Edgard Scandurra: Além de envelhecer, difícil é aprender, por Douglas Portari

Nesta entrevista, o guitarrista Edgard Scandurra fala do novo disco do grupo Ira!, primeiro de inéditas em 13 anos, da Geração Anos 1980, do momento atual e faz uma importante autocrítica

Edgard Scandurra: Além de envelhecer, difícil é aprender

por Douglas Portari

Difícil imaginar atualmente uma banda com décadas de estrada – pra não usar a palavra “antiga” – aparecer com um trabalho que fale aos dias de hoje e ao mesmo tempo seja fiel ao seu estilo, mantendo-se relevante e não datada. Uma parceria que tinha acabado há 13 anos conseguiu provar que isso é possível. Patrimônio do rock nacional, e nunca contente com sua cadeira no establishment, o Ira! chega em 2020 com um disco novo e a mesma inquietude de sempre.

Depois de um divórcio, em 2007, digno de novela das oito, o núcleo-base da banda, o guitarrista Edgard Scandurra e sua contraparte, o vocalista Nasi, voltam com o álbum autonomeado Ira (leia crítica ao final), uma produção independente em que admitem, na letra de O Homem Cordial Morreu, que “além de envelhecer, difícil é aprender”.

Sempre envolvido em muitos projetos, do eletrônico Benzina às parcerias com Arnaldo Antunes e cantoras como Karina Buhr, Bárbara Eugênia e Silvia Tape, nesta entrevista, Scandurra fala sobre o novo trabalho, o momento atual e o protagonismo feminino, a Geração Anos 1980, e também de arrependimentos, em que faz uma importante autocrítica quanto à Pobre Paulista, canção riscada do set list do grupo.

Farto do rock’n’roll

Há alguns anos, entrevistei o guitarrista Pete Townshend, do The Who, e perguntei o que ele diria para o garoto que cunhou a frase “prefiro morrer antes de ficar velho”. Ele respondeu: “Eu escrevi sobre um estado de espírito. Eu ainda prefiro morrer antes de ficar velho”. Muita gente do rock aqui no Brasil parece ter ficado velho, não?

Edgard Scandurra: Perfeito. É um estado de espírito, não é físico. Inclusive esse disco do Ira! chama Ira porque o disco mais recente do The Who chama Who, um disco lindo. Uma banda que eu respeito muito. E respondendo, eu acho que no momento que o cara aceita o establishment ele envelhece. Na hora que o cara relaxa e diz ‘paciência, é o que temos’, ele entrega o ouro, ele desiste, ele vai viver do seu passado, ele vai ser uma sombra do que foi no passado. Infelizmente, essa geração dos anos 1980, que pegou essa abertura política, que foi importante, com hinos, com muitas músicas e shows e discursos de democracia, entregaram o ouro, descansaram. É mais um desafio pro rock, mais um desafio pra arte: que consiga transformar. Eu ainda tenho esse sonho transformador. E eu acho que talvez isso é o que tenha acontecido com a minha geração dos anos 1980, eu acho que eles não tinham mais nenhuma ambição de transformar nada. Era só cumprir tabela, ter sua agenda, fazer seus shows corporativos.

O rock perdeu o protagonismo. Pelo discurso também, muito retrógrado, pequeno. O rap tomou espaço, a música popular brasileira, com elementos nacionais, como um Nação Zumbi, Baianasystem. Os caras bombam, muito poderosos e acho que é um rock, não deixa de ser. É que as pessoas que fazem rock hoje não põem o nome rock na frente, é uma música experimental, é uma nova MPB. Ninguém mais fala ‘O que vocês fazem? Ah, a gente faz rock’. Todo mundo faz alguma coisa diferente, é um momento novo, há uma brasilidade nessa música, e é uma coisa legal, positiva, pra não tocar um rock em inglês cantado em português.

E tem o público que também “fica velho”, como o povo vaiando o Roger Waters no Brasil…

Esse é um perfil do Brasil, essa classe média do país é muito estranha. Um pensamento autoritário, de cima pra baixo, fechado… No meio dessa pandemia, pra mim, duas coisas que foram muito fortes, que me tocaram bastante, foi o Roger Waters cantando Victor Jara, El Derecho de Vivir en Paz [num ao vivo em abril], e as duas músicas do Bob Dylan [Murder Most Foul e I Contain Multitudes. Dylan liberou ainda uma terceira canção, False Prophet, e irá lançar o novo disco Rough and Rowdy Days ainda em junho], que sei lá, violão e voz, uma música difícil, 20 minutos. A coisa mais quarentena que já vi na vida, a música é uma reflexão da história dos Estados Unidos, Kennedy, uma coisa muito forte.

Dias de luta

E como você vê a pandemia, a nossa crise?

É um momento em que a sociedade tem de se transformar, não pode voltar a ser o que era. Quando acabar tudo isso, todo mundo voltar a consumir que nem louco, a ter essa vida, continuar explorando as pessoas. Tudo tem de ser modificado, com respeito, com valores… esses bilionários, esse 1% da população, acho que tudo tem de ter um stop, uma reflexão.

Como dizem, “não dá pra voltar ao normal porque o normal era o problema”.

Exatamente, o normal era o problema. Esse normal tava gritante na porta da gente. Por exemplo, a gente tava testemunhando a briga da comunidade Guarani [Mbya], aqui da região do Jaraguá [TI Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo], contra uma construtora, a Tenda, que quer construir torres enormes, quer derrubar quatro mil árvores, pra fazer um condomínio com nome indígena, inclusive. Uma falta de sensibilidade absurda. Com uma ordem judicial pra tirar o povo de lá, pra começar a derrubar. Uma atitude totalmente irracional. A esperança é que tenha alguma transformação com essa quarentena, que as pessoas possam refletir, ter conhecimento de quanta gente tá sofrendo. Procurar uma sociedade melhor. E além da pandemia, a gente tá vivendo uma guerra, uma guerra invisível, mas agora tá começando a ficar evidente essa coisa do nosso contrato social, questão racial, questão de gênero, da mulher, do trabalhador, do assalariado, tá uma coisa muito evidente.

https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-monitoramento/vitoria-dos-guarani-mbya-juiza-proibe-obras-da-tenda-em-area-vizinha-a-terra-indigena

https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3707

E o Ira! lançando um disco no meio disso tudo.

A gente não quis esperar acabar [a quarentena], esse hipotético final da pandemia, pra lançar o disco. Até cinco meses atrás a gente falava, ‘de repente, junho, julho, quem sabe agosto as coisas estão normalizadas’. E tudo foi piorando, então, falamos ‘meu, vamo lançar esse disco, vamo botar música pras pessoas ouvirem, mostrar nossas novidades’. Pelo menos pro nosso público, que também tá em quarentena, que tá fechado. Então, mostrar um pouco da nossa nova poesia, da nossa nova sonoridade.

Agora, a gente vive essa coisa, como no caso do Dylan, o cara vai lá e faz uma música maravilhosa e uma semana depois as pessoas não falam mais, parece que pertence a um passado distante. Tá acontecendo tanta coisa que, pô, essa música do Dylan, se fosse anos atrás, é uma música que ia ser comentada, as pessoas iam usar camisetas com as letras, e ela parece que passou batido. E eu tenho muito medo que isso aconteça com esse disco do Ira!, que daqui a um mês ninguém fale mais nada. Porque as coisas estão assim, muita informação e as pessoas não se apegam muito aos acontecimentos.

Amor impossível

O novo disco tem uma sonoridade muito similar à de Meninos da Rua Paulo, a música Você Me Toca, por exemplo, é quase uma irmã siamesa de Rua Paulo.

Uma referência ótima pra ele… Isso me surpreendeu e agora tá caindo uma ficha, ele tem a ver, mesmo. São meio-irmãos, tem uma distância de tempo, mas eles têm uma similaridade… até o existencialismo das letras. É um disco que tem a marca de uma banda de músicos old school… eu tenho 58 anos, Nasi também. Talvez a gente não conseguisse, apesar dessa similaridade com outros trabalhos do Ira!, músicas com essa temática a gente não conseguiria fazer na época do Meninos da Rua Paulo, por exemplo, com um ponto de vista mais maduro. Como O Amor Também Faz Errar, que é uma música que fala um pouco sobre isso, sobre erros e acertos do amor, de se jogar de cabeça em relações.

As músicas são de uma mesma época?

Uma boa parte dele, 60% desse disco é uma coisa de dois anos pra cá, já começando a pensar num disco novo do Ira!, lá por 2018. Mas tem músicas como Chuto Pedras e Assovio, que é de 2010, que fiz com a Bárbara Eugênia, pro disco dela que eu tava produzindo e ela tinha um repertório definido e a música não foi pro disco. Acho uma música muito bonita, porque fala sobre amor, mas ao mesmo tempo fala sobre solidão – o que tem a ver com Meninos da Rua Paulo, que fala muito sobre isso também. A própria Efeito Dominó, música minha com a Virginie Boutaud [da banda Metrô], fala um pouco sobre isso.

Tem Mulheres à Frente da Tropa, que mostra o protagonismo feminino nesse momento que a gente tá vivendo. Desde 2013, 2014, comecei a acompanhar mais de perto os ativismos, conheci a Ocupação 9 de Julho, conheci lideranças indígenas. Logo em seguida, veio o assassinato da Marielle, há pouco tempo veio a Angela Davis fazer umas palestras por aqui. Essas manifestações todas… eu presenciei uma manifestação feminista na Paulista, muitas meninas com os seios de fora e os rostos pintados, praticamente só mulheres, de igual pra igual com a força policial. Vim presenciando isso, essa coisa cada vez mais forte, mais presente na vida de todo mundo. E achei que a gente tinha de ter um registro com o Ira!. Tanto que gerou não só uma música, com os vocais femininos, como o clipe, dirigido por uma mulher, Luciana Sérvulo, as protagonistas todas mulheres. E acho que tudo é reflexo do amadurecimento da banda. E um reconhecimento desse momento que a gente tá vivendo, em que é muito importante a presença das mulheres. Veja os países que são dirigidos por mulheres são os que estão se dando melhor nessa quarentena.

Envelheço na cidade

Eu Desconfio de Mim tem uma pegada anos 1980, meio Arnaldo Antunes, Walter Franco…

Tem um pouco, tem influências com outras parcerias. O Arnaldo é… eu fiz uma live do Sesc e falei do Arnaldo quase mais do que de mim. A gente fez muita coisa juntos, por isso tenho essa relação com ele e com o pós-punk e nossas parcerias são assim. Ele tem um repertório de músicas pop, músicas de muito sucesso, mais palatáveis, mas tem uma coisa esquisita, mais concretista. E é nessas parcerias que eu entro, nessas coisas mais loucas, Como É Que Chama o Nome Disso, Consciência. Mesmo A Curva da Cintura, que a gente gravou na África, com o Toumani [Diabaté, músico do Mali] tem essa estranheza, que acho que a gente cativa, mesmo.

https://www.instagram.com/edgardscan/

Olha, eu acho que tem essa influência, mesmo. E, claro, de Gang of Four. Essa música é dedicada ao Andy Gill [guitarrista da banda inglesa, morto em fevereiro]. A gente tava no estúdio quando eu tive a notícia que ele faleceu. Eu tenho foto com ele quando ele veio tocar no Sesc Pompeia [ele veio ao país pela primeira vez em 2006, tocou em um tributo ao Legião Urbana, em 2012, e retornou em 2018 ] e eu chorei muito quando soube da morte por que ele sempre foi uma espécie de irmão mais velho do pós-punk paulistano. Eu falei pra ele, cara, você não tem ideia de como você foi importante para pra cena pós-punk de São Paulo. Ele influenciou Ira!, Fellini, Smack, Mercenárias, Legião Urbana, bandas underground. Importante como Joy Division, ele na guitarra foi uma escola e tanto.

Old school, 40 anos de carreira, 58 anos de vida. Tem arrependimentos, Scandurra?

Arrependimentos? Putz, cara… um monte, bicho. Um monte de arrependimentos.

Fiquei até emocionado agora [faz uma pequena pausa].

Numa época que o Ira! nem era Ira!, era outra banda, Subúrbio ainda, final dos anos 1970, nessa coisa de chocar as pessoas eu fiz essa música, Pobre Paulista. E Pobre Paulista flerta com questionamentos preconceituosos e não era isso que eu queria dizer, eu era um moleque, tinha 15 anos de idade e essa letra saiu. E em vez de ela ser uma música que a gente deixou pra trás, ela acabou virando um hino. Mas é uma música que eu não faria jamais hoje em dia. Se eu quisesse falar sobre a minha cidade, eu falaria de outra maneira.

 Por soar contra migrantes…

Exato. E essa interpretação é muito ruim e muito errada. Então, ter uma música na minha carreira que as pessoas possam ouvir e dizer que é preconceituosa é uma coisa… Eu quis ser mais realista que o rei, quis fazer algo mais chocante que os Sex Pistols, quis criar uma polêmica num momento em que, com 15 anos de idade, adolescente, falta muita tolerância na gente.

Vocês pararam de tocar a música?

A gente nunca mais tocou essa música. Faz muitos anos que a gente não toca. E é um equívoco, um equívoco. É uma coisa que eu me arrependo. Eu prefiro focar em 99,9% da minha obra, que mostra um outro caminho.

CRÍTICA

Ira (Ira!)

Independente

 Os Homens da Rua Paulo

Um disco maduro e cheio de frescor, contemporâneo mas com ecos de um dos melhores trabalhos do Ira!, o álbum Meninos da Rua Paulo, de 1991. Com surpreendente vigor, este novo disco vira de vez a página do fim do grupo e supera um abismo de 13 anos sem material inédito, trazendo relevância para o cânone da banda e muitíssimo bem-vinda boa música para tempos de barbárie.

12º álbum de estúdio da banda, o autonomeado Ira não tem exclamação, mas não perdeu a energia. Bebe da potência das parcerias de Scandurra com as cantoras e compositoras Silvia Tape, Virginie Boutaud e Barbara Eugênia, contribuições externas que oxigenaram o som do Ira!. O disco ganhou também com as entradas do baterista Evaristo Pádua e do baixista e tecladista Johnny Boy, trazendo peso e swing.

Outro destaque neste trabalho é a participação do produtor Apollo 9, que com seus sintetizadores contribui com uma pitada psicodélica em faixas como Efeito Dominó e Você Me Toca. Eles enriquecem um álbum feito para ser tocado ao vivo (rezemos pela volta dos shows) e que chega despido dos elementos de música eletrônica que havia anos marcavam presença no som da banda.

Som que se mantém, diga-se. Estão lá as harmonias vocais entre Scandurra e Nasi – com uma voz segura como nunca –, e as temáticas de solidão e amores impossíveis ou perdidos, agora acrescidos de amizades maduras, no equilíbrio entre rocks, baladas e um pop jovemguardiano desavergonhado. Os gritos na multidão hoje foram atualizados por vozes femininas, homenageadas por Scandurra na bela balada-protesto Mulheres à Frente da Tropa.

Um disco que abre com a sessentista O Amor Também Faz Errar e sua batida a la Kinks, com baixo que dá uma piscadela a McCartney e um refrão solar: “Deixe a portar abrir”. Os anos 1980 aparecem em Eu Desconfio de Mim, canção-concreta, mezzo Walter Franco, mezzo Arnaldo Antunes, um tributo a um santo padroeiro das bandas da Geração 80, a quem Ira!, Titãs e Legião Urbana devem muito, Andy Gill, guitarrista e fundador do Gang of Four, morto em fevereiro.

Há o velho Ira! que recorre a Clash em O Homem Cordial Morreu, com Nasi cheio de verve, escandindo as palavras no refrão de um Brasil que está nu. A chanson française, cara a Scandurra, aparece em Efeito Dominó, parceria com Virginie Boutaud (banda Metrô), que faz um dueto, em francês, com Nasi. Nesta e em outras faixas do disco, a banda deixa a música se desenvolver sem peias por quatro, cinco, oito minutos, enveredando por caminhos mais ricos.

O peso surge também em canções como Você Me Toca, que, com seu baixo funkeado e guitarra a emular Hendrix, é uma irmã-siamesa de Rua Paulo, de 1991. Uma das duas parcerias com Silvia Tape, hoje guitarrista das Mercenárias – com quem Scandurra já lançou um disco conjunto, em 2015 –, que contribui com outro petardo no disco: Respostas, rockão tradicional em que Scandurra sola como se não houvesse amanhã.

Há isso tudo e mais, a começar pela capa, bonito trabalho da artista plástica Mayla Goerisch, com setas em referência aos mods e a se lançar no vazio em direção ao futuro. Ira é um disco de uma banda que faz autorreferências sem saudosismo, que celebra o passado sem fechar os olhos – e os ouvidos – ao que ocorre no mundo hoje. Com uma pequena ajuda de suas amigas, em Ira, os meninos da Rua Paulo viraram homens.

Foto Carina Zaratin

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