35 anos de A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu

Em 2014 completam-se 35 anos de A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu, o disco que mudou os caminhos de muita gente. Embora o sucesso viesse total em 1980, foi em 1979 que tudo foi feito. Dentro do caldeirão musical desse disco, encontramos elementos nordestinos que falam fundo dentro de nós. É um disco que fugiu ao Tropicalismo, fugiu ao Rock, fugiu ao Regionalismo e ao psicodelismo e, ao mesmo tempo, dialogava com todos. Se Paêbiru fora a transposição dos mistérios da Pedra do Ingá, junto com Lula Cortes, para as frases musicais, algumas até improvisadas nos estúdios da Rozenblitz, no Recife; e Avohai tornara-se a realização do primeiro sucesso nacional; a Peleja trouxe elementos sociais bem significativos e consolidou a presença de Zé Ramalho no cenário da música brasileira.

O disco inicia com a célebre frase “Ói, com tanto dinheiro girando no mundo, quem tem pede muito, quem não tem pede mais.” E segue seu caminho de constatações e denúncias explícitas, embora recobertas pela ludicidade das construções poéticas, livremente inspiradas na poética dos cantadores e poetas do cordel nordestinos. O próprio título já remete a um veio do cordel brasileiro: as pelejas entre dois bons repentistas. O ritmo do baião contempla o casamento instrumental de sanfona, zabumba, sopros, com uma marcação poderosa do bacalhau de Borel. Para quem passar da faixa um, está preparado a seguir o aboio do vaqueiro mais competente em Admirável Gado Novo: “Ê, ô, ô, vida de gado. Povo marcado, ê, povo feliz.” Quem de vocês que fazem parte dessa massa não já cantou esse refrão?

Como o próprio Zé Ramalho tem confessado, há uma forte influência de Geraldo Vandré em sua formação. A homenagem e a citação ao criador de Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores vem na terceira faixa do disco, Falas do Povo: “Falo da vida do povo, nada de velho ou de novo.” Letra estritamente social, mas como já disse, vestida em forte clima poético, distanciando-se do que poderia ser panfletário. O violino de Jorge Mautner se faz presente. Depois de três músicas marcadas pelo traço reflexivo, vem Beira-Mar, inaugurando um ciclo que se prolongará por mais duas gravações em discos posteriores: Beira-Mar (Capítulo 2) e Beira-Mar (Capítulo final). A letra desses “beira-mar” já estavam prontas desde 1977 na forma de um folheto de cordel chamado Apocalypse, cuja primeira parte apareceria em Canção Agalopada, no disco Terceira Lâmina. 

O Lado 1, sim,era assim naquele tempo, finalizava com Garoto De Aluguel (Taxi Boy): “Baby, dê-me seu dinheiro que eu quero viver”. A música com um trabalho de cordas magnífico fechava com chave de ouro a primeira parte do trabalho. Acredito que, como eu, muitos não conseguiram parar de escutar esse álbum. Não queríamos perder tempo e virávamos na pressa esperando as surpresas do Lado 2. E vinha surpresa mesmo pois Pelo Vinho e Pelo Pão mudava o clima, introduzindo uma melodia fadística com direito a cavaquinho, violão de sete cordas e clarinete, como em um regional e participação especial de Amelinha, que gravaria Frevo Mulher. Mas o Mote Das Amplidões retomava o clima nordestino, com décimas setissilábicas terminadas no mote Viajo Nas Amplidões.

Jardim Das Acácias é uma citação a João Pessoa, capital da Paraíba. Nessa gravação identifica-se mais uma quebra pois aparecem uma guitarra elétrica, tocada por Pepeu Gomes, uma bateria e um órgão. É uma advertência e uma orientação para o Terceira Lâmina que se afastaria do acústico. Segue-se Agônico, faixa instrumental, que será uma presença constante nos discos posteriores, na qual Zé toca todos os instrumentos. No CD Eu Sou Todos Nós, o instrumental ganhará uma letra e voltará com o título Agônico – O Canto. O LP se fecha com Frevo Mulher com um arranjo de sopros, um frevo de rua que se transformara no grande sucesso de Amelinha. Nesses 35 anos vimos esse trabalho transformar-se na própria vida de Zé Ramalho e em extensão de nossas próprias vidas.

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