Eliseu Padilha, o lado mais sujo da política

Chega a ser curioso o primarismo político da junta interina.

Assumiu o poder no bojo de um golpe parlamentar e no rastro de uma campanha moralizadora. A campanha uniu pontualmente mídia, Congresso e Ministério Público em torno de um objetivo específico: depor Dilma Rousseff.

Quando sai um governo e entra outro, o interino herda os poderes, mas também a visibilidade do anterior. Especialistas na pequena política, da cooptação do baixo clero, da atuação nas sombras, a junta interventora não se deu conta de que, à luz do dia é como mandruvás cobertos de sal. E partiu para o exercício do poder, da mesma maneira que os farrapos degolando os inimigos nos pampas.

Dentre todos os integrantes da junta, nenhum é mais agressivo e sem limites que Eliseu Padilha.

Coube a ele convocar dois assessores – Laerte Rimoli e Márcio de Freitas – para baixarias contra jornalistas críticos ao golpe. Jornalistas que se fizeram servindo o lado obscuro da política, não se pejaram em atacar a reputação de jornalistas que ousaram se interpor aos desmandos de seus chefes.

Padilha não se deu conta de que a exibição de poder, ainda mais por pessoa com seu passado, apenas chama a atenção das autoridades judiciais e da opinião pública.

Comportou-se como o gendarme de uma ditadura, quando não passava de inquilino provisório do poder.

Padilha é o lado sujo da política desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Coube a ele, ao lado de Gedel Vieira Lima, o enorme trabalho de cooptação do PMDB para negar a candidatura a Itamar Franco nas eleições de 1998.

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Em janeiro de 2001, em minha coluna na Folha, escrevi sobre ele o que se segue:

O desmonte dos transportes

Dentre todas as áreas do setor público, a que menos avançou foi a dos transportes. A única justificativa para a manutenção do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha (PMDB), é não ceder às pressões do PFL, porque do ponto de vista operacional está jogada às traças uma das áreas fundamentais para a redução do “custo Brasil”.

Aliás, a presença de Padilha depõe contra a aliança que mantém FHC, contra FHC e contra o próprio partido que o indicou -o PMDB. A questão da gestão passou a ser elemento vital. Tendo uma vitrine com a exposição do Ministério dos Transportes, o PMDB poderia escolher o melhor dos seus quadros administrativos para mostrar que está conseguindo assimilar as exigências dos novos tempos. Mas isso não ocorre.

O ministério foi transformado em um mercado persa, em uma troca de favores ampla, virou um arquipélago de feudos que atuam de forma independente, atropelando as exigências mínimas de uma ação coordenada.

A falta de comando de Padilha refletiu-se na própria regulamentação das agências reguladoras no Congresso. Sem um órgão atento que refletisse sobre o tema, o projeto Eliseu Rezende acabou sendo uma composição de todos os interesses, que resultou em um monstrengo regulatório. Em um tempo em que o mundo todo adota o conceito do transporte intermodal (a integração de todos os meios de transporte), o projeto prevê a criação de duas agências em separado, às quais se soma a indefinição em torno do DAC (Departamento de Aviação Civil).

No campo das concessões, as últimas bem-sucedidas datam de 1993, quando o então ministro Alberto Goldmann logrou a privatização de cinco rodovias -entre elas a Dutra e a ponte Rio-Niterói. Em 2000 foram três tentativas de privatização de rodovias federais, todas embargadas pelo fato de as licitações estarem viciadas.

A questão do transporte interestadual continua emperrada, apesar das juras públicas do ministro, há alguns anos, de que iria definir regras claras e não subjetivas para novas licitações, acabando com o cartel do setor.

Não se pretende que FHC vá manter incólume a aliança sem alguma forma de concessão. No entanto há um primado básico que não pode ser desobedecido: o primado da competência e da transparência. E, no caso dos transportes, desobedeceu-se.

No fim de semana, noticiou-se o indiciamento de Padilha devido à contratação de um servidor fantasma. Foi condenado a devolver R$ 300 mil ao erário. É mero aperitivo.

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Se a Lava Jato se dispuser a esmiuçar os acordos das empreiteiras, no período em que Padilha foi Ministro, encontrará mais fantasmas do que nas covas coletivas.

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12 comentários

  1. Ao fim e ao cabo

    Padilha é PMDB , partido conhecido de todos desde antes de 2001. Isto diz muito sobre as consequencias da atual crise.Mas o PMDB tinha a força necessária para atrair aliados em nome do poder.Deu no que deu.Se o destino não mudar as previsões  apocalípticas só restarão lágrimas, entre elas,  as de arrependimento.

  2. figuraço malandro

    Nassif,

    A atual bola da vez esteve enrolado num processo relativo a desvio de recursos da merenda escolar, em Canoas-RS, processo que foi arquivado pelo STF;  de acordo com a “Operação Solidária”, o nobre Eliseu Padilha foi considerado como membro de quadrilha que assaltou o erário, por conta das contratações para a construção de barragens no RGS – salvo engano, este é um daqueles processos que fica pegando poeira numa gaveta de Brasília durante anos .

    Como ministro dos Transportes, o nobre deitou e rolou $$$, ou seja, temer acertou em cheio ao chamar o figuraço malandro para ajudá-lo a arrebentar com o país. 

  3. As ações destrutivas do governo temerário!!!

    Valho-me de um trecho publicado acima , como mote para fazer uma sugestão baseada no que tenho lido sobre o corte dos contratos mantidos até então com os blogueiros….qual seja aquele trecho onde é citado Laertte Rimoli…

    Tem sido publicados, hoje inclusive com detalhes, os valores dos contratos que envolviam publicidade nos chamados “blogs petistas”, cujo valor remonta, salvo engano de minha parte, a algo próximo de 11 milhões de reais anuais.

    Sugestão aos blogueiros chamados pelos golpistas de “petistas”: publicação nos mesmos blogs, tão detalhados quanto possível, os valores recebidos pelos blogs e mídias (rádio, tv, revistas e jornais) do PIG desde o início do Governo Lula em 2003.

  4. E o elemento ocupa o mais

    E o elemento ocupa o mais importante ministério do Governo, a Casa Civil – ou seria Casa Covil?

  5. Fazer o quê, não? O Eliseu –

    Fazer o quê, não? O Eliseu – mesmo sendo o fichinha suja e carimbada, desde quando era apenas (?) corretor de imóveis em Tramandaí – é quem apita o pmdb brasileiro, desde sempre: razão para – até mesmo – os gaúchos não conseguirem entender a postura do Pedro Simon, sempre tão altaneiro em moralidades e, ao mesmo tempo, fã incondicional dos métodos quadrilheiros do eliseu. Resumo bufo: são farinhas do mesmo saco pmdbista brasileiro, sempre enrolados em negociatas da pior espécie ou, quando ascendem ao poder, dos maiores enroladores da administração pública: taí os sartoris que não me deixam mentir (reajusta o próprio salário) e nega qualquer reajuste ao funcionalismo público, a quem acusa pelo desmonte que ele – obrigatoriamente – está fazendo. No meu tempo, o nome era outro, sem contar os três números em que um se repete.

  6. Mas um fanfarrão que vai

    Mas um fanfarrão que vai cair.

    A Globo já pediu a cabeça dele.

    Vai cair dentro de alguns dias.

    Acho que a Globo pede a cabaça desses ministro citados em corrupção, para não “contaminar” o governo Temer. Como se isso fosse passível.

    A Globo acredita que se o governo agir rápido demitindo os corruptos, passa  imagem de governo serio e austero  à população.

    Putz ! Tem muita gente que acredita no governo Temer

  7. Indescritível vergonha. O

    Indescritível vergonha. O Estado que deu ao Brasil Getúlio, Brizola, Jango e (por adoção) Dilma, agora o presenteia com Eliseu Padilha, Lasier Martins e Ana Mélia Lemos.

    O Rio Grande do Sul nunca desceu tão baixo. Nunca foi tão medíocre. Este é preço por acreditar na RBS. A única coisa que tem sobrando nestas plagas é a burrice.

  8. Para compreender esta matéria

    Para compreender esta matéria em sua totalidade é preciso ver o artigo que vem antes, postado no blog.

  9. Padilha era ministro de Dilma

    E até foi por ela escolhido em determinado momento como articulador político, mas declinou publicamente da indicação.

    Gedel foi o articulador político de Lula.

    Só isso nos dá uma idéia do buraco em que nos meteram quem apoiou esse grupo político que assaltou o país e trucidou com a nossa economia.

    Não podemos esquecer o passado com tanta facilidade.

    Há coisa de um ano atrás muita gente torcia pela continuidade desse grupo político PT-PMDB no poder. Sem impeachment, sem crise, sem nada.

    Sabendo do passado desse grupo, tal opção torna-se algo quase imperdoável.

  10. Ah!!!! 300 mil é ridículo. Quero ver abrirem todas as falcatruas

    Ah!!!! 300 mil é ridículo. Quero ver abrirem todas as falcatruas do quadrilha. Este, que desde sempre se locupleta do estado para se lambuzar com os desvios de poder e de $$$$.

     

     Eles pensam que a gente não está nem aí. Na verdade, a gente sabe, que estamos expondo o nosso pescoço, quando nos posicionamos contra eles. Ou seja, trata-se de estarmos lidando com gente da pesada mesmo. E mais uma vez usam o estado, a luz do dia para se safarem das implicações de seus crimes.

     

    Intraduzível tanta bestialidade descoberta por estes governos neoliberais.

     

     

     

  11. + comentários

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