Sobre o Custo do Controle do Aquecimento Global, por Luís Antônio W. Bambace

Os impactos sociais e custos das possíveis escolhas são muito diferentes, mas mudar é absolutamente necessário.

Sobre o Custo do Controle do Aquecimento Global

por Luís Antônio W. Bambace

Stiglitz, Nobel de economia de 2011, perguntou se um governo numa questão de vida ou morte, como a resposta a uma invasão, se preocuparia com custos da guerra e disse que no item salvar o planeta vale o mesmo. Mas substituir os combustíveis fósseis pode ser mais barato que manter seu uso, dependendo das opções adotadas. No debate específico há 4 grupos, os alienados e os que querem: manter a situação atual, ganhar muito com um novo cartel de energia e que as coisas sejam feitas direito. Os impactos sociais e custos das possíveis escolhas são muito diferentes, mas mudar é absolutamente necessário. O aquecimento global prejudicará a agricultura, gerará secas, inundará cidades litorâneas entre outros males.

Lembremo-nos da opção caminhão ou trem do Brasil. Dá para fazer facilmente hoje uma transição para o trem, ou os caminhoneiros ameaçados com a mudança pararão o país? É muito mais difícil corrigir uma má escolha num sistema social, do que fazer certo logo na primeira vez. Daí a importância do debate antes de se fazer opções.

Pode-se substituir os combustíveis fósseis por biocombustíveis convencionais (álcool de milho, cana ou beterraba, biodiesel), biogás, derivados da pirólise de matéria orgânica, H2 de decomposição fotocatalítica da água e biocombustíveis de organismos unicelulares. Esta última uma tecnologia inicialmente militar da década de 1950. Preocupado com a questão de falta de combustíveis para tropas sitiadas, o exército dos Estados Unidos pesquisou o uso de algas unicelulares para produzir diesel. Em 1955 produziram 355 toneladas de matéria seca por hectare/ano e desta tiraram 90 toneladas de diesel. A tropa jogava um saquinho algas em um lugar com água e minerais, elas se multiplicavam com a luz do Sol, parte da biomassa era fermentada gerando álcool, com este álcool e o resto das algas se gerava diesel por transesterificação. Postos de combustível da Califórnia vendem biodiesel feito com esta técnica a US$ 0,70 o galão. 

O exército brasileiro optou por produzir álcool direto, tendo um recorde de 300 toneladas por hectare/ano. O custo deste álcool é bem menor que o do método tradicional, que já é competitivo com o custo da gasolina É possível que seja de US$ 7 para cada 225 litros de álcool, que tem a mesma energia que um barril de petróleo, mas há sigilo sobre este preço. A cotação do petróleo beira 40 US$/barril, e só a Arábia Saudita com extração a 5 US$/barril tem custo inferior a 7 US$/barril. E ainda há custos de transporte e refino. Para cultivá-las basta circular água com minerais em circuito fechado, com apoio de energia solar, em lugar onde haja sol em abundância. Diferenças de preço de 30 US$/barril para menos de biocombustíveis de algas unicelulares aplicadas sobre 74 milhões de barris por dia perfazem US$ 2,12 bilhões por dia que mudam de mãos. Só a Arábia Saudita lucra diariamente US$ 1,4 bilhões. Quem ganha tanto, não quer ver seus ganhos caírem nem com carros mais eficientes, nem com a concorrência de novas fontes de energia, nem com transporte coletivo eficaz e barato.

Com índices de colheita, razão das massas seca útil sobre a total, menores que 50% no campo sabe-se que ao menos um montante igual a colheita mundial de grãos pode gerar biocombustíveis a baixo custo, substituindo mais de 30% do petróleo consumido hoje. Pode-se tocar qualquer fazenda com biogás gerado nela, dividindo por 5 os custos com óleo diesel, é só visitar São Gabriel D’Oeste, onde a pequena retífica Rieger converteu motores diesel para biogás e obteve motores de 40% de rendimento. Já a nossa indústria de equipamentos agrícolas não tem trator a gás. Porque não há esta opção? Nossos biodigestores são poucos e todos de baixa temperatura, incapazes de digerir lignocelulose e lignito e de recuperar toda a energia da biomassa. Fora a questão de extração de CH4 de represas.

A questão não é quanto custa, mas quem ganha e quem perde. Quem controla a economia não quer mudanças bruscas em mercados já existentes, pois elas exigem investimentos para substituição prematura do parque instalado. A Teoria de Jogos e os valores de Shapley explicam bem a questão.

Eng. Luís Antônio W. Bambace – Doutor em Aerodinâmica Propulsão e Energia pelo ITA em 1990.

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1 comentário

  1. “…A questão não é quanto custa, mas quem ganha e quem perde. Quem controla a economia não quer mudanças bruscas em mercados já existentes,…” E o Brasil descobre o fogo !!!! Total independência de combustíveis e energia, já nas décadas de 1950/60 com BioCombsutíveis e BioDigestores. Tecnologia e Empresas totalmente Nacionais. E jogamos tudo isto fora. E aceitamos o cabresto por mais de meio século. E seguindo. Continuamos a prosperar a Indústria do Coitadismo, do Fatalismo, da Ignorância, do Analfabetismo, da Vitimização,….’Síndrome de Cachorro Vira-Latas’. A culpa é dos outros. Das Potências, do Colonialismo, da Escravidão,… E alguns dizem não enxergar como chegamos até aqui. Seria cômico…Pobre país rico. Mas de muito, muito, muito, mas muito fácil explicação.

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