Mozart Bicalho e o dobrado “Cisne branco”, de A . M. Espírito Santo e B. X. Macedo. No mesmo ano, gravou o segundo disco com o cantor Francisco Petrônio, com destaque para “Sob o céu de Brasília”, de Dilermando Reis e José Fortuna; “Última inspiração”, de PeterPan; “Dois destinos”, de Dilermando Reis e José Fortuna; “Revendo o passado”, de Freire Júnior e “Lágrimas”, de Cândido das Neves.
 
Os LPs mostraram uma nova faceta do violonista: o acompanhamento de cantores com apenas um violão, que neste caso se caracterizava pela apresentação da canção, seguida de um solo, voltando ao acompanhamento para terminar. Nesse estilo de acompanhar, esteve ao lado de José Mojica quando este veio ao Brasil e fez um total de sete LPs com o cantor Francisco Petrônio. Em 1970, Radamés Gnattali dedicou ao violonista o “Concerto nº1”, gravado nesse mesmo ano. Ainda nessa ano, lançou LP com seu nome no qual interpretou, entre outras, “É só cascata”; “Sandrinha”; “Nossa seresta”; “Oriental” e “Luar de maio”, de sua autoria e “Maria Betânia”, de Capiba.
 
Como professor, ensinou a grandes violonistas dentre os quais Darci Vilaverde e Bola Sete. Foi também professor de Maristela Kubitscheck, filha do presidente Juscelino, de quem foi grande amigo e parceiro de serenatas. Essa amizade, aliás, valeu-lhe a nomeação para um cargo público, o que muito lhe aliviou as dificuldades financeiras.
 
Em 1971, lançou o sexto volume da série “Uma voz e um violão em serenata”, gravada com Francisco Petrônio na Continental, com destaque para as músicas “Cantiga por Luciana”, de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto; “Laura”, de Alcyr Pires Vermelho; “Ave Maria no morro”, de Herivelto Martins; “Boneca”, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral e “Três lágrimas”, de Ary Barroso.
 
Em 1972, gravou o LP “Dilermando Reis interpreta Pixinguinha” interpretando entre outras, “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro; “Lamentos”, de Pixinguinha e Vinícius de Moraes e “Segura ele”; “Chorei”; “Proezas de Solon” e “Urubatan”, parcerias de Pixinguinha com Benedito Lacerda. No ano seguinte, gravou “Homenagem a Ernesto Nazareth” disco no qual interpretou 12 obras do músico entre as quais “Odeon”; “Favorito”; “Tenebroso”; “Brejeiro” e “Apanhei-te cavaquinho”. Ainda em 1973, lançou com Francisco Petrônio o sétimo volume da série “Uma voz e um violão em serenata” do qual constava “Pierrot”, de Joubert de Carvalho e Paschoal Carlos Magno; “Maria Betânia”, de Capiba; “Maringa’, de Joubert de Carvalho; “Modinha”, de Sergio Bittencourt e “Último desejo”, de Noel Rosa.
 
Em 1975 lançou o LP “O violão brasileiro de Dilermando Reis” interpretando 12 composições de sua autoria como “Terno olhar”; “Eterna mágoa”; “Cavaquinho encabulado”; “Chegadinho”; “Miudinho” e “Gente boa”. Em 1977, por ocasião de seu falecimento, o Jornal do Brasil publicou reportagem na qual dizia: “Houve Dino e Meira, há João Gilberto – em cada mão, um estilo, uma época. Antes de todos, houve Dilermando Reis, morto aos 60 anos, de problemas cardíacos. Durante quatro décadas seu nome foi sinônimo de violão. Dilermando cumpriu o ciclo possível no Brasil a um músico de seu tempo. Fez o interior, a boemia, e as serestas das grandes cidades. Tocou nas lojas que vendiam parituras e instrumentos musicais. Foi artista de rádio, atração nos cassinos, formou sua própria orquestra. Compôs, gravou, ensinou”. Em 1978, a Continental lançou o LP póstumo “Dilermando Reis no choro” com 13 interpretações clássicas do violonista.
 
De 1941 a 1962, lançou 34 discos de duas faces com 68 músicas em 78 rpm. Dentre essas, 43 de sua autoria. Gravou também um total de 35 LPs. Em alguns de seus LPs foi acompanhado pelos grandes violonistas Horondino Silva, o Dino Sete Cordas e em outros por Jaime Florence, o Meira. Além de sua vasta obra, deixou inúmeros arranjos editados. Na década de 1990, o violonista Genésio Nogueira iniciou uma coleção de LPs e CDs dedicados à obra do violonista e compositor. Em 1995, foi lançado o CD “O melhor de Dilermando Reis” com uma compilação de sua obra. Em 2000, a Phonodisc, na série “Memórias do cancioneiro popular”, lançou o CD “Chorinhos e chorões” com um apanhado de interpretações suas. Em 2001, o pesquisador Genésio Nogueira lançou uma biografia sobre o artista. Em 2004, o selo Revivendo lançou o CD “Noite de estrelas” com gravações suas do período de 1941 a 1950 como as valsas “Noite de lua”, “Dois destinos” e “Súplica” e os choros “Magoado”, “Grajaú” e “Dedilhando”

 

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8 comentários

  1. A Volta ao Mundo com Dilermando Reis (1959) – Álbum.

    01 – Na Baixa do Sapateiro (BRASIL) – 0:00
    02 – Ausencia (PARAGUAI) – 4:05
    03 – La Despedida (CHILE) – 7:12
    04 – Milongueiro del Ayer (ARGENTINA) – 10:33
    05 – Estrelita (MEXICO) – 13:19
    06 – An Affair to Remember – Love is a Many Splendored Thing (USA)  – 15:59
    07 – Danca Nr. 5 (ESPANHA) – 18:56
    08 – Comme Prima (ITALIA) – 22:32
    09 – Amoureuse (FRANCA) – 24:34
    10 – Uma Noite em Haifa (ISRAEL) – 27:49
    11 – Jalousie (FINLANDIA) – 30:53
    12 – Olhos Negros – Duas Guitarras (RUSSIA) – 34:01

     

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=80j1NY5k9SU%5D

  2. Cordas de aço!

    Pelo que sei, Dilermando só usava cordas de aço o que, junto com sua técnica, deu um som único pra sua maneira dura e poetica de tocar!

    Esperei até agora, como ninguém postou eu posto.

    ‘Abismo de Rosas’, talvez sua interpretação mais conhecida, foi o primeiro trabalho que ouvi daquele gênio das cordas. E até hoje é a única versão que aceito – definitiva!

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=KNbdanjB4d8%5D

    Obrigado Luciano e um grande 2014 pra ti e familia!

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