el-Sisi, Prayut, Evren e o sono dos generais

Em uma noite de abril de 2018, todos os generais do Exército brasileiro tiveram o mesmo sonho. Ou talvez pesadelo.

Sonhavam que estavam todos em uma reunião do Alto Comando quando três generais escancararam a porta e se portaram na frente deles.

O primeiro foi rapidamente reconhecido: Abdel Fattah el-Sisi, general que deu o golpe de Estado no Egito em 2013 e que se tornou presidente eleito e reeleito. O segundo foi reconhecido um pouco depois: Prayut Chan-o-Cha, general que deu o golpe de Estado na Tailândia em 2014 e que se tornou primeiro-ministro auto-indicado.

“E quem é o terceiro?”, perguntou um general.

“Eu sou Kenan Evran, dei o golpe de Estado na Turquia em 1980 e me tornei presidente.”, respondeu o terceiro.

Todos os generais se entreolharam, como que esperando que alguém lhes desse uma explicação sobre o que aconteceu. Os três invasores se mantiveram imóveis, e isso obrigou um dos generais a sair do estado catatônico e iniciar uma sessão de perguntas e respostas.

“Mas… então, no que podemos ajudar vocês?”

“Nós é que perguntamos no que podemos ajudar vocês”, respondeu Evran, “afinal, parece que vocês estão precisando…”

O clima de desconforto aumentou ainda mais entre os generais. Como o desconforto é o pai da ação, um general começou a perguntar.

“Pois bem, senhores. Vocês três tem experiência em…”

“Golpes de Estado”, interrompeu Prayut, “e em criar constituições em que os militares tutelam os civis. Vocês já estão ensaiando isso, correto?”

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O comandante da reunião, então, sai da letargia.

“Sim. Já tutelamos o presidente e o tribunal supremo, mas isso informalmente…”

“…e já querem que vocês assumam isso formalmente, certo?”, interrompe el-Sisi.

“É verdade”, respondeu o comandante.

el-Sisi continua explanando: “Então, viemos aqui porque vimos que os americanos, aqueles idiotas, convenceram a elite política deste país que bastaria uma ditadura de juízes e procuradores que estaria tudo bem… Ditadura de quem não tem armas, como os americanos são idiotas!”

Os três invasores começam a gargalhar de uma maneira que constrange os generais. Por sorte que não demora muito e Prayut assume a palavra.

“Ditadura de juiz e procurador só funciona na cabeça de quem passa tempo demais vendo televisão e rede social, mas na hora do desespero as elites vão chamar quem tem tropas e armas, e essa hora do desespero chegou aqui neste país.”

O comandante tenta balbuciar alguma coisa mas Evren não deixa.

“Vocês vão ter que voltar à arena política, dar um golpe de Estado, rasgar a Constituição atual e ditar uma nova Constituição que garanta que vocês vão controlar os brinquedos políticos das elites. Cada um de nós tem experiência em fazer isso, e estamos aqui para ajudar vocês a escolher seu próprio caminho.”

Prayut assume o comando da fala: “Por isso viemos nos apresentar. Estaremos aqui para contar a nossa experiência e ajudar vocês a criar seu próprio caminho rumo à tutela dos civis.”

Um general, que estava escondido, pergunta: “Mas um é presidente do Egito, um é primeiro-minstro da Tailândia e um está morto. Então como…”

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“Por isso iremos a vocês nos sonhos, quando vocês estiverem dormindo”, interrompe el-Sisi, “Para fixar os nossos conselhos nos seus subconscientes e ajudar vocês a tomarem as decisões.”

O Alto Comando continua se entreolhando, sem acreditar no que está vendo e ouvindo. Enquanto isso, os três invasores cochicham e olham para um relógio no alto do salão.

Evren volta a falar: “Bom, já está na hora das vi… vi… como vocês chamam esse pessoal que fica pedindo pra vocês darem golpe aqui no Brasil?”

“Vivandeiras de quartel”, responde o comandante.

“Obrigado! Bom, já está na hora das vivandeiras de quartel acordarem vocês pedindo para dar um golpe de Estado. No próximo sono de vocês começamos a ajuda propriamente dita. Bom dia!”

Imediatamente todos os generais acordam no mesmo momento, no mesmo sobressalto. Correm para o computador e começam o dia procurando na Wikipedia pelos golpes de Estado na Turquia em 1980, no Egito em 2013 e na Tailândia em 2014.

Afinal, vão precisar.

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