Ecos do dia dos pais – 2

Nesse 8 de agosto, passamos eu e meus irmãos o primeiro dia dos Pais sem a presença física do nosso velho, que nos deixou em outubro passado, após cinco anos de luta inglória contra um Alzheimer precoce e devastador. Pouco após sua morte, escrevi a pedido de um jornal da cidade de Uberaba um depoimento muito pessoal sobre meu convívio com ele, que aproveito a ocasião para compartilhar com vocês.

Pai, médico, professor e cientista

Minha mãe me pede para que eu escreva um currículo do meu pai, Edison Reis Lopes. Encomenda do Jornal da Manhã, para ilustrar homenagem ao médico, professor e cientista que nos deixou há poucos dias. Aceito a tarefa com alguma relutância. Bem mais fácil para mim seria escrever o currículo de algum doutor de Harvard ou de Oxford, com a onipresente ajuda do Google e da Wikipedia. Mas como contar burocraticamente a história de alguém tão importante em nossa vida?  Como listar uma cronologia de feitos, pesquisas e títulos acadêmicos, sem falar do homem que sempre houve por trás deles? Não, a lembrança que guardo do meu pai não cabe no formato estreito de um Currículo Lattes.

Do pai carinhoso da infância, guardo as manhãs ensolaradas de domingo nas piscinas do Country Clube e o mergulho urgente na piscina – roupa no corpo e câmera fotográfica no pescoço – para acudir o filho que se afoga. A recordação quente das férias no balneário de Camboriú e nas praias do Espírito Santo, cerveja, camarão frito e riso farto se espalhando em grandes mesas, onde se construíam amizades sinceras para toda uma vida. Lembrança viva da condução segura nas longas viagens de carro, janelas abertas e sem cinto de segurança, os irmãos brigando pela honraria de sentar no meio do banco da frente e trocar as marchas do Opala. A confraternização da criançada no futebol dos sábados à tarde nos campinhos de grama do Caiçara e do Champagnat, onde os times de pais médicos exibiam, descontraídos, sua discutível performance como esportistas.

Do pai cientista, ficou a imagem inesquecível de um bando de pesquisadores malucos derrubando casas de pau-a-pique nos vilarejos da zona rural de Uberaba apenas para recolher centenas de barbeiros infectados com Trypanosoma cruzi. Também havia as jornadas, simpósios e congressos médicos, nas então longínquas capitais do Nordeste – que nos rendiam temporadas aos cuidados das avós, cartões postais com jangadas e coqueiros, entremeados por raros e precários telefonemas interurbanos cheios de saudade. No final dos anos 1970, a consagração do Prêmio Gerhard Domack, da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical: uma viagem de estudos que deu ao casal já maduro a oportunidade de ir pela primeira vez à Europa – num tempo em que cruzar o Atlântico de avião era privilégio reservado aos muito ricos.

Do pai médico legista, guardo a memória do sobressalto constante com os imprevisíveis plantões na Medicina Legal. Os jantares interrompidos na casa de amigos ou no velho restaurante do Jockey Clube, o telefone tocando de surpresa na madrugada, a rádio-patrulha parando na porta de casa para buscar o “doutor”. A preocupação solidária em atender o mais rápido possível famílias enlutadas pela tragédia de uma morte repentina, a consternação mal disfarçada diante das carnificinas da sempre violenta BR-050. O bom-senso para fazer do limão uma limonada, conduzindo no IML uberabense extensa e importante pesquisa sobre a morte súbita em vítimas do mal de Chagas.

Do patologista talentoso, lembro as muitas tardes em que passávamos em cada hospital da cidade, entregando os envelopes com os resultados das biópsias. Da convivência adolescente no seu laboratório, herdei o fascínio pelos microscópios e pela fotografia, o rigor na investigação dos detalhes sutis, o entusiasmo diante das perspectivas que o avanço da técnica e da ciência nos proporcionam, a busca permanente pelo conhecimento onde quer que ele esteja. Talentos que nostalgicamente busco imitar – ainda que sem o mesmo brilho – no meu trabalho como professor e consultor em tecnologia gráfica, após ter dado a meu pai inegável tristeza ao desistir, aos 17 anos, de seguir seus passos na profissão médica.

Da sua extensa carreira acadêmica, carrego lembranças vagas da temporada em Belo Horizonte, em plena agitação de 1968, na sua afobação em conquistar a livre-docência com apenas nove anos de formado, três filhos pequenos para criar e o dinheiro contado no dia-a-dia. A gratidão e o respeito dedicado aos mestres Luigi Bogliolo e Edmundo Chapadeiro, construindo com ambos uma amizade franca e sincera, que se estendeu muito além dos muros das universidades. O entusiasmo quase adolescente com o retorno do consagrado professor Aluízio Prata, trazendo para Uberaba um centro de excelência de renome internacional em Medicina Tropical.

Do pai professor universitário, recordo das provas para serem corrigidas, empilhadas na mesa da sala de jantar, disputando espaço com igual tarefa de minha mãe. As viagens constantes para reforçar o orçamento familiar e, ao mesmo tempo, contribuir na construção de novos cursos de medicina, seja na vizinha Uberlândia ou na distante Itajubá. A dedicação extrema à estruturação do Departamento de Patologia na FMTM, o chaveiro imenso pesando nos bolsos do jaleco branco, garantindo acesso às salas do velho prédio da Praça do Mercado, num trabalho onde não havia sábados, domingos e feriados. O derradeiro esforço, já professor aposentado e com a vida resolvida, para erguer do chão uma nova faculdade de medicina na Uniube.

Do mestre nos caminhos da vida, lembro de meu pai abraçado à minha mãe na rodoviária de Uberaba, quando partíamos eu e meus irmãos rumo aos estudos em São Paulo. Ambos confiantes, mas em mal dissimulada aflição ao verem os filhos indo embora para construir seus próprios caminhos, escancarando sozinhos as portas do mundo que eles próprios haviam nos ensinado a abrir. Da sua preocupação constante ao nos ver tropeçando no início da vida profissional, dos conselhos nas horas certas e do apoio que ele sempre nos deu, mesmo quando não sabia exatamente o que estava apoiando. Do exemplo de um profissional sério, competente e ético que fez da vida como funcionário público uma maneira de servir à sua comunidade e ao seu País – alheio às armadilhas do enriquecimento fácil e rápido.

Conservador na sua visão de mundo, não era homem de fazer grandes concessões, mas procurou não se deixar ofuscar pela limitação dos rótulos ideológicos. Aprendeu a conviver na vida pessoal, profissional e familiar com amigos, colegas e parentes de diferentes orientações políticas. Se, por um lado, transmitiu aos filhos seu desprezo pela estupidez inerente das ditaduras e das manifestações de intolerância política, era ele próprio visceralmente intolerante com as manifestações de desonestidade intelectual, com a deslealdade pessoal, com a hipocrisia, com a falta de seriedade acadêmica, com a mediocridade conformada.

Paulistano de nascença, filho e neto de imigrantes que vieram tentar nova vida na América do Sul, meu pai nos deixou a lição de que nenhum homem escolhe a cidade em que nasce. Mas que cabe a nós adotar de alma e coração uma cidade para nela construir nossas vidas, nossos amores, nossas famílias e nossos sonhos. Dos espanhóis e italianos de São Paulo, herdou o gosto pela mesa boa e farta, pelo vinho acompanhando os almoços nos finais de semana – além de uma incorrigível paixão pelo Palmeiras, uma das poucas coisas capaz de tirá-lo do sério.

Na pacata Uberaba dos anos 1950, encontrou a profissão e os professores que moldaram seu caráter, a mulher amada que deu novo sentido à sua vida, a faculdade onde construiu sua carreira e deixou seus discípulos. Ainda jovem, aqui perdeu seu pai, ganhou três filhos e teve a sorte de encontrar amigos tão especiais que se tornaram verdadeiros irmãos a completar sua família (a nós, restou o privilégio de ter uma constelação fiel de tios e tias queridos, sempre ao nosso lado nas horas boas e nos momentos difíceis da vida). Embora fosse avesso a bairrismos, todos que o conheceram sabem que meu pai tornou-se cidadão uberabense de fato, muitos anos antes da Câmara Municipal formalizar essa honraria em uma bonita homenagem.

Infelizmente, quando o sonho de ver sua querida FMTM promovida a Universidade Federal se tornou realidade, sua carreira produtiva já havia sido precocemente encerrada por devastadora enfermidade degenerativa. Comoventes foram os esforços e a dedicação dos colegas médicos – em especial os sempre presentes Tio Tolstoi e Tio Paulo – e dos seus cuidadores para tentar reverter ou ao menos minorar os efeitos da doença. Com esses irmãos e amigos fiéis, nossa família contraiu uma dívida impagável de gratidão. Especialmente árdua foi a tarefa de nossa mãe, amante e companheira incansável, nesses cinco anos e meio de luta.

Felizmente, para todos que tiveram o privilégio de compartilhar da sua amizade, a imagem que fica de Edison Reis Lopes é a do homem solidário, do amigo alegre e brincalhão, do avô que se derretia em carinhos com os netos – o homem que a doença nos roubou no poente da vida. Recorro a uma paródia da poesia de Carlos Drummond de Andrade para imaginar que meu velho enfermo, nesses últimos anos, guardava sua alegria em tripla cerca de espinhos. Pois já não precisas guardá-la, meu pai. No escuro em que agora descansas, é permitido sorrir.

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