Viagens de um músico, por Aquiles Rique Reis

Hoje refletiremos sobre 333 Graus (independente), terceiro álbum de Gustavo Carvalho, contrabaixista carioca radicado em Ouro Fino-MG.

Viagens de um músico

por Aquiles Rique Reis

Dando sequência na atenção dada por mim aos trabalhos instrumentais que recebi desde o final de 2019 até meados de janeiro, hoje refletiremos sobre 333 Graus (independente), terceiro álbum de Gustavo Carvalho, contrabaixista carioca radicado em Ouro Fino-MG.

Desde a primeira audição das 11 músicas, todas de sua autoria (algumas em parceria), saltou-me aos olhos a liberdade conceitual e instrumental expressa em cada uma das faixas. Carvalho escreveu os arranjos, e, com Jessé Sadoc e Marcelo Martins cuidou também dos arranjos para metais.

Um grupo sintonizado com o som que Carvalho traz na cabeça e nas mãos que compartilham o contrabaixo.

O que a mim importou foi sentir o desapego de Carvalho a sons banais. O instrumentista, arranjador e compositor – que assim é desde a juventude – aponta para frente, em direção a composições e sons sem freios, limites ou gêneros preconcebidos. A avidez com que busca novos ares musicais me fez atinar que sua primeira e obstinada meta é por uma sonoridade ainda não “descoberta”, mas sim ainda a ser matutada e gerada.

Por exemplo: “Silhueta Carnaval” (Gustavo Carvalho), a música que abre a tampa, é jazz/roquenrrol na veia. Um curto slap do contrabaixo de quatro cordas de Carvalho, seguido de uma breve pausa que antecede uma pegada forte do batera (Rafael Barbosa) e um acorde cheio, abre os trabalhos. Duas guitarras (Zenrik Barbosa e Cesar Bottinha), percussão (Emilio Martins), piano (Omar Fontes), teclados (Ricardo Prado), Jessé Sadoc (trompete), e sax tenor (Buga) põem-se à disposição do arranjo para grooves, duos e solos sobre uma harmonia rica, amplificada por uma melodia de bom gosto. Solos como o do trompete impressionam. O pulso da batera e do contrabaixo seguram a onda. Seguem-se improvisos do trompete, do sax… Meu Deus!

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Em “Baixo de Lucia I” (GC), Gustavo Carvalho toca baixolão; Bruno Menegatti, rabeca; Roardo Bernardo, clarinete; Emilio Martins, batera e percussão; e Omar Fontes, piano e teclados. Juntos, o som instiga. O arranjo é puro gosto. Os duos e trios sucedem-se, enquanto o baixolão, a rabeca e o clarinete demonstram a capacidade que tem o compositor de criar algo que não se explica… é apenas música da mais fina beleza e sensibilidade.

“Manga Rosa” (GC e Paulinho Faria) inicia com um rufo da batera, seguido por solo dos contrabaixos de seis e quatro cordas de Carvalho e pelo piano e pela guitarra. A batera dita o suingue com as vassourinhas…

Bela é “333 Graus” (GC, Emilio Martins e Omar Fontes), a faixa-título. A batera cria o clima. Saxes e as flautas têm como meta realizar solos e duos. O clima é de rara beleza. Carvalho improvisa com o baixo de seis cordas. Climas vão e vêm, desfechando inspiração e pondo-se a brilhar, um após o outro, atestando a finura da composição e do arranjo.

Assim é 333 Graus, o álbum de um músico que deve ser escutado com ouvidos de sentir, alma de ver e olhos de desvendar, assim como quem reverencia uma obra de arte.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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