Uma engrenagem sofisticada, milionária e altamente coordenada opera desde dezembro para tentar reescrever a história da liquidação do Banco Master e, no caminho, destruir a credibilidade do Banco Central do Brasil.
Influenciadores de direita, agências de marketing digital, perfis de fofoca, políticos e operadores jurídicos passaram a difundir, de forma sincronizada, uma narrativa que tenta transferir a responsabilidade da crise do Master para o BC, questionando a decisão técnica que levou à liquidação do banco e intimidando servidores e dirigentes da autoridade monetária.
O Jornal GGN já vinha mostrando, em reportagens anteriores, a escalada de ataques, a pressão política e os movimentos incomuns em torno do caso Master, inclusive no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Agora, a revelação de que influenciadores foram procurados para integrar uma campanha paga escancara o desenho completo da operação.
A engenharia da campanha
No centro da articulação está o chamado “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O projeto previa a contratação de influenciadores com grande alcance nas redes para disseminar conteúdos com três objetivos claros:
- Desacreditar o Banco Central
- Imputar ao BC a responsabilidade pela crise do Master
- Criar a impressão de que a liquidação teria sido precipitada, política ou injustificada
A estratégia incluía contratos de confidencialidade com multas de até R$ 800 mil, produção orientada de conteúdo, disparo coordenado de narrativas e uso de reportagens selecionadas para sustentar a ofensiva, em especial uma matéria do portal Metrópoles citando despacho do TCU.
A denúncia veio a público por meio de reportagens de O Globo, Folha de S. Paulo e outros veículos, com relatos dos influenciadores Rony Gabriel, vereador do PL em Erechim (RS), e Juliana Moreira Leite, que afirmaram ter recusado a proposta.
Ambos descreveram abordagens semelhantes: promessas de remuneração milionária, exigência de confidencialidade e instruções claras sobre o conteúdo a ser produzido.
Bombardeio digital em larga escala
Levantamentos da grande mídia identificaram ao menos 46 perfis engajados num bombardeio digital sistemático contra o Banco Central e seus principais quadros técnicos.
O ataque não se limita a especialistas ou comentaristas políticos: boa parte dos perfis recrutados pertence a páginas de fofoca, entretenimento e memes uma estratégia para pulverizar a mensagem e atingir públicos fora do debate econômico.
Entre os principais alvos estão:
- Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro do BC
- Gabriel Galípolo, presidente do BC
- Aílton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização
- Entidades como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban)
O caso atingiu níveis de intimidação raramente vistos: antes mesmo da rejeição da venda do Master ao BRB, outdoors com a imagem de Renato Gomes foram espalhados em Brasília como forma de pressão direta sobre o corpo técnico do BC.
Influência, agências e dinheiro
A ofensiva digital passa por empresas que administram e negociam grandes perfis nas redes sociais, estruturas capazes de vender campanhas massivas de opinião. Entre elas aparecem agências como Banca Digital, Grupo Farol e Deubuzz, além de páginas com milhões de seguidores, como Futrikei, Festadafirma e outras.
Alguns comunicadores replicaram, quase palavra por palavra, as mesmas narrativas:
“liquidação a jato”, “precipitação”, “interesses ocultos”, “perseguição ao crescimento do banco”, “pressa injustificada”.
O padrão das postagens revela sincronia, padronização de discurso e uso estratégico de gatilhos de engajamento: sinais clássicos de campanhas coordenadas.
O pano de fundo político e institucional
A guerra digital não ocorre no vácuo. Ela se desenvolve paralelamente a movimentos incomuns nas mais altas instâncias do Estado.
No TCU, por exemplo, o relator Jhonatan de Jesus passou a questionar documentos técnicos do BC, uma situação que especialistas classificam como inédita e politicamente explosiva: um órgão de controle tentando controlar o órgão regulador, cujas decisões são essencialmente técnicas.
No STF, o ministro Dias Toffoli decretou sigilo máximo sobre investigações envolvendo executivos do Master, o que deixa alguns alertas.
Quando o BC acerta, o ataque explode
Não há dúvida de que o Banco Central merece críticas severas, especialmente pela manutenção da Selic em patamar elevadíssimo. Mas, no caso do Banco Master, a atuação do BC foi técnica e respaldada por unanimidade do colegiado.
As cifras envolvidas, os personagens e a teia de interesses explicam a violência da reação: uma ofensiva que mistura dinheiro, influência, política, pressão institucional e manipulação digital para tentar reverter, pela força da narrativa, uma decisão que não conseguiram vencer no campo técnico.
Rui Ribeiro
8 de janeiro de 2026 9:35 pmApesar do BC não se compadecer da população brasileira, eu vou me compadecer dele. Mas queria saber se a Nasa restabeleceu o contato com sua nave que se aproximou demais do Forasteiro Velox