A eleição em São Paulo, por Valério Arcary

Nada é mais importante que derrotar Bolsonaro e os seus cúmplices, e abrir o caminho para a esquerda em um segundo turno como liderança da oposição

Por Valério Arcary

Em A Terra É Redonda

Estas eleições serão diferentes de todas as outras eleições, desde 1986. Porque na presidência da República está um neofascista que tem como estratégia impor uma derrota histórica aos trabalhadores e oprimidos. A tarefa central da esquerda é conversar com milhões de eleitores para explicar que as mortes da pandemia e o desemprego em massa não foram uma fatalidade, mas um desastre provocado por Bolsonaro. Denunciar esta experiência dramática, ainda que diminuída pelo impacto do auxílio emergencial, é a chave para que a esquerda se qualifique como oposição. Há, também, uma corrente mais politizada na sociedade que rejeita Bolsonaro porque é antifascista.

Nada é mais importante que derrotar Bolsonaro e os seus cúmplices, e abrir o caminho para a esquerda em um segundo turno como liderança da oposição. Cada cidade em que a esquerda seja vitoriosa deverá ser transformar em uma trincheira para conter a ofensiva reacionária, e abrir o caminho da derrota de Bolsonaro.

Quando pensamos, em perspectiva histórica, desde os anos oitenta, o padrão dos votos na capital de São Paulo, não é difícil reconhecer que existem três grandes correntes políticas com raízes sociais na cidade. Uma extrema-direita que se apoia em frações burguesas e setores da classe média proprietária que se identificou, durante duas décadas, com o malufismo, hoje herdada pelo bolsonarismo; uma esquerda que se expressou através do PT, e se apoiou nos anos oitenta nos setores organizados da classe trabalhadora, mas ampliou sua influência nos anos noventa para setores médios de alta escolaridade e, sobretudo, depois da vitória de Lula, para o semiproletariado popular na periferia; e o tucanato do PSDB, a principal representação nos últimos trinta anos da fração mais poderosa da burguesia, e que tem o apoio da maioria da classe média.

A extrema direita venceu em 1985 com Janio Quadros, em 1992 com Maluf, e em 1996 com seu protegido Pitta. Mario Covas foi prefeito nomeado por Montoro entre 1983/85. O PSDB venceu com José Serra em 2004, sendo substituído por Gilberto Kassab em 2006, que foi reeleito por uma legenda de aluguel em 2008, e ganhou com Doria em 2016, em primeiro turno, sendo substituído por Bruno Covas em 2018. O PT venceu três vezes as eleições: em 1988 com Luísa Erundina, em 2000 com Marta Suplicy, e em 2012 com Fernando Haddad.

Um ciclo político de três décadas e meia de regime eleitoral permite um olhar em perspectiva histórica. Ao longo desta etapa ocorreram muitas oscilações nas relações de forças entre as classes, umas favoráveis que aumentaram o apoio da esquerda, outras desfavoráveis para os trabalhadores e seus aliados, que a prejudicaram. A luta de classes é a chave para atribuir sentido à luta política. Uma periodização pode ser útil para compreender as flutuações eleitorais:

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(a) tivemos um ascenso de lutas proletárias e estudantis, entre 1978/81, seguido por uma estabilização frágil, depois da derrota da greve do ABC até 1984, quando uma nova onda contagiou a nação com a campanha pelas Diretas já, e selou o fim negociado da ditadura militar, e o PT disputou a liderança da oposição

(b) uma nova estabilização entre 1985/86 com a posse de Tancredo/Sarney e o Plano Cruzado, e um novo auge de mobilizações populares, encabeçado pela potência de uma CUT apoiada na pujança de sindicatos combativos, contra a superinflação que culminou com a vitória de Erundina em 1988, e campanha eleitoral que levou Lula ao segundo turno de 1989;

(c) uma nova estabilização breve, com as expectativas geradas pelo Plano Collor, e uma nova onda a partir de maio de 1992, potencializada pelo desemprego e, agora, da hiperinflação que culminou com a campanha pelo Fora Collor, mas não foi suficiente para barrar a vitória eleitoral de Maluf em São Paulo.

(d) uma estabilização muito mais duradoura com a posse de Itamar e o Plano Real, uma inflexão desfavorável para uma situação defensiva a partir da derrota da greve dos petroleiros em 1995, e uma reeleição da extrema-direita em São Paulo com Pitta, e dois mandatos de FHC na presidência;

(e) lutas de resistência entre 1995/99, e uma retomada da capacidade de mobilização que agigantou-se, em agosto daquele ano, com a manifestação dos cem mil pelo Fora FHC, e culminou com a vitória de Marta Suplicy em 2000, mas interrompida pela expectativa da direção do PT e da CUT de que uma vitória no horizonte eleitoral de 2002 exigiria uma política de alianças, que não seria possível em um contexto de radicalização social;

(f) estabilização social ao longo dos dez anos de governos de coalizão liderados pelo PT, e derrotas para o PSDB em 2004 e 2008, ainda que o PT tenha chegado ao segundo turno em ambas, e vencido com Haddad em 2012, até que em 2013 uma explosão de protesto popular acéfala levou milhões às ruas, um processo interrompido ainda no primeiro semestre de 2014;

(g) finalmente, uma inversão muito desfavorável com as mobilizações reacionárias gigantes da classe média insufladas pelas denúncias da LavaJato, entre março de 2015 e março de 2016, quando alguns milhões ofereceram a sustentação para o golpe jurídico-parlamentar que derrubou Dilma Rousseff, a derrota devastadora nas eleições municipais de 2016, a abertura de uma situação reacionária e a eleição de Bolsonaro.

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O pior momento da extrema-direita foi em 2008, depois do desastre de Pitta e de três derrotas seguidas de Paulo Maluf que caiu de 17% em 2000, para 12% em 2004 e 6% em 2008. Embora Celso Russomano em 2012 tenha conseguido ocupar parte deste espaço, com quase 22%, a extrema-direita não se recuperou, até que em 2015/16 ganhou audiência nas passeatas da Avenida Paulista, e foi essencial para eleger Doria prefeito em primeiro turno, e a vitória de Bolsonaro em 2018.

O pior momento do PSDB foi em 2000 quando o auge do desgaste do governo FHC reduziu o voto dos tucanos com Serra a 17%. Recuperaram em 2004 com 43,5%, caíram para 22,5% em 2008, mas é preciso lembrar que a eleição foi vencida por Kassab que era uma sublegenda de Serra, e embora tenham vencido o primeiro turno com Serra em 2012 com 30%, perderam na virada do segundo turno para o PT de Haddad, por 44% a 55%. O seu auge foi a eleição de Dória, em primeiro turno, em 2016 com mais de 53% em primeiro turno.

O pior momento do PT foi em 2016 com Haddad tentando a reeleição com 16,7%. Em1992 Suplicy teve 30,6% e perdeu para Maluf no segundo turno, mas chegou a 42%. Em 1996 Erundina perdeu para Pitta com 22,8% no primeiro turno, e 37,7% no segundo. Em 2000 Marta Suplicy ficou na frente de Maluf no primeiro turno com 34,4% e venceu no segundo com 58,5%Em 2004 Marta teve 35,8% no primeira e 45% no segundo. Em 2008 Marta teve 32% no primeira, mas só chegou a 39% no segundo. Em 2012 o PT ficou em segundo lugar com 29,7%, um por cento atrás de Serra, mas venceu de virada no segundo turno com 55% a 44% para Serra.

São dois momentos eleitorais, em função dos dois turnos. Os resultados sugerem que a extrema-direita, em primeiro turno, tem um piso de 6% e um teto médio de 18%, os tucanos um piso de 17% e um teto médio de 30%, e o PT um piso de 17% e um teto médio de 30%, em função de oscilações que dependem da conjuntura política.

Os resultados do primeiro turno para presidente em 2018 na capital merecem ser recordados: Bolsonaro 44,58%, Haddad 19,70%, Ciro Gomes 14,83%, Alckmin 8,79%, e Boulos 1,21% Mas, no segundo turno, Bolsonaro conquistou 60,38% e Haddad 39,62%. Ou seja, a votação de Alckmin se deslocou inteirinha para Bolsonaro.

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As eleições estão ainda em um marco de imprevisibilidade grande. Quem serão os candidatos que irão para o segundo turno? Teremos mais de quinze candidatos, mas serão somente três grandes campos políticos. O bolsonarismo, a oposição liberal, e a oposição de esquerda. Somente dois deles irão para o segundo turno. O bolsonarismo revelou imensa resiliência, mesmo no auge da crise da pandemia, conhece uma tendência de recuperação que se expressa em aprovação de 42% entre homens, 45% entre quem tem de 35 a 44 anos, e 58% entre empresários, mas não tem uma candidatura orgânica. A oposição liberal tem a candidatura, neste momento, favorita a um lugar no segundo turno. A oposição de esquerda tem raízes sociais e tradição na cidade, pode ser beneficiada por uma corrente de massas com reservas antifascistas, mas está atravessando um processo de reorganização.

Não se sabe, por enquanto, quem Bolsonaro irá apoiar. Na extrema-direita a fúria de Joyce, enfrentará o aloucado Levy Fidelis, e o delirante Artur, o Mamãe falei. Não é a hipótese mais provável que a onda de extrema-direita de 2018 venha a se repetir em São Paulo em 2020. Evidentemente, a série histórica indica que a extrema-direita não pode ser subestimada na capital de São Paulo. Mas não se organizou um partido do bolsonarismo, são várias as candidaturas disputando o mesmo espaço, e o governo de Bruno Covas mantém taxas elevadas de aprovação, e deve arrastar uma parcela do voto bolsonarista.

No meio do caminho entre Covas e a esquerda, Márcio França deve naufragar. Não poderá ocupar o mesmo lugar de 2018, por duas razões: (a) porque o voto de setores médios que não queriam reforçar a campanha BolsoDória, voltará para o PSDB com Covas; (b) porque o voto útil de setores, historicamente, relacionados com o PT que conseguiu atrair deve retornar para a esquerda. Deve se resumir a um palanque para Ciro Gomes em 2020, porque a disputa tende a se concentrar entre a extrema-direita, os tucanos e a esquerda.

Finalmente, na esquerda, a potência e legitimidade da candidatura de Boulos/Erundina pelo PSol pode deslocar a liderança histórica do PT, a exemplo do que ocorreu no Rio de Janeiro em 2016 com Freixo.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

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