O Chile e a curiosa síndrome da negligência unilateral da mídia

Colegas sinceramente entusiasmados com o movimento constituinte chileno, saúdam as propostas em jogo, as prováveis mudanças em um modelo de Previdência que destruiu a perspectiva de uma aposentadoria digna para os chilenos, a privatização da saúde e de todas as políticas públicas. Alguns chegaram a saudar a Constituição cidadã brasileira, de 1988.

Segundo os manuais do Google, a síndrome da negligencia unilateral ocorreu quando, após um acidente vascular, algumas pessoas podem começar a ignorar metade do seu mundo, de acordo com alguns relatos. Uma paciente, por exemplo, deixava de comer metade da comida no seu prato, apesar de ainda estar com fome. Ou desenhar um mostrador de relógio que mostra apenas os números 12 a 6.

A imprensa brasileira sofreu um acidente vascular com o jornalismo de guerra que dominou o setor de 2005 a 2019. De Bolsonaro para cá, a imprensa passou a exercitar uma retórica genérica de defesa dos interesses da população, da racionalidade, da solidariedade social. Digo genérica porque não vai além do bom-mocismo. Mas, ao mesmo tempo, tem que defender as tais reformas, da Previdência, do Estado, da Saúde, que são justamente as causas da rebelião cívica chilena.

E aí dá um nó.

Colegas sinceramente entusiasmados com o movimento constituinte chileno, saúdam as propostas em jogo, as prováveis mudanças em um modelo de Previdência que destruiu a perspectiva de uma aposentadoria digna para os chilenos, a privatização da saúde e de todas as políticas públicas. Alguns chegaram a saudar a Constituição cidadã brasileira, de 1988.

Depois, tornam o chapéu e passam a defender medidas que inviabilizam aa Previdência, cortes na saúde, educação, manutenção da Lei do Teto, privatização selvagem, repetindo acriticamente os mantras do mercado financeiro. Cortes e cortes em gastos sociais, desmonte do Estado e nada sobre tributação do capital.

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Daqui a alguns anos estarão sinceramente saudando a rebelião cívica que, através das eleições ou de uma nova Constituinte, erradicará o bem que eles apoiam que se transformará no mal que eles deplorarão.

Há, de fato, uma crise de informação no país, e a culpa não é só dos fake news de redes sociais.

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3 comentários

  1. “Daqui a alguns anos estarão sinceramente saudando a rebelião cívica que, através das eleições ou de uma nova Constituinte, erradicarão o bem que eles apoiam que se transformará no mal que eles deplorarão.”

    Santa ignorância! Daqui a alguns anos estarão pedindo intervenção militar e o retorno à ordem. Não são as mesmas pessoas, mas são as mesmas idéias de 1964, e qualquer rebelião cívica é vista por essa gente como uma revolta na senzala, e o que resolve isso é pólvora, chumbo e bala. Ainda mais que os revoltosos aqui serão, na maioria, do “crioléu”, essa gente que teima em não aprender o seu lugar e que o único a que têm direito de dizer é “sim, sinhô, não sinhô”.
    A imprensa daqui é aquela que quando a acusação é contra um pobre, o texto diz “cometeu um roubo / estupro / qualquer coisa de que esteja sendo acusado”. Quando é contra um rico, diz “cometeu UM SUPOSTO …”. Rico aqui é “suposto criminoso”. Pobre é criminoso até quando é inocente, ainda mais se for preto.
    Eu não queria pensar assim, mas acabo tendo que dar razão a um dos filhos do Bolsonaro, aquele que diz que tem que morrer uns trinta mil, num golpe sangrento. Ele tem razão. Precisamos de uma Revolução Francesa, precisamos do Terror, precisamos da guilhotina cortando a cabeça, literalmente, dessa nossa aristocracia disfarçada de empresariado. Mas isso não vai acontecer nunca. Eu só torço para morrer antes do destino mais sombrio que imagino para o nosso país, uma iugoslavisação brutal, numa guerra civil em que nosso imenso território e riquezas sejam desmembrados, enfraquecidos e sob o domínio dos EUA / OTAN até que o ciclo imperial americano se esgote ou destrua o mundo numa guerra apocalíptica com a China e a Rússia.

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  2. O jornalista Mino Carta criou duas frases exemplares aplicáveis a estes “Colegas sinceramente entusiasmados com o movimento constituinte chileno” e que, no Brasil, “… tornam o chapéu e passam a defender medidas que inviabilizam a Previdência, cortes na saúde, educação, manutenção da Lei do Teto, privatização selvagem, repetindo acriticamente os mantras do mercado financeiro”.

    1 – No Brasil, jornalista chama patrão de colega.

    2 – No Brasil, os jornalistas são piores que os patrões.

  3. Estive no Chile há alguns anos e seu modelo liberal me impressionou bastante. A ação legislativa é menos corruptiva, um exemplo para o Brasil. Agora, a despeito disso, é um país que embora extenso, não é aquinhoado de riquezas naturais e, sobretudo, de uma indústria nacional pujante. Nessas condições, a função redistributiva do Estado se torna difícil. Reconheço e respeito a utopia marxista, mas não adianta distribuir o que não se tem.

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