O MANTO DA INVISIBILIDADE E OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE NA EDUCAÇÃO FLUMINENSE

O artigo abaixo analisa com profunda lucidez a situação absurda por que passa a educação pública no Estado do Rio de Janeiro. Mais do que o descaso das autoridades com os alunos e com os profissionais de ensino, vemos em curso uma política deliberada de destruição do ensino público.

Segue o texto do Professor Eduardo Paparguerius, postado no site Escolas em Luta:

 

O MANTO DA INVISIBILIDADE E OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE NA EDUCAÇÃO FLUMINENSE

 Posted by  ⋅ 10/06/2011 ⋅ Deixe um comentário

Sobre a escola pública em nosso Estado paira o manto da invisibilidade que costuma cobrir as pessoas e instituições que desempenham as tarefas menos valorizadas em nossa sociedade. Como os garis, guardas municipais e tantos outros profissionais que para todos passam como simples componentes da paisagem, a escola pública é tristemente ignorada pelo nosso povo. Qual dos leitores pode dizer que sabe de fato o que ocorre na escola do seu bairro? Nem os diretamente envolvidos estão interessados, as reuniões de pais de alunos tem baixíssima freqüência. A mídia destina um espaço diminuto e superficial ao serviço público que tem a maior clientela no Estado. Veja como as emissoras especializaram-se: todas têm seus comentaristas de segurança, os detalhes das táticas, equipamentos e legislação das ações policiais são discutidos para o povo ver; há comentaristas de saúde conferindo a estrutura e a ação dos serviços de saúde, divulgando as medidas preventivas, etc. E a educação? Quando em vez surge uma matéria sobre um mestre com um trabalho lindíssimo um grande exemplo (que nunca mais aparece), mais raramente alguma denúncia de uma unidade mais escandalosamente depredada ou sem funcionários (que as autoridades comprometem-se a resolver imediatamente) e olhe lá. Reflexão quase nenhuma, pouquíssima que ultrapasse o senso comum de que a educação é uma prioridade, o futuro, etc …

  A nossa sociedade escondeu a sua escola pública como que no fundo de uma gruta escura, talvez para não ver o feio que está fazendo.Lembro-me bem do início da minha carreira no estado, há longínquos 28 anos. Tinha a sensação de estar entrando em uma classe orgulhosa e feliz com seu papel na sociedade. Via meus alunos pelo Catete prosinhas estufando o peito para mostrar a camisa do Amaro Cavalcânti. Hoje, perto da aposentadoria, vejo meus alunos trocarem de roupa dentro da condução após passar pela roleta ou andar de casaco em tempo quente, com vergonha do uniforme do Estado. Os professores são constrangidos e muitas vezes sentem-se discriminados em situações sociais pelo fato de serem, sabidamente, os profissionais de nível superior com a mais baixa remuneração do mercado (em uma sociedade hedonista e com o capitalismo feroz como a nossa, em que cada vez mais o dinheiro é o Deus). Parece que os tempos do orgulho acabaram e vão dando lugar a um acabrunhamento profundamente melancólico.

Essa invisibilidade permite que hoje, nesse exato instante, interesses econômicos inconfessáveis e governantes inescrupulosos assaquem um ataque de tal maneira malévolo ao nosso ensino, que não encontrei imagem melhor para defini-lo do que através da maldição bíblica dos quatro cavaleiros do apocalipse. Eis então o que o plano educacional do Sr. Cabral nos traz em sinistra e acelerada cavalgada.

A FOME

Já vai longe o tempo em que nosso estado era comandado por homens generosos e patriotas como Darcy Ribeiro e Brizola. Tempo em que havia fartura nos refeitórios das escolas e que as crianças sentiam-se acolhidas. Finalmente chegaram ao poder aqueles setores reacionários que criticavam os CIEPs como obras clientelistas, que ficavam horrorizados com as crianças comendo, tomando banho e brincando na escola. Hoje eu duvido que qualquer facínora sentenciado no Rio esteja comendo pior que nossos jovens. No novo sistema, enquanto não restauram o esquema das quentinhas (de triste memória para todos nós, mas que está em estudo), os alunos possuem um cartão da Oi que tem que passar em uma máquina leitora na hora de receber o prato, a ração (diminuta e sem direito a repetição) e o cardápio (de alto teor calórico e baixo valor nutricional) são controlados pelo nível central da administração.  Nesse novo sistema moderno e informatizado, quem não tem o cartão não come. Os professores e funcionários estão perdendo o direito à merenda, como o salário não dá para comer no botequim, ou traz marmita ou agüenta para jantar em casa. Pobre Darcy que se indignou ao ver pessoas estudando famintas, lá de seu lugar deve estar vendo com tristeza que agora há também gente ensinando com fome.

A DOENÇA

Justamente o governador que acabou com o IASERJ, jogando a família dos servidores estaduais na vala comum do SUS, praticamente obrigando as pessoas a contratarem planos de saúde, agora exige que os servidores apresentem atestados médicos somente do serviço público de saúde e mais, acha que tem muita gente doente e vai contratar uma empresa para tocar o pessoal afastado de volta às salas de aula – que escárnio!

É cada vez mais comum sermos obrigados a trabalhar sem estar em boas condições físicas, eu mesmo já trabalhei com febre e tomando antibióticos, porque achei menos penoso ir até a escola e dar um trabalho dirigido do que ficar cinco horas na porta de uma dessas UPAs da vida sem garantia de atendimento. Muita gente está passando por isso, pagando pelo serviço de saúde sem ter seu tratamento e sua doença reconhecidos pelo Estado. Eu só deixo com o leitor a seguinte pergunta: será que os magistrados, delegados, fiscais e outros funcionários do Estado são obrigados a ir para a UPA quando adoecem? E essa história de mandar de volta o pessoal que está quebrado, muitos em licença psiquiátrica com sérios problemas. Além de gente faminta nossas escolas são povoadas cada vez mais por gente doente.

A GUERRA

A escola é para ser um lugar de paz e harmonia, destinado a produzir conhecimento e disseminar os valores positivos de solidariedade, humanismo e cidadania. Não é isso em absoluto o que acontece: o bullying é regra, conflitos entre profissionais são constantes, conflitos entre docentes e discentes são cada vez mais ríspidos, chegando não raramente até a violência física. E agora a própria administração se encarrega destruir o que resta do ambiente escolar. O tal sistema de meritocracia que os gestores se orgulham de estar implantando é um atentado a ética profissional, o fim da isonomia e vai acabar com o que ainda resta de qualidade em nossas escolas.

Tenho ultimamente assistido estarrecido a colegas meus descerem aos mais baixos degraus da dignidade profissional, prestando-se a papéis inimagináveis algum tempo atrás. Diretores entrando em sala de aula para fazer uma espécie de enquete com os alunos para saber quais os professores mais populares. Qual a mensagem? Srs. Professores cuidem da sua imagem, quem sabe distribuir umas notinhas para melhorar os índices de aprovação da escola não ajude. Ao mesmo tempo o clima de ameaça e dedurismo se espalha com a administração pedindo listas negras dos profissionais que fazem greve ou não aceitam as medidas dessa modernidade. Todo mundo já percebeu que os critérios de avaliação são obscuros e controlados pelos gerentes e chefes, logo a distribuição de eventuais benesses econômicas será como sempre para a turma mais chegada ao poder, logo os arrivistas e aduladores de sempre já estão em campo para disputar o seu quinhão – e com cotovelos pontudos.

Se o governo quer mesmo avaliar a educação e produzir melhores resultados, porque não chamou profissionais especializados capazes de aplicar a boa técnica do ofício? Onde estão os pedagogos nessa história? Na UERJ temos um centro de excelência em educação que é referência para todo o país, com estudos sérios e reconhecidos sobre o fracasso escolar e outros problemas que enfrentamos, porque não mobilizar essa gente? Por que não colocar um educador como titular da pasta da Educação? Por que contratar um economista com uns tantos consultores para aplicar um plano feito alhures se temos em nossa casa as competências necessárias para fazer um bom trabalho?

A MORTE

A resposta está na última e terminal praga infernal, pois a realização integral do plano do governo estadual seria o fim da escola pública conforme concebida pela constituição cidadã de 1988. O fim da liberdade de cátedra e da autonomia do professor, o fim da isonomia dos salários e da paridade para os aposentados, a eliminação da democracia nas escolas, a mediocrização do processo de ensino travestida na pretensa aplicação de novas tecnologias, a perseguição de professores inconformados entre outros malefícios levaria a padrões tão baixos nossas escolas que abriria o campo para a sua privatização. Logo poderemos ver o Infante Dom Henrique virar quem sabe uma unidade da Fundação Bradesco, ou o instituto de Educação virar tipo uma fundação Coca-Cola. Com seus professores, longe de serem homens livres, com a responsabilidade de desenvolver valores importantes de cidadania em sinergia com seus alunos, mas transformados em empregadinhos domesticados capazes de formar outros empregadinhos domesticados.

Para terminar abro um pequeno parêntese para comentar o destaque que tem se dado à modernidade e às novas tecnologias na educação. Costumo brincar com os colegas que o estado anda distribuindo computadores porque o quadro negro não tem corretor de texto. Quanto tempo o leitor acha que o estado ainda vai manter profissionais de nível superior, muitos pós-graduados para atender nossa gente pobre? O Município do Rio já está mostrando o caminho, começando a utilizar um único professor para orientar o estudo de alunos em várias disciplinas. Quem sabe em algum tempo, com o desenvolvimento de softwares mais sofisticados e auto-explicativos qualquer boçal com conhecimentos de informática possa desempenhar essa função.

O processo de ensino não precisa de nada disso, as tecnologias podem ajudar e enriquecer a escola, mas não substituem o relacionamento interpessoal entre alunos e seus mestres. Educar é um ato de carinho, o profissional tem que acompanhar passo a passo o desenvolvimento do aluno, a sua escrita, sua fluência verbal, sua capacidade de compreensão as dificuldades individuais de cada um. As únicas condições necessárias para o sucesso da educação é a existência de um educador que conheça o conteúdo a que se propõe a ensinar e esteja disposto e preparado para fazê-lo e alunos que vejam sentido naquilo que estão estudando e acreditem que estão construindo um futuro melhor, longe dos empregos subalternos e mal remunerados que tem visto seus colegas mais velhos arranjarem.

Eduardo Paparguerius

http://escolasemluta.wordpress.com/2011/06/10/o-manto-da-invisibilidade-e-os-quatro-cavaleiros-do-apocalipse-na-educacao-fluminense/

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