Rumo a um ciclo virtuoso na política?

Estabilizar a democracia como ponto de partida e não de chegada

Os movimentos de estabilização da política realizados ao longo da semana pela presidenta Dilma e pelo vice-presidente Michel Temer tendem a prosperar e permitem vislumbrar um cenário de ressubordinação da oposição, de ganho de peso do PMDB e de reconhecimento de que, apesar de muito diferentes, PMDB e PT formam nessa fase da nossa história, uma totalidade maior, independentemente da vontade de cada um dos dois partidos.

Quero crer que o PMDB compreendeu o que estava por trás da generosidade do PSDB em querer cassar Dilma e entregar o poder a Michel Temer: um presente envenenado destinado a ser “doce na boca e amargo nas entranhas”. Aprofundei noutro artigo essa ideia.

O ganho de importância do PMDB como alicerce incontornável da legalidade, fazendo jús a sua história de agremiação que foi constituída como polo democrático e de oposição à ditadura, fortalece as aspirações eleitorais do PMDB nas próximas eleições quando pretende emergir com fisionomia própria ante o PT que há doze anos detem a hegemonia no Poder Executivo.

Antevejo que essa postura responsável do PMDB terá papel muito importante na derrocada que o PSDB sofrerá nas próximas eleições, o que ocorrerá inclusive em razão do afastamento desse partido das suas bases empresariais.

Tendo sido o maior garantidor da estabilidade política e econômica do país, salvando-o de fato do caos em que teria sido mergulhado se o impeachment prosperasse, o PMDB herdará o espólio de um PSDB desacreditado pelo seu novo rosto irresponsável, coronelista, agrário e golpista. Convertido num grande DEM o PSDB perdeu legitimidade junto aos setores da burguesia que não parecem muito inclinados a dar gás golpismo. Ponho as minhas fichas na aposta de que, tal como o DEM, o PSDB ruma para o precipício.

O PT, por sua vez, se tornou, queira ou não, devedor dessa lealdade interessada do PMDB, único alicerce a salvar numericamente o governo de um desgaste maior (a abertura do processo de impeachment) que produziria consequências danosas ao Brasil e à democracia, é certo, mas sobretudo ao PT.

Para além dessa análise de varejo, vale observar que o cenário de longo prazo, (que sustenta e dá vida a esse varejo) posiciona, apesar das vontades de cada um dos dois partidos, a aliança PMDB/PT não como uma casualidade, mas como uma inevitabilidade histórica.

Sedimentado na luta contra a ditadura, que teve como protagonistas políticos os partidos que deram origem ao DEM (ao qual o PSDB, por burrice e rancores foi assimilado), o PMDB disputa a política em cada município brasileiro contra essas forças. A chance de uma aliança do PMDB com esses partidos da direita mais atrasada e agrária é mínima. Raros são os Estados onde ocorre.

Com o PT ocorre o mesmo, e, embora também dispute com o PMDB nos grandes centros, tem em comum com esse partido os mesmos adversários. A política de alianças, bem antes de ser uma decisão de vontade, é um dado do mundo real, uma geografia antes de ser política.

Então, se o PMDB vier a ocupar o lugar do PSDB como força representativa dessa burguesia a quem a instabilidade não interessa e se ao PT tampouco interessa instabilizar o Estado de direito tão duramente conquistado, teremos alcançado uma aliança que compartilha adversários comuns e interesses estratégicos comuns.

Se isso for verdade, como creio que é, pois se trata apenas da redescoberta dos pressupostos que nos conduzem a uma aliança que já existe e governa,  devemos concluir que, enquanto essa direita agrária e colonial tiver força para disputar o poder a aliança entre o PMDB e o PT deverá ser mantida.

O que ocorrerá nas próximas eleições será a disputa pelo PMDB da hegemonia na aliança, quando apresentará candidatura própria à presidência da República.

O que os dois partidos devem entender é que se o PMDB ganha a presidência deve formar aliança para a governabilidade com o PT e se o PT for vitorioso deve formar aliança com o PMDB, como já o faz. Isso não é propriamente uma opção, é uma necessidade. Claro que para além dos dois partidos há diversos outros que também compõem o mesmo campo e dão sustentabilidade ao projeto democrático e desenvolvimentista.

Se isso ocorrer rumaremos para um ciclo virtuoso da política brasileira onde as forças nacionais e democráticas compartilharão de forma estável o poder no Estado e poderão afirmar um processo de desenvolvimento nacional soberano.

Quando essa direita agrária e colonial deixar de representar um polo real de disputa do poder no Brasil a aliança PMDB/PT não será mais necessária. Nesse dia haverá tão somente a direita, a esquerda e a arena das lutas: o Estado de direito.

Mas isso não é ainda motivo de alegria. O problema maior para o PT e para a esquerda não é tanto o de fazer alianças e estabilizar a democracia, mas o de saber profundamente o que fazer com o poder que terá e  tem no plano da sua missão histórica. O problema de amanhã, que já é o problema de hoje, é e será o de entender e desvendar as conexões entre o exercício do poder e as perspectivas que ele abre para a transição a essa sociedade futura que é a missão histórica da esquerda: o socialismo, cuja natureza também deverá ser entendida. Se não souber o que fazer vai continuar fazendo o que já faz: gerir os interesses do capital, sem visão de conjunto ou de longo prazo, sem rumo, sem tática e sem estratégia que não seja, como diz o spot publicitário, “fazer muito mais”.

Se não resolver esse enigma talvez consiga estabilizar o teatro de operações que é o Estado de direito, mas terá papel secundário e coadjuvante nesse cenário estável. Ou entende e cumpre o seu papel histórico ou definhará.

Decifra-me ou te devoro.

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