O caso da primeira cidade a levar internet para todos

A pequena Sud Mennucci driblou a situação nacional de baixo acesso a internet. Situada a 614 km da capital de São Paulo, e com pouco mais de 7.900 habitantes, é considerada a primeira cidade brasileira a levar acesso à internet a todas as residências do município.

Hoje, 70% das residências contam com equipamentos necessários para captar o sinal wi-fi oferecido pela prefeitura, enquanto em nível nacional, apenas 21% das residências contam com esse serviço, segundo dados da Pesquisa Nacional da Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE.

Marcos Okajima, secretário de Desenvolvimento Econômico Social, conta que, até 2002, a cidade não tinha provedor de internet e era obrigada a fazer ligações interurbanas para acessar o provedor da cidade vizinha, Pereira Barreto. A ideia inicial era reduzir os gastos com conexão de internet dos estabelecimentos públicos.

O técnico de informática de prefeitura e um gerente de TI da usina de açúcar e álcool da cidade, foram convidados para estudar alternativas de acesso e concluíram que a melhor saída para Sud Mennucci seria comprar um link de uma operadora e distribuir a conexão pela administração pública.

Para distribuir o sinal, o município optou pela conexão wi-fi (transmissão da rede via ondas de rádio) em vez de interligar canais por fibra ótica, já que o custo de cada metro de fibra ótica instalado na época era de R$ 9 reais, enquanto a instalação da torre de transmissão de ondas para a wi-fi orçava R$ 18 mil.

A implantação da torre ocorreu em 2002. Como sobrava banda do link adquirido, a prefeitura resolveu, em 2003, liberar o acesso a todos os munícipes. Assim, qualquer morador com computador em casa, placa wireless, cabo e antena poderia captar o sinal e navegar na internet. Okajima conta que, naquele ano, o custo para adquirir placa, cabo e antena era de R$ 1.000, por isso nem todos tinham condições de usar internet, apesar da prefeitura não cobrar nenhuma espécie de taxa pelo uso do seu sinal.

“Mas hoje, graças à popularização dos equipamentos e produção em escala para adquirir esse kit de placa, cabo e antena, se gasta em torno de R$ 200”, completa. O secretário estima que são hoje mais de 2.400 residências em Sud Mennucci. “Temos cadastrados, entre imóveis comerciais e residenciais, em trono de 1.800 pontos [utilizando a internet wi-fi]. Isso dá em torno de 70% de cobertura domiciliar com acesso à internet, sendo 9% desse total prédios comerciais”, diz.  

Recentemente o município investiu na instalação de duas novas antenas ampliando para três os pontos de distribuição de internet na cidade. As novas estruturas são israelense e custaram cerca de R$ 10 mil cada. “Essa nova tecnologia reduz as interferências”, completa, um dos problemas do uso de ondas wi-fi.

Velocidade

A prefeitura conta hoje com dois links de entrada para banda de acesso à internet. Um deles é adquirido da empresa Telefônica, ao custo de R$ 6 mil mensais, com potencial de 4 megabytes. O segundo é comprado da Prodesp (Companhia de Processamentos de Dados do Estado de São Paulo), também ao custo de R$ 6 mil mensais, mas são 8 megabytes – “esse é um link do governo do estado comprado, em grande volume, da própria Telefônica, que ganhou por licitação aberta para a Prodesp”, explica Okajima. Em resumo, o município gasta mensalmente R$ 12 mil reais pelo aluguel dos links.

O custo impacta na velocidade oferecida a população. Isso porque o potencial para acesso da comunidade é de apenas 128 kbps, muito baixo para acesso rápido de arquivos que precisam ser baixados por download, como vídeos e músicas. “É importante deixar claro que o conceito de inclusão estabelecido em Sud Mennucci foi para acesso a e-mail e pesquisa na internet, não para download”, ressalta o secretário. Para tanto a prefeitura teria que gastar muito mais do seu orçamento anual, o que não é possível no momento.

Okajima espera que a partir do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), proposto pelo governo federal para facilitar o acesso a internet 72% das residências do país, o custo do link caia significativamente. O valor médio pago hoje por mega no município é de R$ 1 mil, a partir do PNBL poderá ser possível adquirir links a R$ 300 o mega, assim, mantendo o orçamento definido de R$ 12 mil reais mês, a velocidade poderia melhorar em cinco vezes para cerca de 512 kbps.

Segundo relatório da União Internacional das Telecomunicações (UIT), da ONU, divulgado em 2009, o Brasil como um todo é deficiente em termos de conectividade, sendo apontado na 60ª posição num ranking de 154 nações. Argentina é 49º colocada, e Rússia 48º.

Não foi tão simples

Para chegar à condição de cidade da inclusão digital, Sude Mennucci teve problemas com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que por duas vezes enviou técnicos para embargar a distribuição de sinal. Até então, não havia nada que regulasse os serviços de transmissão públicos, apenas as concessionárias tinham o direito de prestar esses serviços, por licença de operação adquirida em concorrência na Anatel.

Após inúmeras discussões envolvendo outros casos país afora, o Conselho Diretor da Anatel aprovou, em março de 2007, nova regulamentação autorizando prefeituras a prestarem serviços de rede sem fio, criando a modalidade Serviço Limitado Privado (SLP), licença adquirida sob a condição de não cobraram pelo serviço de acesso aos munícipes.

Okajima conta que ainda não foi feito um relatório oficial sobre o impacto da inclusão digital no município. Mas, em 2003, quando o acesso foi aberto à comunidade, uma escola de informática abriu em Sud Mennucci e, logo em seguida, abriram quatro novas empresas de venda de equipamentos de informática. Em 2007, fizeram uma parceria com o Centro Paulo Souza para a realização de dois cursos para técnico de informática. Em 2010 a experiência se repetiu. E neste ano uma nova turma será formada.

“Tivemos também uma parceria para um curso de conhecimento básico de informática – de apenas algumas horas – oferecido pela Microsoft onde participaram 289 pessoas”, completa. As quatro escolas do município possuem laboratórios de informática, com cerca de 20 a 30 computadores cada. E na biblioteca conta com um telecentro do governo federal.

Um estudo realizado pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), considerou Sud Mennucci o 80º município melhor para se viver no país, entre todos os 5.564 municípios existentes no Brasil. No tópico Educação, a cidade alcançou a 31ª colocação.

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