Mauro Senise, um músico gregário e profícuo, por Aquiles Rique Reis

Antenado que é, hoje Mauro Senise registra parte importante do trabalho de Johnny Alf. Ao fazê-lo, enriquece ainda mais a sua profícua discografia.

Um músico gregário e profícuo

por Aquiles Rique Reis

Tenho na mão o CD que, certamente, logo será referência para Johnny Alf, um dos maiores cantores e compositores brasileiros: Mauro Senise toca Johnny Alf (Biscoito Fino).

Pesquisadores e estudiosos da música brasileira dizem que o precursor da bossa nova foi ele, o pianista Johnny Alf. Ao ouvirmos algumas de suas composições aqui tocadas pelo flautista e saxofonista Mauro Senise, identificamos características que, de fato, remetem à bossa nova, cujo início se deu logo após a arte inovadora de Alf ser ouvida.

“Rapaz de Bem” e “Ilusão à Toa” traziam em sua concepção indicações do DNA bossanovista. Por outro lado, no Festival de Música Brasileira, em 1967, a sua “Eu e a Brisa” conquistara honrosa participação – apesar dos elogios, este ainda não foi o momento condizente com o talento de Alf. Sabido como pianista, compositor e cantor “da noite”, foi assim, entre altos e baixos, que fluiu a carreira de Alfredo José da Silva (1929 – 2010).

Antenado que é, hoje Mauro Senise registra parte importante do trabalho de Johnny Alf. Ao fazê-lo, enriquece ainda mais a sua profícua discografia.

A ideia de registrar parte do repertório de um gênio somou-se à sua qualidade de ser gregário: Mauro Senise parece amar trabalhar com parceiros. Ao dividir o seu trabalho com eles, ele, simplesmente revela o saudável prazer por compartilhar projetos e sonoridades.

Numa rápida busca em meus arquivos, contei ao menos sete de seus discos em parcerias. Dentre eles, um dedicado à obra de Gilberto Gil, uma trilogia gravada com Edu Lobo e Romero Lubambo e o CD comemorativo de sua parceria com Gilson Peranzzetta.

Neste novo trabalho, a direção musical é do próprio Senise – ele que dividiu a concepção do projeto com a produtora Ana Luisa Marinho, ela que, por sua vez, pintou a aquarela que embeleza (!) a capa.

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Os instrumentistas: Raul Mascarenhas (sax tenor), Adriano Souza (piano e percussão), Bruno Aguilar, Zeca Assumpção e Jefferson Lescowich (contrabaixo), Ricardo Costa e Danilo Amuedo (batera), Fabio Luna (percussão), Gilson Peranzzetta, Cristóvão Bastos e Jota Moraes (piano), João Senise (voz), Jota Moraes (vibrafone e piano), Jaime Alem (violão) e David Chew (violoncelo).

Os arranjadores: Adriano Souza, Cristóvão Bastos, Jota Moraes e Roberto Araújo. Cada arranjo tem na cadência a marca de uma sábia malemolência, uma picardia revelada no esmero com que as músicas são tocadas.

O bom cantor João Senise, em interpretação marcante e muito segura, canta “Eu e a Brisa”, a única com letra do disco. E, fechando a tampa, uma gravação original recuperada: “Melodia Sentimental” (Villa-Lobos). Nela Alf canta e toca piano… Senise e sua flauta tocam junto! Meu Deus!

Com sabedoria, o CD mostra Senise com um sopro que até assusta, tal a sonoridade que tira dos saxes e das flautas. E foi com eles que ele se esbaldou, com palhetas e timbragens de mestre.

Johnny Alf merece o carinho conferido a ele pelo gregário e profícuo Mauro Senise.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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