“Apesar do revés, vejo com esperança a luta contra o obscurantismo”, diz neto de Rubens Paiva

"Temos uma juventude muito mobilizada e sinto que há reconhecimento das gerações mais velhas de que é preciso passar o bastão", afirma Chico Paiva. Assista na TV GGN

O deputado Rubens Paiva, vítima da Ditadura, e o neto, Chico Paiva, herdeiro político da família

Jornal GGN – A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 foi um baque para milhares de brasileiros, especialmente aqueles de famílias progressistas que lutaram contra o horror da Ditadura Militar. Caso dos herdeiros do ex-deputado Rubens Paiva, preso em 1971 e morto por discordar do regime.

Ao longo dos anos, os Paiva trabalharam para transformar a dor da família em luta coletiva. Mas ficaram incrédulos quando o autoritarismo voltou ao poder por meio do voto. “Nessa eleição eu vi nos olhos dos meus pais, de gente que participou ativamente da batalha na Ditadura, não acreditando que voltou tudo aquilo que a gente achou que estava no passado, que tinha superado. Vamos ter que superar de novo”, disse ao GGN o internacionalista Chico Paiva, o “neto orgulhoso” de Rubens Paiva, filiado ao PSB.

“Apesar do nosso revés”, Chico vê “com esperança a luta contra o bolsonarismo e o avanço do obscurantismo”. “Estou empolgado. Acho que a gente tem uma juventude muito mobilizada e sinto que há reconhecimento das gerações mais velhas de que é preciso passar o bastão.”

Como referência em “perseverança e ativismo”, Chico conta com a figura da avó, Eunice Paiva, companheira de Rubens Paiva e símbolo da luta contra a Ditadura. Ela preparou família para lidar com a tragédia de cabeça erguida. Para ela, “a nossa cabeça em pé é o que mostra que eles não venceram, que a gente está aqui na luta”, comentou o neto.

Em entrevista a Luis Nassif, Chico falou sobre o impacto da trajetória de seu avô em sua criação e contou que só tomou dimensão da figura de Rubens Paiva ao conversar com pessoas de fora da família.

“Essa conversa de Ditadura e democracia foi algo que nasci ouvindo, escutando histórias do meu avô pelos meus pais. A questão específica do assassinato do meu avô era algo já cicatrizado, não tinha tabu em falar disso. Eu comecei a ver o impacto da história do meu avô quando outras pessoas, de fora da família, vinham me falar que ele era um mártir na luta pela democracia. Foi quando comecei a dar conta da potência da luta e história do meu avô para fora da família, porque para dentro sempre foi trabalhada a questão de não podermos nos vitimizar, de não sermos tratados como um caso individual, ‘o sofrimento da família Paiva’. Era um sofrimento coletivo.”

“Assim como teve a luta e perseguição do meu avô, outros tantos não tão conhecidos também foram assassinados. Não só na ditadura como nos dias de hoje, é só ver os estragos pelas periferias. As mortes de Amarildo, Marielle. Essa violência de Estado é perpetuada nos dias de hoje. A família tratava dessa forma: ‘a gente sofreu isso, mas a luta é coletiva e temos que transformar isso numa pauta de toda a sociedade brasileira.'”

Depois do impeachment de Dilma, a eleição de Bolsonaro “pegou mesmo” a família Paiva. “Porque ele era o cara que personificava tudo aquilo que a luta da família tinha sido e que a gente achava que estava no passado. Um cara que abertamente vai no microfone do Congresso e homenageia Ustra, o chama de ‘terror de Dilma Rousseff’, a torturando psicologicamente ali, mais uma vez, para todo o País ver.”

Quando o busto de Rubens Paiva foi inaugurado no Congresso, Bolsonaro, um defensor da Ditadura, foi “xingar, cuspir e vaiar” o monumento. “Isso marcou muito. Naquela época ele era um ‘Zé Ninguém’ e a gente nunca imaginou que pudesse chegar onde chegou.”

A família Paiva, então, entendeu que uma nova batalha se iniciava. “Vamos ter que superar de novo. E aí eles [familiares] começaram a falar: ‘é a sua vez, a sua geração que tem que carregar esse bastão agora’.”

O FUTURO

Para Chico, a luta pode ser mais organizada que no passado.

“Acho que hoje tem uma base de sociedade civil muito mais organizada do que tinha naquela época [da Ditadura]. Naquela época houve pouca resistência ao golpe e acho que agora estamos mais organizados para fazer esse enfrentamento.”

Para ele, é preciso antes que os atores no campo progressista deixem diferenças e picuinhas de lado, e se unam “em torno do inimigo em comum”.

“Eu sinto falta disso e tento construir pontes e focar: a gente tem um neofascista no poder. Então em vez da gente ficar brigando e com picuinha aqui e ali, vamos focar nesse inimigo em comum que nós temos. Depois a gente faz a disputa programática, dentro da arena democrática.”

Chico ainda avaliou que os partidos de esquerda erraram ao ignorar as demandas da juventude depois dos protestos de 2013. Essa blindagem “acabou espanando essas pessoas para o lavajatismo e bolsonarismo.”

Além disso, chegou muito atrasada no embate político nas redes sociais. A direita “sacou mais cedo” que a comunicação por aplicativos de conversação era capaz de atingir nichos que os meios tradicionais não atingem.

Nesse contexto, além de precisar usar as redes com mais afinco, as esquerdas também precisam “aprender a comprar as batalhas”. Se um comunicador do porte de Felipe Neto está ajudando a desconstruir o bolsonarismo, ele precisa ser visto como aliado, não adversário.

“A gente negar a importância desses novos comunicadores e das novas formas de comunicação é negar a realidade, o futuro. A gente está fadado a viver em uma bolha entre os nossos e não estamos conseguindo fazer a mensagem chegar. Foi isso o que Bolsonaro nos ensinou em 2018”, comentou.

“Eu enxergo que tem uma nova geração que já cresceu nessa polarização e enxerga além dela, mas a força das redes e da própria mídia é sempre de colocar de um lado ou de outro. A política é feita de construir pontes, criar consensos e tentar diálogos.” Achar que todo mundo deve necessariamente pensar igual para estar do mesmo lado “não é fazer política”.

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