Liberdade Histórias.Prólogo. Foi por um tanomoshi que, em 67, conheci a Liberdade.

No Vale dos Sem Eira Nem Beira os comerciantes para se capitalizar, noivos com casamento marcado e japão-novos que iriam buscar parentes no Nihon para morar no Burajiru recorriam ao Tanomoshi.
Instituição milenar de consórcio de dinheiro, muito popular entre a colonia nihonjin, sempre, era fundada por um prócer da colonia, o Oya (dono) que ficava responsável por arrecadar e abrir os envelopes, mensalmente, com os lances dos participantes, vencendo naquele mes, aquele que oferecesse o maior juro aos demais.
Em troca de todo essa administração, o oya recebia primeiro, sem pagar juros, o dinheiro de todos os grupos por ele fundado.
Meu pai era um comerciante próspero que tinha tres cotas do tanomoshi de um japones chamado Tukuda, que vinha de Toyota Bandeirante, arrecadar os cheques, sempre no mesmo dia do mes, sob os olhares respeitosos da colonia japonesa. < dizem que ele, a cada dia, faz uma rota diferente para dar conta de receber todos os cheques dos participantes, é muito grupo,> dizia meu pai.
Pai era o penúltimo filho de um imigrante uchinanchu ( descendente de Uchiná, atual Okinawa invadida pelo Japão em 1872) que fabricava esteiras de praia e pinga no interior do Vale dos sem Eira nem Beira, até ser <descoberto> por tropas das revoluções  que abdicaram de lutar e pediam < japon, tráz porco… e pinga>.Ao findar a criação de porcos pediam < japón, tráz galinha.. e pinga> O avo, revoltado, quis destruir o alambique, no que foi contido por pai. <um dia essa revolução acaba e os soldados porcos vão embora, e eu vou vender a pinga no comércio beira-trem>
Cedo descobriu sua vocação para o comércio e foi aprender com um japones em C. juntou os tostóes, casou e foi montar uma portinha na vila, tão paupérrima, que ao se descobrir que uma professora da escola fazia 3 refeições diárias ficou conhecida por Vila da Musa que Ceia.( eu prefiro Vila dos sem Eira nem Beira). A economia girava em torno da banana, no início embarcadas em vagões de carga nos trens, e após o alfalto da Rodovia da Morte, via caminhões rumo ao Ceasa.
Pai não dirigia, e aproveitava o retorno dos caminhões vazios e trazia cerveja e refrigerantes da Brahma e Antártica para as festas de casamento e de padroeira, sendo que em festas de santo, pai fornecia a preço de custo, no que era seguido pelos caminhoneiros, sem frete
Um dos ensinamentos de pai, se referia a datas.< não presenteie  nada na data, é tanto presente que as pessoas nem lembram, aos carregadores de cerveja eu dou caixas de meias e lenços em janeiro, aí todo mundo lembra, foi o japa que me deu>.
Pai era ateu, acho, mas devoto de Bom Jesus de Iguape. Sempre que sua mãe, minha avó, adoecia, ao sarar, pai fechava a venda após o almoço no domingo e lá íamos nós a Iguape, onde na Matriz, ele entrava, acendia uma vela. Mãe dizia < ele faz promessa>.
A visão comercial de pai era invejável. Caminhões tinha dificuldade para subir a serra em dias chuvosos? A venda tinha corrente. Máquina Singer para costuras,Chapéus Ramenzoni,Calças Far-West, tenis Bamba, Brim azul-marinho e cáqui para os ginasianos. As vezes, lotava a veraneio de quadros da Santa Ceia, disputados, até, com rezas.Balas e guloseimas eram fartas na venda, cocadas, maria-moles, Pinga Canta Galo, de Vitória de Santo Antão, e todo ferramental necessário ao cultivo de legumes e hortaliças, no que a vila se especializou.Multidões de nordestinos afluiam a vila, substituindo os japoneses rumo a Sampa para < mokire> (ficar rico). Pai fiava a todos para acerto na safra. Uma tarde, na venda, veio um <camarada> que é como eram chamados os empregados, de um Izaltino R. portando um vale em folha de banana de <tantos cruzeiros>. Recusei no que fui interpelado por pai. < vc não está reconhecendo a assinatura? esse Z desenhado e o I? é do Izaltino! vale tal papel.E vendeu.
Também servia de estado, onde ele era sempre ausente.Distribuía cartas, socorria doentes, parturientes na Veraneio ( eu sem carta dirigindo ou um dos caminhoneiros) aos hospitais sem nem ver o dinheiro da gasolina e, nas desventuras, lá ía ele, 4 kms abaixo e 7 palmos idem, enterrar e cimentar seus concidadãos e fregueses, e serrar a tosca cruz de madeira obtidas de caixas de alho.
Seu sonho, oculto, de montar uma distribuidora de bebidas findou, numa bruma de chuva úmida e quente, ao correr a notícia de que o Tukuda tinha fugido para o Paraguai.
< O Joki fugiu, não pagou ninguém, recebeu os cheques e não fez a reunião dos lances e fugiu>
< E os filhos, Ademar e Sérgio?> Não sabem de nada?>
Membros da colonia procuraram os políticos da comunidade que recomendaram denúncias aos generais, até que um dia a notícia correu a colonia.< descobriram que o Joki Tukuda está escondido na Vila Carrão, e tem uma irmã na Liberdade>
Uma vez ao mes, pai vinha de carona de caminhão, passava no Brás, pegava nós ( eu, irmã, primas e seus namorados) e rumávamos ao prédio imenso que tem no meio da praça, quase ao lado do Maku Donadurus. Após os cumprimentos protocolares, pai perguntava. <Joki genki desuká? ( joki está com saúde?Fale que eu mandei lembranças.>
E íamos assitir filmes japoneses no Niteroi, Jóia ou Nippon e jantar no Shangai na Galvão Bueno.
A chinesa dona do restaurante, eu reví por décadas.Lembra do meu pai?<sim,sim! ele não deixava ninguém pagar a conta.lembro de um rapaz, namorado de uma das moças, querendo pagar, seu pai disse. vc trabalha, já? Não? então vc está usando dinheiro dos seus pais, para estudar,  e quer pagar conta? espera formar, aí vc paga!>
Uma noite perguntei ao pai.Só isso? lembranças ao seu irmão? Não fala do tanomoshi?
< Ela não tem culpa , do Joki ter fugido. imagina quantas visitas ela recebe sem a paciencia que eu tenho>
 Então por que voce vem?
<Por que, um pilantra saláfrario tal o Tukuda, ele nunca vai ter paz para gastar o nosso dinheiro, nunca vai saber quanto estamos perto de achar o rastro dele>
Tempos após,um corretor de seguros japones, que era oya dum tanomoshi pequeno em J.morreu.
A viúva, acompanhada do chonan( primogenito) veio falar ao pai.
< podemos pagar tantos por mes>
Pai respondeu. < eu não tenho negócios com a senhora, eu tinha com seu marido L. que infelizmente morreu.A senhora não me deve nada, crie seus filhos e obrigado pela honradez da visita.
Aí me ensinou. < Ce viu? Tem oya-san e oya-san.>
Faz 50 anos. Durante essas décadas pai guardou, diligentemente, cópias dos cheques pagos ao Tukuda. Eu as conservo.Quem sabe ele, um dia, aparece para pagar? Ou os descendentes ganham na megasena
( os caminhões do seu pai viraram basculantes dos filhos do fugido, avisa meu tio)
É como eu sempre fraseio. A esperança é a última que corre.
( nos tanomoshis, o oya deveria ser o único que não corre).

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