Semifinais da copa: antes do inverno russo

As Semifinais da Copa do Mundo no Brasil serão muito especiais. Só jogo grande. Isso significa que qualquer resultado não será surpresa. Surpresa só acontecerá se uma das Seleções jogar muito mal e sofrer uma goleada. Isso todo mundo descarta, menos os loucos. A loucura não faz parte da previsão, mas é um fator inesperado que, se não ajuda a explicar o que acontece, ajuda a aceitarmos o inexplicável. Loucura seria se a Copa do Mundo fosse permanente. Como não dá para ir às raias da loucura, pergunto: quem são os favoritos à final nas semifinais de hoje e amanhã? Uma final sul-americana ou europeia? Ou um teste de supremacia do futebol de um time sul-americano contra um europeu?

As seleções menos tradicionais que mais brilharam nessa copa foram Costa Rica, Colômbia e Chile. A Argélia fez uma grande exibição contra os alemães. Deram um enorme trabalho aos adversários. A estrutura tática e o jogo coletivo superaram outras deficiências. Só a Colômbia tinha um diferencial, o craque James Rodríguez, que fez o gol mais bonito do mundial até aqui. A aplicação tática foi o destaque desses times. A retranca armada pela Costa Rica contra a Holanda seria muito criticada se fossem os brasileiros, os alemães ou os argentinos que a impusessem. Ficar mais cauteloso para não ser surpreendido pela seleção de futebol considerada “pequena” significa um novo equilíbrio de forças no futebol mundial. Havia um grande equilíbrio nessas partidas, o que tornou a Copa mais atraente como torneio, pois envolveu mais os torcedores e arrastou esperança aos estádios brasileiros. Estádios que agora foram devidamente batizados pelos torcedores com seus coros de vozes, choros e alegorias. Os deuses do futebol foram abrigados a levantar dos tronos de pedras frias.

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A aplicação dos pequenos criou enormes dificuldades pros grandes. Estou falando das Grandes Seleções Europeias e das Grandes Seleções Sul-americanas contra os pequenos latino-americanos, asiáticos e africanos. Faço uma ressalva em relação aos africanos, pois acho que eles desaprenderam mais que se aprimoraram no futebol com os técnicos europeus nos últimos anos e os asiáticos tiveram um desempenho pífio nesta copa. 

Para mim, a questão fundamental é que os pequenos ganharam em aplicação tática e os grandes europeus e sul-americanos, ao se adaptarem ao jogo duro, perderam em imposição técnica. Ou, como dizem os comentaristas profissionais, as grandes seleções se sentiram impedidas de imporem seu estilo de jogo em toda plenitude. Algumas foram até derrotadas na fase de grupos. O fator surpresa tendeu a jogar a favor dos pequenos naquele momento. Já nas Oitavas e Quartas de final predominou o jogo dos times “grandes”, inclusive nos pênaltis. O pequeno conseguiu se igualar ao grande foi a lição desta copa. Isso é a essência de um torneio curto, especialmente quando os times considerados pequenos tornam-se taticamente muito aplicados.

A copa promove revoluções e reformas no futebol. A meu ver, ela existe pra isso. Afinal, mobiliza corações e mentes, conjunturas e até estruturas carcomidas das federações locais. Renova padrões de comportamento e de envolvimento humano. Dita novos rumos ao futebol internacional. Por tais motivos, nada parece ser trivial numa copa do mundo, mesmo as mais chatas acarretaram mudanças. Novos personagens e heróis surgem. Novos líderes e craques se revelam dentro de campo. Novos estilos de jogo se afirmam e novas mentalidades ganham força. Fatores extracampo alteram esquemas viciados como o da máfia dos ingressos e os novos legados, além dos esperados, despontam. Em vez da copa, as revoluções é que precisam ser permanentes.

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Dadas as características desta copa, o próprio favoritismo dos grandes times deixa de ter maior significação. Vários serão os argumentos em favor de um ou outro time, mas nenhum deles pode ser baseado somente em expressões do tipo “vamo que vamo”, “agora é de qualquer jeito”, “a gente se segura como pode”. Esquece. Entre grandes, tudo pode acontecer e todos jogarão o que sabem e a seu estilo. Dizer que agora é raça e coração funciona pra torcida. Porém, que ninguém duvide que esses times sejam iguais nisso. Os grandes sabem que o que decide um jogo é o algo mais, o detalhe de um lance, o lance perfeito e, inclusive, o casual. O dia do goleiro ou de um atacante também decide. E isso só o jogo é capaz de dizer. Nenhum de nós. O futebol reinventou a tragédia, no sentido grego, e desafia os iluministas. Torcemos em plena ignorância. Sábio só o coração.

Outra importante coisa a constatar nesta copa é que, das quatro seleções semifinalistas, apenas a Holanda não foi campeã mundial. Ela, como se diz, “corre por fora”. Nem isso é mais tão verdadeiro assim. “Corre por dentro”. Considero a Laranja no rol das grandes seleções por ela ser a atual vice-campeã mundial e pelo excelente time que tem. Eu acrescentaria ainda outro fato, o de ela ter um jogador especial: Robben. Como corre! A presença de um jogador decisivo como ele iguala Argentina e Holanda. E os argentinos que não se descuidem. No caso do confronto entre Brasil e Alemanha, os alemães não têm apenas um time melhor, contam com seus desenganos para superar receios. A Alemanha perdeu um título mundial em 2002 para o Brasil, foi desclassificada na última copa pela Holanda e só tem um histórico positivo frente aos argentinos. Os alemães querem muito voltar à final e ter a chance de ser campeão mundial outra vez. Isso deve ser levado em conta hoje. No Brasil, a ausência de Neymar também muda muita coisa. Um craque como ele sempre fará diferença em qualquer equipe. Não se trata de um luto, mas de um lugar ou de vários lugares do campo que ele não poderá preencher no jogo de hoje. Quando um companheiro olhar pra um lado e pra outro não vai encontrá-lo. Isso obrigará o time a pensar mais e a cadenciar o jogo. Craque é sinônimo de chuva com sol e calor no inverno. Se agrupar mais o time, as chances brasileiras aumentam. O jogo mais coletivo igualará Brasil e Alemanha. Um jogador decisivo de cada lado igualará Argentina e Holanda. Essa será a grande glória destas semifinais. Quem for à grande final irá coberto de glórias.

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Resta-me responder à pergunta “quem é favorito?”. Como deu para perceber, na verdade, não há. Vamos assistir aos jogos, pois é nesta terça e quarta-feira que essas quatro grandes seleções europeias e sul-americanas vão disputar pra valer o sentido do futebol e da vida. Não vamos ver isso tão cedo em outra copa. Antes do inverno russo, torço pela final entre Brasil e Argentina. Seria a glória final. O resultado dessa partida poderá mudar para melhor o futebol brasileiro. Se não der, ficará mais longo o inverno…

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