Minimalismo: um documentário branco [Diálogos com o cinema]

Admito: o filme me chamou a atenção porque achei que dizia respeito ao movimento artístico e não a um movimento moral. Passada essa frustração inicial, decidi assistir ao documentário de Matt D’Avella, Minimalism: a documentary about the important things (Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes), em cartaz no Netflix (é assim que fala?).

O documentário mostra um pequeno período da vida de pessoas brancas com dinheiro suficiente para ter uma vida confortável sem necessidade de trabalho alienado que descobriram que não precisam mais trabalhar para ter uma vida confortável, desde que abram mão de alguns excessos. Parece tautológico, e é – na minha escala de valores, isso seria o bom senso: trabalho se preciso, se não, vou aproveitar a vida frugalmente. Minimalismo é uma “filosofia” de vida, uma moral, uma ética pós-moderna pseudocrítica que defende uma vida simples, apenas com o que é necessário. Aqui o filme poderia entrar na ótima questão do que é necessário, inclusive ressaltando nossa “segunda natureza”, como diziam Marx e os antropólogos, que nos (im)põe necessidades vitais para além das biológicas – e que são, em boa medida, legítimas. Mas o documentário, como parece ser a própria ética ali exposta, é para consumo rápido, não para refletir, questionar, pensar: é uma auto-ajuda um pouco menos tosca, um pouco menos caga-regras, e com algum potencial para críticas posteriores – se as pessoas estiverem aptas e dispostas a tanto.

Além da branquitude de todos (exceto um entrevistado de terceiro plano), chama a atenção que nessa vida só com o básico (levando em conta as necessidades culturais, deixemos claro), carro não é excesso, por mais que se possa locomover com outros meios de transporte; notebook Macintosh não é excesso, por mais que um aparelho de marca genérica seja capaz de alimentar um blog; uma casa de subúrbio americano, com todo seu fausto (e fastio?), não é excesso; ou se for, uma casa própria, ainda que hipercompacta, é imprescindível. Por mais que o discurso perto do final fale em aprofundar os laços comunitários, o tal minimalismo é uma ética profundamente individualista-possessiva, afim aos ideias americanos, liberais, neoliberais, apenas levemente repaginado pela pós-modernidade com ares do Vale do Silício. Comunidade é bom, mas minha propriedade primeiro. Não por acaso os dois protagonistas, que tomam a maior parte do filme, Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus – autores de um livro sobre a importância de não consumir o que não é essencial que saem em turnê pelos EUA vendendo um livro supérfluo –, conseguem facilmente adentrar a indústria cultural do país, em programas televisivos, para passar sua mensagem “revolucionária”, conforme o segundo negro que tem voz no filme, um qualquer que assiste à palestra dos dois. Seu potencial questionador é aquele que conhecemos aqui no Brasil com filósofos e historiadores pop, ou seja, inofensivo (dou o braço a torcer, Karnal ainda tem alguma substância, ainda que geralmente fique no rés-do-chão; Cortella é de uma precariedade constrangedora, não por acaso até Olavão e Pondé também se considerem filósofos).

Questionamento sobre o modo de produção? Muito superficialmente o filme passa pelo modo de produção de desejo, induzido pela publicidade, mas muito, muito, e bota muito superficialmente, sem nenhuma crítica, está ali só para lembrar: a publicidade nos induz a querer o que não precisamos. Às vezes. Talvez. Mas é do mundo ser assim, não reclamemos, apenas nos vacinemos contra, se for o caso. Produção material? E isso existe? Desigualdade de renda? De oportunidades? Questões sociais, definitivamente, não entram no horizonte dos minimalistas. Sequer a questão ambiental é trazida: não se apela aos desperdício de recursos naturais que a produção de lixo travestido de produtos traz, é tão somente uma tentativa de resposta super narcisista à crise do hedonismo desesperançado do consumismo desenfreado – menos mal que não se desenha, não no filme, como uma religião laica, onde há pecado porém não há deus. E nisso o título é explícito na precariedade dos ideais ali expostos, do egocentrismo, do etnocentrismo do tal minimalismo ético: ouso dizer que no mundo atual, as coisas importantes ainda são a fome, a miséria, o desmatamento, o trabalho alienado, a falta de perspectivas, questões que atingem a enorme maioria dos seres humanis; diminuir o consumo só é algo importante se você não passa fome, se você tem liberdade para escolher onde trabalhar, se vai trabalhar, se quer morar numa casa grande ou pequena, ter carro ou não. Com muito boa vontade, 10% da população mundial talvez esteja nesse patamar.

Ainda assim, para muitos, mesmo nestes Tristes Trópicos, Minimalism: a documentary about the important things pode ser um despertar da consciência. Se for alguém mais crítico – como este escriba se considera – vai ajudar a repensar alguns hábitos (e se indignar com tudo o que o filme negligencia). Se for crítico só até onde não incomoda (como certo pessoal das esquerdas (brancas) da zona sul carioca, zona oeste paulistana), vai aderir a uma onda que pode ser nova moda hypster de expressão da individualidade via consumo gourmet.

 

09 de julho de 2019

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