Que a verdade seja dita sobre o grupo mineiro Black Pantera, por Aquiles Rique Reis

A Black Pantera une com sagacidade elementos do crossover, groove, funk, thrash metal e hardcore.

Que a verdade seja dita

por Aquiles Rique Reis

Hoje trataremos de um álbum que difere da maioria dos que venho abordando aqui neste espaço. Refiro-me a Ascensão (Deck), do grupo mineiro Black Pantera. Talvez vocês se espantem pelo fato de um vocalista de MPB se dispor a tratar de versos, harmonias e melodias de um gênero musical inédito aqui nesta coluna.

Pois bem, para começar a prosa, devo dizer que, nesse caso, melodias e harmonias servem mais para vestir os versos do que propriamente para criar algo de fina beleza, como as criadas por um compositor bossanovista, por exemplo. O que faz das músicas um pano de fundo para que suas mensagens sejam assimiladas. Verdades que estão no que criam, sem demagogia. Certezas que vêm como socos na cara do escutador do trabalho: os fiéis seguidores do punk rock.

Ora, dirão vocês, esses caras só esmerilham a voz e não deixam que percebamos suas emoções… Concordo em parte com quem assim torce o nariz. Mas sinceramente? Eu também participava desse grupo.

Formada em 2014, o Black Pantera são os irmãos Charles Gama (guitarra e vocal) e Chaene da Gama (baixo e vocal) com Rodrigo Pancho (batera) – e, no CD, participações de Rodrigo Lima e Tuyo.

O vocalista rasga as cordas vocais para verbalizar os anseios da banda em combater o racismo, toda forma de preconceito e tudo o mais que lhes pareça desrespeitoso para com o povo brasileiro – indignidades que, com razão, abominam.

A Black Pantera une com sagacidade elementos do crossover, groove, funk, thrash metal e hardcore. Os versos tratam desde conflitos sociais até amarguras existenciais. Nos álbuns e nos palcos, os três têm o vigor que as composições (todas deles) exprimem.

Queiramos ou não, o punk, assim como o hip hop, é compreendido pela juventude – em grande parte, pobres e pretos – que vê nos versos o sonho de viabilizar sua vida.

A capa estampa a magnitude de uma foto de Victor Balde, onde se vê duas mulheres moçambicanas empunhando facões, uma delas com uma criança amarrada às costas.

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Os palavrões e os títulos das músicas expõem o teor dos versos: “Fogo nos Racistas”, “Padrão É o C.”. Acompanhando as letras com o encarte na mão – tudo a arrepiar –, abro a mente e tiro o chapéu para um grande álbum.

Para encerrar, transcrevo a letra de “A Besta”: “A massa grita por liberdade/ O corre é sagrado, na humildade/ Meus filhos são minha benção/ O mundo não para pra levantar/ O mal que persegue, não descansa/ Espere que o fogo vai consumir/ Éhhhhh, acordaram a besta/ Éhhhhh, se não aguenta, respeita/ São Jorge proteja dos dragões/ Me espreitam, me querem sem paz, sem voz/ Mal sabem que do fogo eu vim/ Dos sete pecados participei/ Os sete vivi e abdiquei/ Os deuses aplaudem a vergonha/ Éhhhhh, se não aguenta, respeita”.

Semana passada me identifiquei com um verso do roqueiro Zé Geraldo. Hoje, ainda que só um cadinho, ele ainda vale: “Quem sabe eu ainda seja aquele mesmo hippie, véio, doido e sonhador/ Não conseguiu mudar o mundo/ Continua cantando paz e amor”.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 desde 1965.

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