O tempo dá, o tempo tira…, por Mariana Nassif

    O tempo dá, o tempo tira…, por Mariana Nassif

    O tempo é tão importante no Candomblé que é considerado um Orixá. A frase da cantiga que abre este texto traz consigo uma profunda mensagem de que não importa de fato o que ou quanto estamos fazendo, desejando, movimentando – ou qualquer outro gerúndio aplicado às ações – quem determina o que acontece ou não é só o tempo.

    O culto a este Orixá é tão complexo quanto o entendimento da cantiga: é um Nkisi que aparece raríssimas vezes em terra, contempla poucos filhos numa casa de santo e está sempre representado por um mastro com bandeira branca a céu aberto, característica que identifica os ilês para os olhos treinados. Também conhecido como Iroko, suas lendas e histórias são sempre cercadas de muitos mistérios, incompreensíveis aos olhos e ouvidos humanos.

    Trazendo o orixá para a vida real e cotidiana, também é o nosso tempo um dos grandes mistérios incompreensíveis desta existência. Quantos de nós, atualmente,  não vive sob as pressões da ansiedade ou debaixo das demandas da depressão, quase nunca satisfeitos com o que há aqui e agora? Em menor ou maior graus de sensibilidade e sentimentos, basta uma roda de conversas um pouco mais profunda para perceber que o lidar com o tempo é algo que procuramos cada vez mais, mesmo que sejam incansáveis as respostas e variações daquilo que dá conta de que disso, do tempo, nós não teremos o controle.

    Esta mudança de vida, de ritmo, de um tanto, enfim, trouxe experiências intimamente relacionadas à forma como me relaciono com o tempo, e também o Tempo, o orixá, confesso, mais por necessidade do que por desejo. Respira, aceita, respira, chora, respira, fica com medo de que aquilo é um sinal, respira… absorve o tempo e absolve a alma, o controle não é possível.

    Segundo momento, vale saber que de todos os movimentos que me trouxeram pra uma cidade litorânea o que mais garantia alguma estabilidade é o desenvolvimento de meus afazeres profissionais, estes que germinam o sustento. Mas, para o Tempo, estabilidade não é fator considerável, acho que não dá pra deixar que ele nos perceba assim, estáveis, que ele logo quer brincar. É muito amigo de Iansã e seus ventos e movimentos, esse Tempo. Ainda bem.

    A retomada da leitura, das práticas mais solitárias, o prazer em cozinhar com menos pressa de me manter conectada e em busca de. O sono de qualidade, sem interferências e sem uma tela brilhante frente aos olhos. O conversar por voz, tão raro na era do WhatsApp. Recursos que parecem tão banais e que podem ser tão preciosos podem depender de tempo e algum perrengue pra se fazerem lembrados.

    O contato comigo mesma, com minhas aflições e medos, com meus sorrisos e alegrias, o negociar interno com as expectativas – elas existem, sim, e esbravejam quando são renegadas, jogadas aos braços da falsa cadeia evolutiva que culpabiliza o ego. Experimenta não desenvolver devagarinho, com cuidado e com carinho, pra ver como dói.

    A própria prática espiritual, antes ritualizada semanalmente, na Umbanda, hoje muito mais espaçada e sem data definida previamente no Candomblé – o que será que eu posso e o que não posso fazer? Viver esta mudança toda sem o encontro (considero eu) físico com as entidades que me acompanham fez ampliar ainda mais a sensação de solidão. Houve momentos em que pensei que todas as escolhas que fizera estavam equivocadas, erradas mesmo, onde eu estava com a cabeça pra sair de São Paulo pra Ubatuba assim?

    Respira, entende, respira, respira… dorme, experimenta a insônia, tradicional pra mim na quaresma (resquícios da vida de umbandista, onde este é um dos períodos mais pesados do ano, em termos de energias densas e obscuras pairando pela Terra), come bem, come mal, não come.

    Passou, transformou, progrediu. Não foi tão rápido assim. Tampouco tão demorado a ponto de encaixar no julgamento de que perdi o tempo disso, pra isso, com isso. Foi no tempo que o Tempo deseja que seja. E isso, ah, veja bem: não há como ser controlado, nem por mim, nem por ninguém. 

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    6 comentários

    1. Os dois maiores desafios
      A meu ver: Se perdoar e Aceitar a, nem sempre suave, Mão do Tempo sobre a existência. Toda ela. Desde a queda até o inimaginável infinito…

      O primeiro, perto do improvável. Perdoar o outro me parece bem mais fácil.

      O segundo, exercício diário, sentido nos ossos, no cabelo, na pele, mas principalmente e, tantas vezes dolorosamente, na alma. Essa alma que, já envelhecida e surrada, se descobre infante diante do tanto a aprender, e do tanto a relevar. E o pior: respeitando, sem choro nem vela, o Tempo mesmo de tudo, o pulsar que é do respirar do Universo, não o meu. Não o nosso.

      Muito bacana este teu texto. Mas “Respira, aceita, respira, chora, respira, fica com medo de que aquilo é um sinal, respira… absorve o tempo e absolve a alma, o controle não é possível.”, LAPIDAR.

      Poderia eu prolongar (olha o tempo aí de novo!) esse comentário por umas outras tantas 55.000 linhas. Mas meu tempo já é outro.

      Parabéns!

      Tempo, tempo, tempo…

    2. beleza de texto e comentário…………………….

      vou guardar até encontrar e comparar com o que escrevi uma vez e entreguei a ele, a Tempo…………………………..

      eu tentava com arremedos de poesia nas quais eu não existia

      logo, sem ter muito o que dizer, na época, sobre o fato do Tempo dar sentido ao princípio da incerteza…………………………………………..

      vou procurar fora da ciência………………………………..para depois viver

    3. Apaziguar-se com esse Orixá, é viver com sabedoria

      Raramente acontece na juventude. Creio que só depois dos cinquenta ele, definitivamente, pôe o seu olhar sobre nós. Deve ser o olhar e a escuta mais apurados e tranquilos que aos poucos desenvolvemos. Respirar na umbanda, no Candomblé, no centro espirita, na igreja diante do seu santo de fé, à beira da praia ou na floresta, pode ser a chave para Tempo lhe tomar como seu. Dona Canô, Mãe Menininha, Dom Helder, Mãe Stella, Mandela,  Lula, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer todos eles foram ou estão sob o manto deste grande Orixá.

    4. Não é fácil aceitar que não

      Não é fácil aceitar que não temos controle de nossas próprias vidas.

      Deveria ser difícil acreditar que algo ou alguém controla nossas ações por razões que ignoramos, mas não é.

      A vida, contudo, sempre seque seu curso.

      Nem a depressão nem a euforia, nem a credulidade nem a insanidade, são capazes de interromper seu curso.

      Viver é um fato biológico temporário.

      Basta estar vivo.

      Nenhuma crença é essencial.

      Não existe essencia divina capaz de interromper o tempo, reparar as perdas ou evitar a morte.

      A vida é uma promessa irônica de felicidade que se transforma em seu oposto exatamente no momento em que acreditamos nela.

      Viva a ironia. Nada mais. 

       

    5. vemos a vida de hoje assim…

      e recusamos resgatar qualquer “primitivismo” no que já fechamos

      e fechamos para ou por isso mesmo, sem sentimentos, apenas para dar fim às incertezas, mas não as da vida, em nós mesmos

      vivemos?

    6. o tempo é nosso barco existencial………………………

      mas as descobertas nas fases de nossas juventudes não são viivências, como muitos ainda acreditam

      nosso vento é outro, um que não nos permite aportar, cruel, implicante, lançando tudo longe………………………………………….

      ou silenciando, escondendo ou apagando

      como já teimei expressar uma vez, como sendo um leque de opcões em demasia que nos tira o tempo de viver

      mas há como se livrar, seguir adiante, fechando a fase anterior antes de desejar alcançar a próxima

      para começar tudo de novo ?………………………………..nem sempre

       

      eu só me encontro a sós e isto não tem nada a ver com gostar da solidão nem com quem quer que seja

      acredito que só não acontece com todos porque nem todos permitem que a fase anterior seja fechada

      vivem delas, das anteriores

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