Xadrez do desfecho final do caso Marielle e os Bolsonaros, por Luis Nassif

Há tempos essas informações estavam disponíveis. Foram deixadas de lado por uma leniência irresponsável em relação a Bolsonaro, dando gás à família enquanto aguardavam o desmonte final da Constituição de 88

Peça 1 – os levantamentos sobre as rachadinhas

De um thread da repórter Juliana Dal Piva, de O Globo

 

Peça 2 – as investigações do MPE Rio de Janeiro

Reportagem do The Intercept mostram que as investigações do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro concluíram que o dinheiro das rachadinhas era aplicado em especulação imobiliária na Zona Oeste.

Segundo a reportagem,

“Os investigadores dizem que chegaram à conclusão com o cruzamento de informações bancárias de 86 pessoas suspeitas de envolvimento no esquema ilegal, que serviu para irrigar o ramo imobiliário da milícia. Os dados mostrariam que o hoje senador receberia o lucro do investimento dos prédios, de acordo com os investigadores, através de repasses feitos pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega – executado em fevereiro – e pelo ex-assessor Fabrício Queiroz”.

O esquema funcionava assim, segundo o MPE=RF:

  • Flávio pagava os salários de seus funcionários com a verba do seu gabinete na Alerj.
  • A partir daí, Queiroz – apontado no inquérito como articulador do esquema de rachadinhas – confiscava em média 40% dos vencimentos dos servidores e repassava parte do dinheiro ao ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, uma milícia especializada em assassinatos por encomenda.
  • A organização criminosa também atua nas cobranças de “taxas de segurança”, ágio na venda de botijões de gás, garrafões de água, exploração de sinal clandestino de TV, grilagem de terras e na construção civil em Rio das Pedras e Muzema.
  • As duas favelas, onde vivem mais de 80 mil pessoas, ficam em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, e assistiram a um boom de construções de prédios irregularesnos últimos anos. Em abril do ano passado, dois desses prédios ligados a outras milícias desabaram, deixando 24 mortos e dez feridos.
  • O lucro com a construção e venda dos prédios seria dividido, também, com Flávio Bolsonaro, segundo as investigações, por ser o financiador do esquema usando dinheiro público.

Peça 3 – a suspeita que se perdeu no ar

No dia 14 de dezembro de 2018, o repórter Marcelo Godoy, do Estadão, entrevistou o Secretário de Segurança da intervenção no Rio de Janeiro, general Richard Nunes.

Leia também:  A longeva aventura de José Serra na corrupção política, por Luis Nassif

A conclusão do general é taxativa:

“A vereadora Marielle Franco (PSOL) foi morta porque milicianos acreditaram que ela podia atrapalhar os negócios ligados à grilagem de terras na zona oeste do Rio.

A entrevista mostra que, desde 2018, já havia um caminho claro para desvendar o assassinato.

General, o caso Marielle foi uma afronta à intervenção?

Não foi. O que entendo hoje é que os criminosos superestimaram o papel que a vereadora poderia desempenhar. Era um crime que já estava sendo planejado desde o final de 2017, antes da intervenção. Isso aí nós temos já; está claro na investigação. O que aconteceu foi o contrário. Os criminosos se deram conta da dimensão que tomou o crime por ter sido cometido na intervenção. Não podemos entender como afronta porque eu assumi em 27 de fevereiro. E dei posse a

Ela estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos, onde interesses econômicos de toda ordem são colocados em jogo. No momento em que determinada liderança política, membro do legislativo, começa a questionar as relações que se estabelecem naquela comunidade, afeta os interesses daqueles grupos criminosos. É nesse ponto que a gente precisa chegar, provar essa tese, que está muito sólida. O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos.

Como ela colocaria em risco?

A milícia atua muito em cima da posse de terra e assim faz a exploração de todos os recursos. E há no Rio, na área oeste, na baixada de Jacarepaguá problemas graves de loteamento, de ocupação de terras. Essas áreas são complicadas.

A atuação dela seria de fazer…

Uma conscientização daquelas pessoas sobre a posse da terra. Isso causou instabilidade e é por aí que nós estamos caminhando. Mais do que isso eu não posso dizer.

O sr. ou a intervenção receberam pressões por esse crime?

Zero. O que há é muita especulação. Houve um movimento para tentar federalizar esse investigação totalmente desprovido de fundamento. Então foi um incômodo que não auxiliou em nada a investigação. Houve essa sugestão sob a suspeita de que a Polícia Civil não estaria fazendo um trabalho isento. Isso não tem fundamento. Temos de ter muito cuidado em não dar voz a criminosos que se encontram preso e colocam em xeque o processo de investigação (ele se refere á acusação feita pelo miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando de Curicica, um dos suspeitos de participar do crime). É um absurdo em uma nação democrática colocar em xeque uma investigação a partir do depoimento de um preso.

Peça 4 – as conclusões

Tem-se aí todas as peças do jogo:

  • As informações de que o dinheiro da rachadinha era administrado por Queiroz
  • O inquérito do MPE-RJ mostrando que o dinheiro era aplicada na construção de imóveis irregulares na Zona Oeste, e administrado por Adriano Nóbrega, o miliciano morto na Bahia.
  • A informação do general Richard Nunes, Secretário de Segurança do Rio no período da intervenção, de que o assassinato de Marielle se deveu a problemas que causava na especulação imobiliária da Zona Oeste.
Leia também:  Clipping do dia

As demais peças do jogo já estão disponíveis há tempos.

  1. A chegada dos assassinos de Marielle no condomínio de Bolsonaro, no dia do assassinato.

O porteiro do condomínio assegurou que eles pediram para falar na casa de Bolsonaro. O Jornal Nacional engoliu a explicação de que, por estar em Brasília, Bolsonaro não poderia ter recebido a ligação.

Mostramos aqui que o sistema de telefonia não era por interfone, mas um sistema que permitia transferir as chamadas para telefones fixos ou celulares de condôminos.

  1. A presença de Carlos Bolsonaro no condomínio, no mesmo momento.

Sobre esses dois pontos, há informações detalhadas no “Xadrez de Bolsonaro, Marielle e como está sendo sua blindagem”, em 10.02.2020.

Há tempos essas informações estavam disponíveis. Foram deixadas de lado por uma leniência irresponsável em relação a Bolsonaro, dando gás à família enquanto aguardavam o desmonte final da Constituição de 88

 

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12 comentários

  1. Parabéns pelo belo trabalho jornalístico. Até cego pode ver que o país está sendo (des)governado por um bando de criminosos organizados.

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  2. Falta uma peça importante nesse xadrez:
    Possível em candidatura de Marielle ao senado.
    O PSOL lança parlamentares com mandado municipal mais destacados aos principais cargos federais e estaduais das eleições seguintes.
    O vereador Tarciso saiu candidato a Governador. A vereadora Marielle provavelmente seria candidata ao senado.
    Já o deputado Flávio candidato só senado e seu pai candidato a presidente ainda não estavam com essa bola toda.
    Ainda não havia facada.
    Embora notícias do jornal O Globo do dia seguinte a morte de Marielle afirmasse que ela seria candidata a vicegovernadora, os adversários não sabiam disso. E o PSOL nunca confirmou.

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  3. Falta uma peça importante nesse xadrez:
    Possível em candidatura de Marielle ao senado.
    O PSOL lança parlamentares com mandado municipal mais destacados aos principais cargos federais e estaduais das eleições seguintes.
    O vereador Tarciso saiu candidato a Governador. A vereadora Marielle provavelmente seria candidata ao senado.
    Já o deputado Flávio candidato só senado e seu pai candidato a presidente ainda não estavam com essa bola toda.
    Ainda não havia facada.
    Embora notícias do jornal O Globo do dia seguinte a morte de Marielle afirmasse que ela seria candidata a vicegovernadora, os adversários não sabiam disso. E o PSOL nunca confirmou.

  4. Há uma hipótese que não deve ser descartada, Marielle seria candidata a senadora e isso atrapalharia os planos de Flávio Bolsonaro de se eleger. Na lógica dos assassinos…

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  5. Não se sabe qual é a mais perigosa: a gangster dos Bolsonaros ou a de Curitiba da Lava Jato. Uma é tosca, violenta, armada. Outra é dissimulada, formado por “uomini d’onore”, engravatados de aparente honra infiltrados em Instituições Públicas e Privadas.

    Amedronta-me mais a de Curitiba.

  6. Senhores, dados os últimos acontecimentos e o desembarque geral, principalmente pela Globo, da nau bolsonarista, acredito que, como diria William de Baskerville, o clã bolsonaro já é “carne queimada”.

    Não nós distraiamos. O inimigo a ser combatido volta a ser o antigo: o mouro, sua lava-jato e seu projeto de poder, hoje mais forte que nunca

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  7. O xadrez se equivoca aqui. Acerta sem querer em pontos adjacentes.

    Marielle nunca atuou no território da família Bolsonaro, a zona oeste.

    A versão de que havia um escritório do crime requer um nível de sofisticação que as milícias não têm até hoje.
    Essa versão acabou por empoderar muito mais esse grupo, dando-lhe uma organicidade inexistente.
    Isso já aconteceu antes com a construção de outros “inimigos públicos”, feita pela mídia e pelos grupos de interesse que disputam a hegemonia política tendo a segurança pública como plataforma.
    Se esse grupo agiu foi como mero intermediário.
    A suspeita ligação com a família presidencial nunca foi novidade.
    E também serviu como argumento de coação por aqueles que os tutelam.
    Vamos aos fatos:
    Milícia nunca ou quase nunca abate seus alvos fora de suas áreas. Isso é dado disponível (ISP. TJ. MP. etc).
    O alvo nunca foi da relevância dada a ela. Mas ela estava perto de conclusões bem mais perigosas ns CPI dos transportes, grupo que é uma das poucas organizações com poder para agir a margem da lei e mudar o foco.
    Favor checar as delações premiadas ligadas ao setor (Jonas Lopes de Carvalho, joninha, e do dono da viaçao 1001) para se ter a dimensão explosiva da ação do grupo e sua capilaridade (ver Barata e Gilmar Mendes).
    O modus operandi do crime indica que o atirador sabia(mesmo sem ver o alvo pela película de filme escuro – “insufilm”) onde estava o alvo.
    Isso requer outros instrumentos de mira térmica na arma.
    Milícia desce di carro e dispara 100 dusparos de dois ou três atiradores com fuzis.
    Mata e manda o recado.

    Há muitas outras incongruências.

    No entanto a percepção de que o crime assumiu dimensão maior que tinha é correta.
    E tal dimensão é que serviu a tantas narrativas(inclusive por quem se diz aliado de marielle) e impediu a correta investigação.

    • Blz, Felipe, mas quem falou da questão territorial foi o general; Nassif apenas deu por certo. Mas eu também já vi a viúva de Marielle falando algo sobre isso. Quanto aos tiros, lembremos que mais de cem fuzis importados estavam sob o poder do assassino vizinho de Bolsonaro, cujo nome esqueci.
      Quando das investigações da lava jato, o grande mote era “quem não deve não teme”. A família Bolsonaro tem tentado de tudo para impedir investigações. Qual seria o motivo? Você tem alguma explicação para o crime e suas motivações?

  8. Nada mais canalha e sem carater que gravar uma conversa com a intenção de vaza-la, ali vc pode induzir o interlocutor a dizer impropriedades ou lançar frases feitas como o tal “não estou à venda”…….aliás, semelhante ao que o novo paladino da moralidade fez com o grampo sem audio, o unico no mundo em que os gravados se autoelogiam, tão falso que um foi parar atrás das grades…..e pensar que só no poderoso chefão o padrinho era canalha…….

  9. O causador de tudo isso que destruiu o Brasil, desembocando na chegada do bozo à presidência, foi Moro. Essa é a verdade. E pior, tendo sido, ele e os procuradores, treinados para isso pelo governo americano. E fica por isso mesmo, pois nossa dita, ‘elite ‘, sabuja e lambe botas, diga-se, continua dando todo apoio. E nossa esquerda é desunida e frouxa. Fica nas notas de protestos.

  10. Nassif,se possível entrevista a doutora Elnara Negri,pneumologista de sp q faz um tratamento de Coronavirus com quase 100 por cento de cura !!!

  11. + comentários

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